O EDUCADORNARRADOR– UMA  TRAJETORIA PELA PALAVRA E PELA ESCUTA - ALINE CÂNTIA CORRÊA MIGUEL

A Universidade Federal Fluminense, em Seu Campus na (UFF), Niterói, 30/08/17, com Banca compostas pelos  Examinadores: Professores: (as) Dra. Carmem Lucia Vidal Pêres    (orientadora) – UFF; Professora Dra. Maria Esteban do Vale – UFF; Professor Dr. Fernando Resende –UFF; Professora  Dra. Teresa Goudard Tavares – UERJ; Dr. Mário Chagas – UNIRIO; Prof. Dr. Carlos Rodrigues Brandão – UNICAMP/SP e o Educador Popular Sebastião Estevão – UFV. Aprovaram a Tese de Doutorado da linha de pesquisa Estudos do  Cotidiano da Educação Popular. “O EDUCADORNARRADOR – UMA  TRAJETORIA PELA PALAVRA E PELA ESCUTA”, de autoria da aluna: ALINE CÂNTIA CORRÊA MIGUEL.

Aline Cântia Corrêa Miguel, em seu estudo sobre a Trajetoria pela Palavra e Pela Escuta, aprofundou o  pensar, o encontro entre o educador e o narrador que se constitui sobre a palavra e a escuta; de como aprender essa arte em contexto cultural.

Para  Aline Cântia,  o ato de Narrar conhecimentos  cria um ciclo de aprendizagens: “Aprende quem escuta; quem narra; quem escreve; quem Lê; pelos ritmos; lentidões e pausa da  palavra; pelas conversas fecundas entre: a educadora; narradora; pesquisadora e seus intercessores; pelo fenômeno da narração oral.

O dinamismo, fluidez  através da contação de estórias e historias: pede licença para acordar e ser acordada pela amorosidade e pela licença da palavra.

Para entender essa Narração Cântia buscou inspiração em Paulo Freire e no dialogo com os pensadores: Carlos Rodrigues Brandão, Hampatê Ba, Jorge Larrosa, Walter Bejamim, Paul Zumthor, educadorresnarradores como: Sebastião Farinhada, Boniface Ofogo e Silas da Fonseca,  que permitiu segundo Cântia: “transitar de maneira reflexiva pela a historia da Educação Popular no Brasil e America Latina”.

Nas suas lamentações e sussurros ainda na pesquisa, Cântia buscou nas indas e vindas, no fazer narradora: a alimentação que faltava para o sucesso da sua tese.

Cântia, contou na  análise da Banca, que a chave, o despertar da  idéia da tese foi o “Eu o Fazer”. Segundo ela: dessa idéia nasceu a  narradora que passou alimentar-se do fazer-se pesquisadora. “O Start da pesquisa aconteceu no dia que eu me percebi , além da narradora de historias e educadora. A partir daí o dentro e o fora passaram a dialogar, a se espiar, se revelar. E foi nesse ente que nasceu a tese: Educar e Narrar. A potencia de uma para outra”.

Segundo Cântia: “Narrar experiências cria um ciclo de aprendizagens: aprende quem conta, quem escuta, quem houve e quem lê. Considero que contar historias seja uma das mais antigas e mais potentes atividades da humanidade”. Não é à atoa que persiste no decorrer de tantos séculos, Questiona-se?

Cântia, conta que versando sobre os sujeitos da pesquisa os caminhos aos poucos foram sendo definidos: “A construção fluiu para uma possibilidade de conexões epistemológicas entre a narração, a educação popular e o cotidiano”.  

Para além do estudo educadornarrador, Aline Cântia encontrou nas hipóteses: Narrar se aprende? Pode Ser ensinado? Quais são as questões que os educadores narradores na contemporaneidade? Os motivos que faltavam  para abrir os seus horizontes e idéias: “Existem alguns contos que, toda vez que eu narro, percebo nos olhos dos ouvintes os efeitos de impacto e a atmosfera se transforma completamente”. Fundamentando em Regina Machado a teoria e sua percepção: “A historia é um acontecimento nos instante que se atualiza dentro de nós, ao contrario da informação, que precisa ser nova para ter sentido”.

Ainda para clarear a  narração, o conto e a fala: Cântia,  vai  ao encontro do Educador, nas palavras de (Machado), e menciona:       “Eu pertenço a uma instancia do que a vida que vivo todos os dias, habita um lugar com todos os seres humanos de todos os tempos. Que como eu também se indagam sobre  os significado de questões fundamentais, Os rituais de todos os tipos nos lembram disso, as historias tradicionais também. É como acordar de uma lembrança. As historias podem nos presentear com a possibilidade da recordação”.  Segundo Cântia: “O narrador é livre para interpretar a historia como quiser, e com isso o episodio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação”. Para Cântia “o narrador conta a sua historia como também a do outro e  assim se imprime a narrativa a marca do narrador”.

Bastante sabatinada pela Banca que levou mais de cinco horas de inquisição. Cântia sentiu-se feliz com a presença do Educador Popular Sebastião Estevão, conhecido como “FARINHADA” na composição da Banca.

Farinhada aparece em varias partes do texto, onde é grifado por Cântia em contraponto a outros narradores populares.  E justifica-se:  “Iniciando uma pesquisa sobre educação fora da sala de aula, especialmente na cultura popular e da narração de historias. Farinhada começou dizer-me o que pensava? Na cultura popular, nas cantorias, nas festas tradicionais, agente aprende porque vê o povo praticar e é convidado a experimentar. Se você chega numa roda de cachambu, de calango, se você não abre o ouvido não adianta: você não aprende”.  

E para abrir os ouvidos que dizer? “Esse “abrir  o ouvido” de que fala Farinhada me fez pensar em uma conexão entre o imaginado, o recomendado e o ouvido. É como diz Larrosa: “na escuta alguém estar disposto a ouvir o que não sabe, o que não  quer,  o que não precisa.

No texto  Cântia, transcreve um bate papo com Farinhada, sobre o significado de Educação Popular?  “Hoje a educação trabalha com alguns elementos que são interessantes, porque se ela traz a realidade que as pessoas vivem... E a cultura fala da realidade das pessoas a partir do chão que ela mora. Quando vou contar o congado com as crianças, por exemplo: Eu vou falar de maneira contextualizada com a realidade delas, o trabalho com a terra, dos negros, da cultura afro. A educação popular tem que estar contextualizada com este espaço, territórios e seus atores sociais”.  Segundo Cântia, a educação  popular tem que estar inserida na práxis social, ou seja: “como aquela que acontece com os grupos culturais populares, que é determinada pela realidade e da historia. Um saber que é fruto de experiências de vida, e é a partir dele que  o grupo se identifica com tal a troca de conhecimentos entre si, interpretada a realidade em que vive”.

Do contrario diz Cântia: “As praticas educacionais que ignoram os saberes trazidos pelos sujeitos, as suas historias de vida, as suas relações sociais, as suas maneiras de compreender o mundo e de nele interagir, ignoram uma série de elementos da cultura popular, silenciados por uma postura opressora e não dialógica”.

Quando o Farinhada canta o congado, diz Cântia: “Ele vai cantar contextualizada com a realidade, com a terra, com a historia, travando processos de transformação, produzindo novas relações em relação ao tempo a cultura e o trabalho”.

Cântia contando mais um relato do ativismo de Farinhada na volta de uma viagem de militância cultural descreve: “Agora vim de Rondônia onde fizemos mais uma caravana de educação popular. As caravanas são um exercício de pensamento, conversamos em casa em casa, com homens e mulheres e crianças sobre a posse da terra, soberania e segurança alimentar, proteção, manejo, e conservação dos recursos da terra, saúde, economia e trabalho, mercados, cidadania, conflitos, políticas publicas, cultura popular. É o momento de ouvir e contar historias da nossa vida, das nossas experiências do que ouvia em casa, nos movimentos sociais e o que recordo por ai. E você sabe como é, vamos  parando  e falando. E as historias as narrativas que agente conta  saem da boca mesmo. Mas tem que saber falar”.

Pensando na hipótese de narrador/ouvinte que é aquele sabe dar conselhos, Cântia assim descreve Farinhada: “Podemos concluir que Farinhada guarda consigo ao compartilhar a tradição e as experiências. É o “poder” potencial do narrador, ocupado especialmente pela capacidade de organização de suas idéias, juntamente com seu corpo e a sua voz de forma expressão única – o momento do ato narrativo, ainda que “de boca mesmo” como o Farinhada”.

Contextualizando a vocalidade  e a narrativa do Farinhada a Paul Zumthor, Cântia assim definiu a vocalidade:  [...] parece-me uma noção antropológica, não histórica, relativa aos valores que estão ligado a voz com voz e, portanto, encontra-se integrados ao texto que ela transmite. O que simplifica a abordagem filológica, pois pouco importa que o texto tenha sido composto por escrito  em vista de uma performance. Se ele for composto  por escrito em vista de uma performance (assim como a poesia destinada ao canto), sua vocalidade me aparece como uma intenção incorporada ao texto.

O professor Willer Araujo Barbosa da UVF, Universidade Federal de Viçosa presente como ouvinte, e  convidado de Aline Cântia, assim a descreve: “Aline Cântia é naradora e contadora de historias de nascença.Isso e um dom que ela carrega do  berço veio mostrar a universidade os educadores populares fora dos muros. Na verdade ela se Puri-ficou, pois ela nasceu em viçosa e é do mundo. Pois o que o puri é popular e é o povo”.

Concluindo, Aline Cantia diz que iniciou o trabalho de contação de historias ainda na adolescência. E que o narrador tem que ir além da Universidade dos espaços que já estão dados. “Como narradora de historia o professor tem que narrar suas historias, pois a academia ainda é muito contra o narrador de historias. Agente vai tentando, colocando o Farinhada na Banca,eles vão conhecendo o que é Farinhada e é isso”.

No final do resultado da Banca, Farinhada junto com outros amigos de UFV e da UFF, saíram em um cortejo cantando musicas de sucesso da Musica Popular Brasileira de Luiz Gonzaga: Olha pro céu meu amor, vê como ele esta lindo. Olha pra aquele balão multicor, como no céu vai sumindo...

 

Texto: Reinaldo de Jesus Cunha
Jornalista: 0036785/RJ

 

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