| Morador
de rua escreve peça e emplaca no circuito profissional.
A história "Diário dum carroceiro",
de Sebastião Nicomedes, chegou à atriz Iara
Brasil ("As encalhadas"), que resolveu dirigi-lo.
Por:
Carolina Requena, do G1, em São Paulo
Tião faz laboratório com o ator Antonio Carlos;
atrás, Iara Brasil e Max ''Minha preocupação
é não deixar a vida na rua ficar banalizada.
A gente ouve 'Ah, tá comum, o pessoal dorme aí
mesmo, ninguém liga mais'; mas é um outro
mundo, e de gente que precisa voltar pra esse mundo'', defende
Sebastião Nicomedes, enquanto esperamos para assistir
a uma sessão de ''Diário dum carroceiro''.
Ele é o autor da peça - um monólogo
-, escrita em madrugadas no albergue e debaixo de árvores
nas ruas, à caneta, num bloco de anotações.
O
texto de Tião conta a história de um puxador
de carroça, destes que se vê às centenas
nas ruas do Brasil. O carroceiro que ele inventou, o ''Quim'',
roda São Paulo na época das festas de fim
de ano.
''Passei
natal na rua e ficava lembrando 'Já tive uma família,
já tive uma casa, e agora tô aqui. Vou passar
o reveillon na Paulista, tanta gente nesse lugar, e ninguém
me conhece, não conheço ninguém''',
lembra de onde vem a história.
É
o segundo texto de Tião. O primeiro, ''Bonifácio
Preguiça'', ele mesmo protagonizou, com colegas alberguistas,
em 14 abrigos de SP. ''A gente passava nas praças,
nas casas de convivência, todo mundo sabia quem era
e o que a gente fazia'', lembra do sucesso no circuito extra-oficial.
Sebastião
Nicomedes virou morador de rua em 2003, depois de perder
todo o dinheiro investido num negócio de comunicação
visual. Ele caiu do segundo andar de um prédio enquanto
pendurava uma placa. ''Minha situação de rua
começou no hospital'', lembra. ''Ninguém apareceu''.
Sem
dinheiro, foi dormir nas ruas perto do Mercadão,
depois, pediu abrigo num albergue. Um dia veio a ONG Centro
de Artes Alternativas e Cidadania, e Tião se destacou
como ator e dramaturgo. ''Tem muita gente com talento ali,
que passa batido'', garante.
Assim,
ele foi parar no circuito profissional. Mas não vive
do teatro. Nesta semana, está contente porque vai
pintar uma casa: ''Graças a outro curso que fiz no
albergue'', explica. ''Vou tentar alugar um cantinho e ter
privacidade pra trabalhar nos meus textos''. Tião
está escrevendo um livro.
Faltam
cinco minutos para a peça começar. O autor
confessa que não vai sempre ver a encenação
porque algumas passagens o trazem lembranças ruins.
''Você vai ver quando o Quim leva um balde de água
gelada na cara. Isso foi uma mulher que me enxotou de um
restaurante lá na São João'', adianta.
Não
chegamos a ver a cena. A apresentação foi
cancelada por falta de público.
Diário
dum Carroceiro
Onde: Teatro Fábrica São Paulo - Porão
(80 lugares); Rua da Consolação, 1623
Quando: Sábados, às 19h; domingos, às
18h. Até 17 de dezembro
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia)
Informações: (11) 3255-5922
Fonte:
www.g1.com.br |