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Um crime continuado que ameaça a todos nós


"A lei trabalhista impõe a sucessão, ou seja, a nova empresa deve assumir todos os débitos, e estes devem ser pagos em dinheiro." (Rodrigo Carelli, procurador do Ministério Público do Trabalho )

Mais do que um crime pontual contra toda uma corporação, o desenlace do complô que abateu a Varig assume ares de uma grande ameaça: a consumar-se o calote trabalhista e previdenciário que deixa seus funcionários e aposentados a verem navios, todos nós estaremos expostos ao mesmo ardil, à mesma punga.

De uma só cajadada querem extinguir obrigações patronais de pagamentos de salários e direitos, enquanto golpeiam os aposentados, numa sinalização macabra sobre o destino dos fundos de pensão complementar.

Todo esse esbulho foi tramado num cenário paradoxal. Por trás da cortina está o governo de um partido que saiu das próprias entranhas das classes trabalhadoras e em seu nome alçou o poder com um balaio de esperanças e um rosário de ilusões.

Não falo de um epílogo, porque, como é do processo histórico, não há crime perfeito. Mas digo que estamos no auge da farsa. É o momento mais perverso. Tão perverso que tenta desfigurar as próprias vítimas, com o canto dantesco do "salve-se quem puder".

Nesse ambiente de culto da indignidade, não podia ser mais chocante, como reflexo do cinismo em voga, a proposta de uma revista para que aeromoças matem a fome de 110 dias sem salários posando nuas, para saciar a tara sadomasoquista dos robôs forjados por um sistema sem alma, sem valores morais e sem princípios.

O massacre da Varig é a ferida mais exposta de uma civilização autofágica.
Eu poderia chorar com vocês as demissões funestas. Poderia apontar o efeito trágico com a morte do comandante Rodrigo da Matta, aos 43 anos, tocaiado pelas nuvens da incerteza. O ainda jovem comandante, mesmo de férias, realizou os exames que a atividade profissional exige a cada ano. Parecia tudo em ordem, conforme os aparelhos que vasculharam seu organismo.

E, no entanto, no fim de uma tarde tensa, quando se anunciava para o dia seguinte a ceifa das cabeças, seu coração foi fulminado pelos nervos à flor da pele. Poderia falar tanta coisa desses dias tão ínvios e tão cruéis. Poderia transcrever depoimentos pungentes, como a emoção da comissária ao desfazer-se de seu uniforme.

Mas eu prefiro alertar para o óbvio: temos uma Constituição e vivemos num regime de direito, que ninguém vai rasgar de uma só penada. NÃO, MESMO!

Como disse na assembléia dos funcionários da Varig, que me ouviram como a um irmão mais velho, mais que o lamento de toda essa brutalidade cabe a cada um, e a todos juntos, dar a sua resposta em nome de oitenta anos de história que só orgulho proporcionou a todos os brasileiros.

A todos juntos, insisto. O pior que pode acontecer a um profissional é perder a dignidade e expor-se a atitudes como daquele "antigo funcionário" que fez um discurso de encomenda no dia do leilão que ofereceu 11 mil cabeças ao chinês Lap Chan, o representante do fundo norte-americano de investimentos, tido por lá como "abutre".

A todos juntos, porque não adianta alimentar ilusões ou sonhar com atalhos. Esses que se apoderaram da estrela brasileira não são dignos da confiança de um cego, quanto mais de pessoas provadas num dia-a-dia de tantos serviços prestados no ar e em terra.

Você acredita mesmo que só vão demitir 5 mil e 500? Você está fora do primeiro listão, se considera um afortunado sobrevivente e já começa a fugir dos parceiros? Você acha que mantendo o seu batente nada mais tem o que fazer para não contrariar suas chefias?

Quanto desespero e quanta ingenuidade. Você que está por dentro da companhia sabe que está na mira de uma roleta russa. Sabe que só em salários atrasados devem mais de 106 milhões de reais. Sabe que as verbas rescisórias chegam a 230 milhões. E sabe ainda mais, o que parece mais trágico, que os aposentados do Aerus podem ter suas pensões confiscadas com sua liquidação, até porque já estão sendo surrupiados na maior.

Vá à luta ou se renda para sempre
Você sabe ainda que não pode contar com sua ferramenta mais antiga - o sindicato. Esse pérfido partido, que pretende eternizar-se no poder sob o manto do embuste, tratou de "aparelhar" as entidades classistas, cujo comportamento faz inveja aos antigos pelegos que faziam o jogo dos patrões e do governo em troca de sinecuras como juízes classistas e outras vantagens nas tetas do Ministério do Trabalho.

Com sindicatos inteiramente "dominados", em que se pontificam as miniaturas da grande traição, você não terá para quem apelar, a menos que descubra, como os colegas de São Paulo e Porto Alegre, que ainda existe a arma do protesto, a greve, a manifestação, a ação trabalhista, o direito de espernear, de não ir mansamente para o abate.

Nesta quinta-feira, haverá uma nova assembléia na mesma ABI de tanta história. Vá lá, chame os demais, inclusive os que ainda não foram alvejados pelo listão da arbitrariedade. Vá lá pensando no conjunto, no que você e seus companheiros representam como patrimônio de conhecimentos acumulados.

Vá ao encontro dos seus e acredite no elo, na possibilidade de reverter tudo isso ou pelo menos garantir os seus direitos mínimos. Vá lá com a altivez que marcou sua vida profissional, que é um acervo de toda a aviação comercial brasileira.

Vá sem medo de ser marcado para o caso de amanhã precisarem de mais gente - hipótese que acho remota. Se precisarem, vão recorrer é a você mesmo, que conhece a companhia por dentro, suas aeronaves e seus segredos.

Se você tiver coragem de brigar pelos seus direitos, eles vão ter mais é que respeitar. Porque, com certeza, seu emprego nunca foi um favor. Ao contrário, se a Varig ainda voa, se deve exclusivamente à sua disposição de lutar por ela.

Vá lá, faça chuva ou faça sol, porque, se você titubear, nada mais lhe restará senão mostrar o corpo dolorido para leitores da revista que mostra mulheres bonitas para o gáudio de insatisfeitos sexuais. Ou trate de buscar asilo onde não canta o sabiá.

E se você entregar os pontos no barato, toda esse valhacouto de aventureiros contaminará a sociedade, porque com esses podres poderes a retidão não conta. Vale, isto sim, a propina que a todos seduz, como é da natureza dos nossos dias.

coluna@pedroporfirio.com

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