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"Ela lembrou muito o Brizola na televisão."
(Marcus Figueiredo, cientista político do Iuperj)

 

"Ela fala o que a gente quer falar e ouvir, é porta-voz da raiva, da indignação e, além disso, tem simpatia." (Patrícia Pilar, atriz)

Pincei essas duas frases da matéria de capa da revista "Época" desta semana, assinada por Ruth de Aquino, mas devo dizer que foi meu filho, jornalista e "marqueteiro político", que relembrou a semelhança entre a marcha de Heloísa Helena, hoje, e o "furacão" Brizola, em 1982.

Vladimir Porfírio falou como observador, até porque se preserva com relação às suas preferências para presidente. Mas na conversa que tivemos ontem, querendo ou não, ele ofereceu os elementos de que precisava para declarar minha disposição de votar na inquieta candidata da melhor oposição a tudo isso que está aí.

Os dois vivenciamos a virada de Brizola nas eleições para governador do Rio de Janeiro, apesar das fraudes da Proconsult. Quando ele se fez candidato, ninguém podia imaginar que viesse a ameaçar Miro Teixeira e Sandra Cavalcanti, os favoritos de então.

De repente, por conta dos debates no programa "O povo na TV", ele reverteu o quadro, devido a sua sinceridade e pela fortaleza de suas convicções, empolgando a grande massa de insatisfeitos que até então permanecia silenciosa. Com Heloísa Helena está acontecendo o mesmo, em dimensão nacional. Eu próprio tinha minhas reservas, por sua longa militância no PT, partido em que nunca acreditei e em que nunca votei, mesmo quando Brizola admitia "engolir o sapo barbudo".

Ontem mesmo, fui cobrado por um companheiro, que hoje mora em Casimiro de Abreu, do por que não estou concorrendo a deputado estadual pelo P-SOL. Dei-lhe uma resposta que não daria hoje. Disse que votaria nela por exclusão, até porque achava que ela não tinha possibilidade sequer de chegar ao segundo turno.

Uma nova visão de HH
Hoje penso diferente sob dois aspectos. Primeiro, gostaria de tornar pública minha reavaliação sobre a senadora, embora persistam algumas diferenças de enfoque, sobretudo em relação ao direito da mulher de decidir sobre a concepção. Ela é contra e só admite programas preventivos de controle. Eu sou inteiramente a favor em qualquer circunstância, desde que preservados valores éticos e morais.

Em segundo lugar, acredito num fenômeno eleitoral, até porque, como comentou o jornalista norte-americano Jack Chang, "ela é a única novidade nesta eleição". Estou convencido de que os grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro, poderão oferecer uma grande surpresa, de forma a assegurar o segundo turno entre ela e Lula.

Alckmin, como escrevi no dia 6 de fevereiro, se sobrepôs a José Serra para ser o falso adversário. De certa forma, da maneira como se manifesta e até mesmo com seu jeito de representante da "elite branca" de que falou seu aliado Cláudio Lembo, ele só serve de trampolim para Lula dar saltos cada vez mais altos nessas pesquisas de pouca valia.

A conversa com meu filho, a entrevista de Heloísa Helena na TV Globo e a reportagem da revista "Época", escrita por uma das mais competentes profissionais que conheci, me abriram uma nova janela de compreensão. E me fizeram entender o que sempre desejei: votarei afirmativamente e não apenas para não votar em outros candidatos.

É claro que vivo a atmosfera do Rio de Janeiro, uma cidade politicamente bem informada. Aqui, pode até ser que os programas de distribuição de cestas básicas, cheques de cem reais e outras práticas compensatórias sirvam para pavimentar caminhos de candidatos a deputados, que abusam do clientelismo com a manipulação de recursos públicos e com as propinas que amealham nas picaretagens conhecidas.

Mas na eleição majoritária, há uma grande faixa de eleitores que fazem uma opção política, pensando no País e agindo segundo impulsos coletivos.

Aqui, onde Brizola ainda é a única grande referência nacional, há ainda uma população menos sujeita ao discurso hipócrita das conversas fiadas quando se trata de Brasil. Na última eleição, foi aqui que esse mesmo Lula, que parecia a chave da esperança, teve o seu maior percentual de votos no segundo turno.

Estou à vontade para revelar minha expectativa positiva em relação a Heloísa Helena porque me sinto inteiramente independente, até porque o partido a que me filiei há um ano não tem candidato a presidente.

Só lamento que o PDT, que poderia ter um belo desempenho nessas eleições, não tenha tido clareza e tenha preferido o isolamento. Se os mortos falassem, com certeza Leonel Brizola estaria fazendo parte da mesma frente que hoje representa uma alternativa para melhor nesse quadro de incertezas que nos deixa preocupados em relação ao Brasil de amanhã.

Tempo para os "partidões"

O grande problema é que vivemos uma ditadura invisível, uma espécie de democracia privativa dos corruptos. Você verá o que estou dizendo a partir desta semana.
Os deputados e senadores legislaram em causa própria no sentido de preservar seus espaços, mesmo pilhados em listões de corrupção. O tempo de televisão e rádio é distribuído de acordo com o número de deputados de cada legenda. Isso acontece também com os recursos do "fundo partidário".

Resultado: enquanto os candidatos dos partidos dos sanguessugas e mensaleiros ocuparão a maior parte do horário gratuito, candidatos de partidos sem bancada em 2003, como o P-Sol e o PMN, terão que recorrer ao mesmo apelo do Enéas.
Heloísa Helena terá 36 segundos para dizer o que pretende fazer para resgatar a esperança do povo. Até a TV Globo foi mais democrática do que essa lei, a meu ver, de constitucionalidade duvidosa. Porque nenhum candidato é menos candidato do que o outro.

Lula vai mal

Se Lula estivesse realmente bem, não teria abandonado Vladimir Palmeira à própria sorte e recorrido aos mistificadores da Igreja Universal, cuja bancada, arrancada da boa fé dos crentes, é a que tem percentualmente o maior número de envolvidos em maracutaias. Se tivesse com essa bola toda, Lula não precisaria ter ido ao "culto eleitoral" de Crivela, na Cinelândia, coração político do Rio de Janeiro.

 

coluna@peodroporfirio.com
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