.

INSTITUCIONAL
Nossa História
Utilidade Pública
Associe-se já!
Fale conosco
Departamento Jurídico
Parcerias
Previ-Rio
Força Ativa
Moções e Diplomas
Artigos do Presidente
Links especiais

.

EDITORIAS
Primeira
Especial
Política
Economia
Cidade
Esporte
Internacional
Saúde
Cultura
Televisão
Astral
Livros
Fique Atento Servidor
Notícias Anteriores

Classe média à beira de um ataque de nervos (III)

 

Na segunda matéria sobre o sufoco da classe média no Brasil, encerrei com uma referência à reportagem publicada na revista "Época", que trabalha com dados mais recentes. Na edição de 12 de dezembro de 2005, Patrícia Cançada e Maria Laura Neves afirmam que a classe média perdeu espaço no mercado de trabalho, viu seu salário encolher e as despesas aumentarem. Concorre com gente cada vez mais qualificada pelas mesmas vagas e está endividada para manter o padrão de vida do passado.

Profissionais liberais, funcionários com cargo intermediário nas empresas, servidores públicos e outras categorias típicas do meio da escala social vivem uma nova realidade. Seu mercado de trabalho ficou mais congestionado, seja porque o País cresce pouco e gera poucos empregos, seja porque as universidades estão formando muito mais gente. O resultado é a queda na renda. Na outra ponta, as despesas aumentam porque o governo cobra mais impostos e não garante educação, saúde nem aposentadoria.

"A luta para ficar na classe média está maior", observou Carlos Antonio Ribeiro Costa, especialista em mobilidade social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, na matéria da "Época". "Na década de 70, os filhos de classe média tinham 2 mil vezes mais chances de conseguir um bom emprego que o filho de um agricultor. Hoje, a diferença é quatro vezes menor, sinal claro de mais competição." De 2001 para 2003, o acesso à universidade cresceu 26%.

Nesse período, foi criada, em média, uma faculdade particular por dia, segundo o Ministério da Educação. Se por um lado os novos cursos facilitaram a ascensão social, por outro congestionaram o mercado de trabalho, ao qual oferecem profissionais de qualificação precária.

Patrícia e Maria Laura comparam: o rendimento da classe média caiu 19,4% entre 1995 e 2004, enquanto o peso dos impostos sobre os brasileiros aumentou no mesmo período em 20,3%.

Corte nas despesas
As jornalistas dizem também que os gastos com saúde caíram nesse período, sinal de que parte da classe média não está conseguindo mais pagar planos particulares. A classe média também cortou despesas com carro, roupas e alimentação. Por outro lado, gastou 88% mais com educação.

No entanto, uma parte da classe média está retornando seus filhos à escola pública, apesar do abandono em que ela vive. As mensalidades escolares de primeiro e segundo graus não saem por menos de R$ 200,00 e chegam a mais de R$ 1.000,00, dependendo do colégio.

No caso dos planos de saúde, chegamos a um beco sem saída. Com reajustes que representam o dobro dos aumentos salariais autorizados pelo governo, muitos brasileiros estão ficando sem condições de manter esse serviço, que vem piorando dia a dia. Só em 2006, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) fixou em 11,69% o reajuste dos planos de saúde contratados a partir de janeiro de 1999.

O novo percentual é superior à inflação de 7,6% no ano passado e segue a mesma linha de aumentos: em 2004, o acréscimo foi de 11,75%.

Fazendo um diagnóstico a respeito, Paulo Magnus, diretor de uma empresa que presta serviços na área de saúde, escreveu: "Nos últimos anos, o nível de emprego e subemprego, no País, tem crescido assustadoramente, diminuindo o número de usuários de planos e seguros de saúde. Em 1998, havia mais de 43 milhões de usuários, sendo que atualmente este número não ultrapassa a 38 milhões. São índices expressivos que demonstram que, no período, mais de cinco milhões de pessoas migraram para o SUS, como única alternativa de assistência.

Atualmente, a maioria dos usuários individuais, vinculados às operadoras de saúde, são originários das classes mais altas e representam uma porcentagem bastante pequena, em relação à grande maioria de usuários, composta por titulares e dependentes de planos empresariais. Muitas dessas empresas, em virtude das dificuldades econômicas, tiveram suas margens de lucros corroídas e passaram a pressionar as operadoras em busca da redução dos custos. Os usuários individuais que tiveram o seu padrão de vida rebaixado também encontram dificuldades de suportar o valor das mensalidades.

Por outro lado, os médicos que na última década não tiveram reajustes nas consultas e procedimentos perceberam que unidos têm uma força enorme e começaram a pressionar as operadoras e hospitais. O movimento dos médicos, cujo primeiro ato ocorreu na década passada com o descredenciamento dos anestesistas, chega agora às outras categorias, podendo provocar grandes transformações no setor".

Saúde vai mal
Como se vê, o sistema privado de saúde em grupo também está à beira do colapso. Seu custo absurdo não espelha a qualidade dos seus serviços. Dados comparativos indicam que os gastos de particulares com saúde chegam a R$ 40 bilhões, o mesmo valor de todos os orçamentos de saúde da União, estados e municípios.

A situação é mais trágica para os idosos, que representam 16% dos usuários dos planos particulares de saúde. Já com as aposentadorias reduzidas, os maiores de 60 anos fazem parte do maior grupo de desistências nos casos dos planos individuais (obs.: a tragédia dos idosos será tratada em outra coluna dentro desta série).

Há, como expomos, uma relação direta entre o sufoco da classe média e o caos social nas grandes cidades. É claro que não podemos esquecer o grande número de brasileiros na faixa de pobreza, com renda inferior ao mínimo, e os que ganham salários miseráveis.

O quadro social só é confortável para as elites. Estudo do economista Márcio Pochmann revela que nos últimos quatro anos os 10% mais ricos tiveram aumento de renda de 65,8%, enquanto os 20% mais pobres, só 19,2%. Na sua análise, o ex-secretário de Trabalho de São Paulo critica o uso da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) como único medidor do abismo social no País. Isso porque quem vive só de salário ou doações declara tudo que tem, enquanto quem recebe renda de aplicações financeiras tende a não declarar parte do ganho. A conseqüência, diz ele, é que a renda dos mais pobres aumenta, mas aumenta igualmente a dos mais ricos, que, contudo, é subdeclarada. Assim, a desigualdade cai nominalmente, mas não na realidade.

www.pedroporfirio.com

Copyright© 2006 - ASFUNRIO
Visualização Mínima 800x600 melhor visualizado em 1024 x 768
Produção: Cristiano Coubé - Gerenciado e Atualizado: Leonardo Lopes