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Varig, a hora da chacina anunciada

 

"Por mais razões que existam para a preservação de uma empresa, não é possível fazê-la aniquilando direitos fundamentais do ser humano, dentre os quais, o da sobrevivência e o do respeito à sua dignidade. Vale lembrar que a própria atividade econômica, por nossa Constituição, foi vinculada à produção de justiça social e o valor social do trabalho é um dos fundamentos da República." (Marcelo Semer, presidente da Associação de Juízes para a Democracia)

De certa forma eu me penitencio por ter deixado de escrever nesses dias sobre a carnificina que vitima os competentes profissionais da mais emblemática companhia de aviação do Brasil. Acho que minha palavra faz falta nesse capítulo infausto de nossa história. E faz falta mais agora, quando a desesperança bate às portas de muitos dessa invejável corporação. Desesperança eivada de dor e sofrimento inimagináveis.

Não que eu assuste os demônios que perpetram essa ignomínia com o sádico prazer dos lobos maus. Esta coluna não é nada diante do turbilhão de pepitas que reluz cintilante e fala mais alto. É mínima porque o autoritarismo não sumiu, antes pelo contrário. Como vírus do mal, tornou-se móvel inconsciente de todos os crimes, muitos em nome da Lei e da Ordem. Em nome do regime, do sistema, do mercado, enfim, de toda essa pasmaceira esbelta que lustra as hipocrisias de um cotidiano tão medíocre quanto injusto e friamente perverso. Uma vergonha maligna.

Não falei ultimamente da Varig porque estou no meu próprio calvário. Você sabe. Decidi ser candidato a deputado estadual e estou pagando o preço por não ser do valhacouto dominante, por não ter grana sobrando, não ter tempo na televisão, não ter campanha financiada por empresários, enfim, pelo exercício da minha própria vocação quixotesca. Pela intransigência de minha dignidade, que me leva a sofrer traições diárias, inclusive por parceiros, como o próprio candidato a governador da coligação, que prometeu material e apoio, e até hoje nada, como se ele tivesse interesse em me ver pelas costas.

Eu mesmo cuido de tudo. Escrevo meu panfleto, vou à gráfica, repasso o material para os amigos, enfim, como é da parábola esportiva em voga, bato o córner e parto para cabecear.

O sacrifício dos inocentes
Aí, quando sento para escrever minha coluna, sofro mais da conta. Continuo recebendo notícias do nosso próprio inferno, vendo famílias inteiras se desintegrando, vendo acontecer hoje com tantos e tão dedicados profissionais o que só ocorreu naqueles tempos de intolerância explícita.

Vendo e sofrendo, como se também fizesse parte de uma família que tanto serviu ao nosso Brasil, como escreveu com tanto talento o coronel Luiz Carlos Andreaci, quando a torpeza ainda não havia sido consumada: "Não é à toa que a Varig consta no cancioneiro popular, na poesia brasileira e não é à toa que existe uma enorme manobra política nesse momento querendo derrubá-la".

Ainda estou traumatizado com a maldade sacramentada por um juiz. A Constituição cidadã de 1988, tida e havida como a melhor de nossa história, foi ostensivamente ignorada com a fórmula sórdida encontrada para preservar a marca da octogenária companhia aérea.

Ainda prevalece a decisão de um juiz de primeira instância pela qual a "nova Varig" não tem obrigação de pagar as dívidas da "velha". Nem os atrasados do seu pessoal, nem as obrigações trabalhistas, nem as dívidas que funcionaram como uma Espada de Dêmocles sobre a companhia, nem nada.

O absurdo é tão extremo que até o presente momento estão querendo simplesmente afastar a Justiça Trabalhista da matéria. Quer dizer: há quem entenda, como a maior sem-cerimônia, que o preço de manter a marca da empresa e algumas fantasias remotas é subtrair do seu pessoal todo e qualquer direito. É deixar milhares de profissionais à míngua, até que um dia a empresa reveja seus créditos (todos pendentes) e então haja algum para cumprir a mais sagrada das dívidas - a trabalhista.

Eu sei que no próximo dia 24, quinta-feira, o juiz da 33ª Vara do Trabalho vai anunciar sua sentença a respeito de ações movidas por associações de funcionários da Varig. E, com certeza, pelo que entendo de direito trabalhista, a decisão deverá ser adotada inspirada nesses princípios elementares.

Mas e daí? Os procedimentos conhecidos estão de costas para a sorte dos demitidos. E o que é igualmente grave: tão massacrados como esses estão também os aposentados que recebem complementação pelo Aerus, que fez seus depósitos evaporarem e mantém seus beneficiários na mais trágica das incertezas.

Vozes da lucidez
Há vozes que não participam dessa manobra torpe que em nada difere desse ambiente de imoralidades que marcam nossos dias. O documento da Associação dos Juízes pela Democracia é uma peça irretocável. Veja esse trecho:

"Nos últimos meses, nossa sociedade tem acompanhado a agonia da Varig, que culminou com a dispensa de milhares de empregados que nem mesmo vinham recebendo regularmente seus direitos trabalhistas. Embora tal situação não seja inédita nem isolada o caso adquiriu grande relevância pela extensão de pessoas atingidas, 5.000 dispensados.

Seu desfecho poderá servir de parâmetro para outros casos que lhe venham a suceder e, em última análise, de padrão de conduta social. Sua importância decorre ainda de ser representativo de tempos nos quais empresas são recuperadas com o sacrifício da subsistência de trabalhadores".

Tenho recebido e-mails de profissionais que não sabem o que fazer, porque, há cinco meses sem salários, esgotaram todas as suas economias. Uma comissária escreveu: "PELO AMOR DE DEUS, TENTA NOS AJUDAR ATRAVÉS DE SUA COLUNA, QUE SEI QUE VOCÊ TORCE POR TODOS NÓS".

Ela faz parte de um grupo que até há pouco nos conduzia com competência e carinho pelos céus do Brasil e do mundo. De repente, como se por um castigo, esse grupo passou a ser o primeiro coletivo levado ao sacrifício de forma impiedosa com base em uma lei que foi patrocinada pelo Partido dos Trabalhadores, conforme desejo do sistema financeiro.
Ela e seus colegas viraram bucha de canhão de uma chacina social jamais consumada em toda a nossa história de relações de trabalho.

Chacina que tem a cara infame de um sistema macabro contra o qual temos que nos insurgir todos e não apenas suas vítimas de hoje, cavando quantas trincheiras sejam possíveis. Porque, como estamos com a razão, nem tudo está perdido.

 

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