| Idosos
- A realidade que a demagogia esconde
"O
risco é que se desenvolva uma espécie de apartheid
entre idosos e a população economicamente
ativa, que poderá passar a encarar os mais velhos
como pessoas financeiramente dependentes, como uma carga
econômica". (Relatório da Unesco)
Há
um dado preocupante: os governos não se preparam
para o envelhecimento da população brasileira.
Ao contrário, é evidente a ausência
de uma estratégia afirmativa em face dessa tendência.
Projeções oficiais indicam que em 2020 os
idosos brasileiros chegarão a 25 milhões -
15 milhões de mulheres - numa população
de 219,1 milhões. Eles representarão 11,4%
da população. Em 2002, o País tinha
16.022.231 de pessoas com 60 anos ou mais, representando
9,3% da população, e 56,0% deles eram mulheres.
Independente
de quem seja o novo presidente, há um acordo político
para uma "terceira reforma da Previdência".
Ela deve aumentar a idade mínima para aposentadoria
entre os celetistas, como já ocorreu com os servidores
públicos estatutários. Além disso,
o chamado fator previdenciário continuará
pressionando para que os trabalhadores de classe média
tenham uma aposentadoria bem inferior ao que ganham na ativa,
sem falar no absurdo desconto de 11% que passaram a sofrer
com a mudança patrocinada pelo governo Lula em 2003.
As
mulheres serão as mais atingidas pelo novo projeto.
É possível que percam os cinco anos a menos
de tempo de serviço, a que fazem jus em conseqüência
da dupla jornada. Hoje, o fator previdenciário já
reduz seu benefício da aposentadoria.
Uma
trabalhadora que ingressou no INSS após 22 anos,
aos 52 já teria condições de se aposentar.
O fator previdenciário, no entanto, reduziu o benefício
dela em quase 30%. Na verdade, terá que trabalhar
mais cinco anos para chegar a esse valor.
No
caso das professoras, com direito à aposentadoria
especial após 25 anos de contribuição,
a redução é ainda maior. Se, como no
exemplo anterior, a professora começa a trabalhar
e a contribuir para a Previdência aos 22 anos, aos
47 ela poderia requerer o benefício. Mas com perda
de 40%. Para recuperá-la, teria que contribuir por
mais 20 anos a fim de receber o benefício integral.
Com
a "reforma" bancada por Lula, a vida de todos
os servidores foi atingida. Em relação à
idade, o homem só pode se aposentar aos 60 anos e
a mulher, aos 55. Isso quando números oficiais indicam
que é praticamente impossível conseguir um
novo emprego depois de 50 anos.
Os
números reais
Em 2003, as pessoas com 60 anos ou mais eram 9,6% da população,
mas havia pelo menos um idoso em 25% dos lares brasileiros.
Nessas famílias, em geral constituídas também
por filhos e até netos, os idosos contribuem, em
média, com 54% do orçamento familiar, segundo
estudo da demógrafa Ana Amélia Camarano, que
publicou livro com um diagnóstico profundo da terceira
idade.
A
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)
de 2003, divulgada pelo IBGE, aponta uma população
de 16,7 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais,
7,3 milhões homens e 9,3 milhões mulheres.
Mostra ainda que os idosos eram 6,4% da população
em 1981, passaram para 8% em 1993 e chegaram aos atuais
9,6%.
De
acordo com essa pesquisa, o nível educacional das
pessoas
de 60 anos ou mais, embora baixo, vem aumentando: enquanto
48,2% dos idosos com 75 anos ou mais tinham um ano de estudo
ou menos, entre os de 60 a 64 anos o percentual caía
para 30,5%. Entre os idosos, 12,1% moravam sozinhos, 24,8%
moravam com filhos ou parentes, 24,9% viviam com seus cônjuges,
mas sem filhos, e 37,9% moravam com os cônjuges e
com filhos ou outros parentes. Quase 65% dos idosos eram
a referência de suas famílias.
A
falta de compreensão da mudança do perfil
da população brasileira, que se dá
inclusive por conta da redução de nascimentos,
poderá levar o País, e em especial a classe
média, a uma crise de graves manifestações.
O
exemplo mais gritante da ausência de um sistema inteligente
de apoio público é o da cidade do Rio de Janeiro,
que tem o maior percentual de idosos do País. Um
estudo do Instituto Pereira Passos registrou a existência
de 752 mil idosos (que já representam 13% da população
total), descobrindo que eles são responsáveis
por um de cada quatro domicílios na cidade.
Os
orçamentos e as políticas públicas
estão longe de espelhar esse quadro. Pior: os aposentados
que gozam da complementação através
de fundos de pensão próprios já estão
sentindo perdas em função de revisões
ou mesmo de insolvência, como no caso do Aerus, de
aeronautas e aeroviários. Estes já tiveram
seus benefícios reduzidos à metade e, se a
crise continuar, em dezembro ficarão sem receber
nada.
Segundo
o levantamento, no ano de 2000, 21% das internações
em hospitais públicos foram de idosos, apesar de
corresponderem a apenas 13% da população.
As principais causas de internações foram
doenças do aparelho circulatório (30%), tumores
(26%) e problemas no aparelho digestivo (14%).
Copacabana
continua tendo a maior população de idosos.
Do total de 752 mil maiores de 60, as mulheres são
60%. Quarenta e cinco por cento são casados, 30%
viúvos, 14% solteiros, 13% separados ou desquitados
e 6% divorciados. A maioria ganha até dois salários
mínimos.
Ainda
sobre o aumento da população mais velha, vale
considerar as preocupações da Unesco: "As
projeções para o ano 2000 indicavam que haveria
590 milhões de idosos no mundo, e que, até
o ano 2025, eles serão mais de 1,1 bilhão,
o que representa um aumento de 224% desde 1975". Para
se ter uma idéia da proporção do envelhecimento
populacional, vale lembrar que, durante o mesmo período,
a população mundial deverá crescer
de 4,1 bilhões para 8,2 bilhões, ou seja,
um aumento de 102%. Daqui a 45 anos, afirmam as Nações
Unidas, os idosos constituirão 13,7% do total da
população do planeta.
O
problema é ainda mais agudo nos países em
desenvolvimento, onde, de acordo com dados da Organização
das Nações Unidas para Educação,
Ciência e Cultura (Unesco), estarão vivendo,
daqui a 25 anos, três quartos dos idosos do mundo.
Os
governos não garantem cuidados básicos, as
estruturas familiares tradicionais estão entrando
em colapso, e os esquemas privados de ajuda e previdência
são poucos. Apesar disso, nenhum movimento foi feito
até agora nestes países para desativar esta
bomba-relógio demográfica.
PS.: Estou encaminhando esta coluna antes da decisão
da Justiça do Trabalho sobre a Varig. Com certeza,
falarei a respeito na segunda-feira.
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