| O
calote trabalhista e suas perversas conseqüências
Quando
se fala em moratória da dívida externa, a
mídia grita. Mas diante desse calote nos empregados
da Varig em nome de sua recuperação financeira,
ninguém se toca. Rodrigo da Matta era um piloto que
preferia comandar um jato da ponte aérea para ficar
mais perto da família, em Niterói.
Temperamento
alegre e comunicativo, doce no trato apesar dos seus mais
de 1,90m de altura, corpo atlético, ele morreu aos
44 anos no final de julho, na semana em que o pai, o antropólogo
Roberto da Matta, festejaria seus 70 anos. O sol já
se ia, quando ele foi fulminado por um infarto.
Naquele
momento, o chinês Lap Chan, preposto de um fundo norte-americano
de investimentos, confirmava a mais impiedosa guilhotina
social de nossa história. Sem ver um tostão
desde abril, seis mil competentes funcionários iam
ser demitidos da Varig com um carimbo fatal: em nome da
Lei de Recuperação de Empresas, eles passariam
a ser tratados como se nunca tivessem trabalhado na empresa
octogenária.
Rodrigo
perdia a vida, mas não era a única vítima
de uma ciranda macabra. O megagolpe não ceifaria
apenas os trabalhadores em serviço. Estavam sendo
surrupiados também os aposentados e pensionistas
atendidos pelo Aerus, um fundo de pensão para o qual
contribuíram por anos e que também por anos
vinha sendo dilapidado ante a omissão dos órgãos
públicos.
Por
trás das cortinas, os trabalhadores e aposentados
da Varig viveram cenas dilacerantes de desespero e revolta.
Afinal, no ano passado, a empresa dera sinais de que tinha
tudo para dar a volta por cima.
Julho
passou e agosto está chegando ao fim. Numa hora em
que a mídia se ocupa dos "presuntos" mais
frescos, estão consumando na surdina o mais desonesto
dos calotes, a apropriação dos direitos dos
trabalhadores da Varig.
E,
enquanto um insípido burocrata da agência aérea
governamental disse na Assembléia Legislativa do
Rio de Janeiro que o governo não tem nada com isso,
a opinião pública vai sendo tapeada com meias
informações, como se tudo estivesse dentro
dos conformes.
Escondendo
a verdade
Aos poucos, o tempo vai escondendo a tragédia. O
que se fala agora é menos do essencial e mais de
outras vilanias típicas da súcia que se vale
de uma cortina de fumaça para perpetrar o crime por
inteiro.
Mal
pôs a mão na massa, o preposto do fundo abutre
tratou de fazer mal também ao Rio de Janeiro. Violando
acordos firmados com o governo do Estado, quer transferir
para São Paulo o que restar de vida da Varig. A empresa
de manutenção, os escritórios, enfim,
o Rio só não desaparece do mapa porque é
um bom aeroporto de passagem. No mesmo instante, a agência
governamental precipita-se na transferência das linhas
da Varig para suas concorrentes.
É
ma pena, uma grave constatação, que a opinião
pública não esteja se sentindo igualmente
lesada por esse golpe, no qual os atingidos de hoje são
apenas os "abre alas" de um novo e perverso modelo
de relações trabalhistas. Modelo inacreditável,
mas que vai se cristalizando sob os olhares lânguidos
de todos - mídia, políticos, formadores de
opinião.
Recapitulemos,
já que nós desta TRIBUNA DA IMPRENSA estamos
sozinhos tentando contar essa história suja de cabo
a rabo.
Havia uma respeitada empresa aérea, a maior do Brasil.
Por causas próprias e em face de políticas
governamentais, ela foi enfrentando turbulências quase
intransponíveis. Embora os próprios empregados
tivessem oferecido seus corações e mentes
para assumi-la e recuperá-la com o mínimo
de fraturas, o juiz empresarial optou por outro piloto.
Que piloto!
Com
base numa lei nova, de 201 artigos e uma infinidade de parágrafos
e incisos, aprovou um plano de recuperação
que deixa seus empregados a pão e água. Para
isso, é bom que se diga, contou com a solidariedade
militante de um sindicato cuja única preocupação
é postar-se como linha auxiliar do governo que, por
motivos mais do que conhecidos, abandou à Varig à
própria sorte.
A
vigília da verdade
Nesse script, a ficção impôs-se como
fato consumado. A empresa não faliu, mas seus empregados
e os aposentados se tornaram buchas de canhão. Por
uma alquimia em nome da Lei 11101/95, a Varig foi dividida
em duas: a velha, com suas dívidas, e a "nova",
eximida de suas obrigações trabalhistas, com
um brutal corte epistemológico em sua história,
como é, aliás, praxe da súcia do PT.
Resultado:
seis mil demitidos não sabem a quem apelar para receberem
os atrasados, e os seus direitos trabalhistas. O sindicato
dos aeronautas tratou tão-somente das autorizações
para sacarem o fundo de garantia e recorrerem ao auxílio
desemprego. O principal, que soma mais de R$ 300 milhões,
fica para quando Deus quiser.
Para
consolidar essa ignomínia trabalhista, o preposto
do fundo abutre joga com a divisão dos empregados.
Anunciou a demissão de 6 mil ao arrepio dos próprios
acordos coletivos de trabalho. E deixou outros 3.800 como
sobreviventes, aferrados aos seus salva-vidas, o que é
compreensível, considerando que o mar não
está para peixe.
Entre
os demitidos e os mantidos criou-se um grupo de premidos
pela esperança. Eu até gostaria que estivessem
certos, mas estes preferem chorar baixinho, sem incomodar,
esperando que um dia sejam lembrados e repescados. É
para contar essa história aos seus antigos passageiros
que comissários, pilotos e aeroviários da
Varig fazem uma vigília hoje, a partir das 14 horas,
no Aeroporto Santos Dumont.
Se
você passar por eles, não deixe de ouvi-los
atentamente. Porque o que eles estão passando hoje
pode sobrar para outros assalariados amanhã. Eles
vão tentar manter a denúncia dos maus-tratos
no ar, já que para a quase totalidade da mídia
o massacre que sofreram já é página
virada.
Pedro
Porfírio
www.palanquelivre.com
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