| Não
basta escrever, é preciso participar
"O
que permitiu à imprensa atingir um nível de
grande reconhecimento foi a sua nobilitação
como instrumento necessário da prática política,
atuando contra e a favor do Estado, movimentando-se entre
os diversos grupos, facções, partidos, formações
e manifestações, dentro do espaço da
discursividade política nacional". (Lavina
Madeira Ribeiro, em "O processo de institucionalização
do jornalismo no Brasil")
Eu
não devo, nem posso perder a serenidade. Por dever
de ofício, obrigo-me a cingir-me a um certo limite
de linguagem. Aqui, neste espaço da TRIBUNA DA IMPRENSA,
que ocupo desde 1968, sou um jornalista. Não mais
que um escriba, com toda a liberdade que só aqui
disponho, mas, até por isso, com uma carga pesada
de responsabilidade no trato da expressão de minhas
críticas.
Há
milhares de leitores que acessam este jornal como se a uma
pequena ilha de pirilampos, perdida nesse mar escuro de
incertezas. Eu sei disso. Sei por que me movo há
anos entre a pena e a lei. Decididamente nunca me propus
a ser um deslumbrado por estar no pretenso quarto poder.
Não mesmo. Nunca almejei os píncaros da profissão,
os raros bons salários que os grandes complexos do
ramo ainda oferecem, mediante as mãos atadas até
o dia em que nos cortam a cabeça.
Faço
questão de deixar claro, a quem interessar possa,
que sou parte de uma espécie em extinção.
Consulte a história e verá que os jornalistas
que ficaram em nossas memórias foram os que atravessaram
as redações e empalmaram as grandes causas,
exercendo outras responsabilidades públicas.
A
pena é uma arma, assim foi desde priscas eras. Mas
não é um canhão. De José do
Patrocínio a Helio Fernandes, sempre houve os que
foram além de suas notáveis apreciações.
Helio, você talvez não saiba, foi covardemente
cassado dias antes de um pleito em que ia ser de longe o
deputado mais votado da Guanabara, ainda quando o arbítrio
metia os pés pelas mãos.
Antes,
esta TRIBUNA foi fundada por uma dos mais inteligentes jornalistas
de nossa história. Carlos Lacerda, de cuja opinião
nem sempre partilhei, fez desta folha invicta a primeira
trincheira que o levou ao governo do Estado da Guanabara
e o levaria à Presidência da República
se não tivesse sido traído pelos que se aproveitaram
de sua verve e galgaram o poder.
O
juiz e os outros poderes
Por que digo essas coisas? Pela gravidade do momento presente.
E aí, permita-me caro leitor, pelo significado epistemológico
desse complô que abateu a Varig em pleno vôo,
num cavalo-de-pau medonho, com o que, acredite, tentam consolidar
um projeto capcioso de assassinatos econômicos.
Neste momento, declaro, estou certo de que é do meu
dever voltar a outras lides, submeter-me à disputa
desigual por um outro espaço, no qual, além
do direito de espernear, possa dispor das condições
institucionais de parar as indignidades no ar.
Não
é possível admitir que uma crise como a da
maior empresa brasileira de aviação, com uma
tradição internacional, seja descarregada
sobre a Justiça e, a bem da verdade, sobre um único
juiz, como se ele, no ofício específico do
tripé dos poderes, tivesse condições
de substituir ao mesmo tempo os altos companheiros do Executivo
e os omissos, comprometidos e incompetentes representantes
do Legislativo.
Esclareço:
não é justo confinar o julgamento do desfecho
dessa novela a erros e acertos de um magistrado. A ele cabe
agir para dirimir conflitos. Não para solucioná-los.
E por maior que seja a sua disposição de contribuir,
é-lhe de todo impossível costurar soluções
a partir do seu poder judicante.
Espero
que você entenda meu raciocínio. O juiz que
trata até hoje da questão da Varig não
é a regra três dos outros poderes. Não
dispõe de elementos para formular um plano conseqüente
de recuperação de uma empresa, nem dos meios
legislativos e de fiscalização dos parlamentares.
Sobre
essa sina, a de remeterem para o Judiciário as pendências
que não conseguiram OU NÃO QUISERAM resolver,
o desembargador Sílvio Capanema, uma das mais lúcidas
cabeças da nossa Justiça, já se manifestou
por mais de uma vez. A crise da Varig, eu acuso, foi fabricada
deliberadamente por governos que não entendem do
riscado ou entendem mais da conta. Faça um retrospecto
imparcial de todos os seus capítulos e você
verá que não foi por acaso que o próprio
ministro da Defesa, Waldir Pires, eximiu-se de forma inacreditável.
Assassinato
político
Ela se arrasta como um corpo de delito de mal intencionados
operadores, que não são diferentes dessas
quadrilhas de sanguessugas e mensaleiros que, pilhados em
flagrante, se apresentam como candidatos à reeleição,
como se o povo fosse uma grande massa de idiotas, de cidadãos
entorpecidos e acríticos.
O
assassinato da Varig é político. É
a expressão sombria do estado de imoralidades em
que vivemos. A empresa que em 2005 ostentava os melhores
números do ramo foi deliberadamente empurrada para
o abismo numa manobra de "estado maior". Não
tem paralelo com outro escândalo indefensável,
o processo indecente de privatizações conduzido
pelos tucanos nos 8 anos em que imperaram, que ganhou o
aval dos petistas, quando estes não moveram uma palha
para questioná-lo. Isso, eu gostaria de dizer, solidário,
para os leitores que me apontam desde a Panair até
o Bradesco e Banerj, cujos empregados - SEMPRE OS EMPREGADOS
- pagaram caro pela simbiose de administrações
temerárias e má fé de governantes.
No
caso da Panair, houve uma perseguição política
explícita, mas não havia um fundo de pensão,
como o Aerus, que foi abandonado à própria
sorte pelos órgãos de fiscalização
do governo, transformando o castigo de 11 mil sobreviventes
na ativa (a Varig chegou a ter 25 mil empregados em 1995)
no desespero sem saída de mais 20 mil aposentados.
Não
tenho mais dúvida e me interpretem como quiserem:
se a marca de nossos poderes Executivo e Legislativo não
fosse a dos sanguessugas, se houvesse nesses poderes pessoas
de fibra e determinação, não teríamos
chegado a esse descalabro: segundo pesquisa do "Estadão",
78,37% de 1.275 entrevistados disseram que não comprarão
mais passagens pela companhia que foi até outro dia
campeã absoluta em índices de segurança,
pontualidade e qualidade de serviços.
É por isso que me convenci: não basta escrever,
é preciso ter meios para interferir.
coluna@pedroporfirio.com
http://www.palanquelivre.com
|