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Classe média à beira de um ataque de nervos (I)


"Quando analisamos o comportamento do desemprego a partir da escolaridade das pessoas afetadas, nota-se que ele aumenta mais rapidamente nos segmentos mais escolarizados." (Waldir Quadros, professor da Universidade de Campinas, em "Brasil, Estagnação e crise")

A classe média ainda existe no Brasil? Milagre. O modelo econômico de concentração de renda e de políticas compensatórias só vê a classe média como fonte de pagamento de impostos - pagamos só de Imposto de Renda mais do que todos os bancos juntos.

Da classe média subtraíram tudo: escolas de verdade para seus filhos, faculdades públicas de qualidade, sistema de saúde, condições mínimas de segurança, empregos decentes, acesso à cultura, ao lazer e até o direito de envelhecer com dignidade.

Em troca, obrigam a pagar serviços públicos superfaturados (luz, telefone, água), que sobem sempre mais do que a renda dos assalariados, impostos que correspondem a 5 meses de trabalho, planos de saúde extorsivos, combustível que sobe com o dólar, mas não desce com ele (sem falar na auto-suficiência, que não teve nenhum proveito para o cidadão), pedágios, estacionamentos caríssimos, juros altos em qualquer financiamento, despesas elevadas de condomínios e cartórios, até as conquistas de tecnologias (celulares, tv a cabo, internet) acabam onerando seu orçamento, já atacado por todos os lados.

Menor e mais pobre

Quem é da classe média? Segundo o IBGE, estabeleceram-se em 2002 as seguintes faixas de renda:

A - nível superior, associado a um padrão de alta classe média, com rendimentos mensais acima de R$ 5.000.

B - Nível médio, de média classe média, entre R$ 2.500 e R$ 5.000.

C - Nível baixo, de baixa classe média, entre R$ 1.000 e R$ 2.500.

Reportagem de Tatiana Merlino, no semanário "Brasil de Fato" descreve: "A classe média, que viveu seu "apogeu" durante o chamado milagre econômico, passou por empobrecimento nas duas últimas décadas. Destaque para dois processos nesse período: os baixos índices de crescimento econômico do País desde o início dos anos 80 e as reformas neoliberais realizadas durante os anos 90 por meio da abertura comercial e produtiva do País".

Combinadas, essas políticas "impuseram juros altos, forçaram a diminuição do Estado, reduziram a população assalariada e empobreceram a classe média", avalia o economista Ricardo Amorim que, em conjunto com outros pesquisadores de universidades paulistas, entre eles Márcio Pochmann, publicou o estudo "Classe Média - Desenvolvimento e Crise", a partir dos dados do Censo de 2000.

De 1980 a 2000, 7 milhões de pessoas perderam seus empregos e, sem conseguir voltar ao mercado de trabalho, deixaram de fazer parte da classe média. "Nos anos 90, muitas empresas fecharam ou diminuíram o número de funcionários. A reestruturação do mercado de trabalho se deu, sobretudo, em cargos ocupados pela classe média", explica Amorim, lembrando que pessoas que foram demitidas ganhando de R$ 4 mil a R$ 5 mil por mês tiveram que aceitar empregos por salários de R$ 1,5 mil. "A precarização do trabalho chegou às camadas médias. Houve uma piora na distribuição de renda no Brasil nos últimos 20 anos. A classe média empobreceu e o capital especulativo enriqueceu".

Consumo afetado
O estudo feito pelos pesquisadores também aponta mudanças no padrão de consumo da classe média, formada por 15,4 milhões de famílias (31,7% das famílias existentes no País). "Foram reduzidos gastos mais dispensáveis e aumentaram o consumo de itens mais básicos", explica o economista Ricardo Amorim. Em 1987, os gastos com alimentação tinham participação de 24,5% nas despesas do mês; em 2003, caíram para 15,9%. Já a participação em vestuário era de 11% e caiu para 5% no mesmo período. Já o gasto em itens como habitação, transporte e educação subiu de 17,6% para 29,5%, de 8,7% para 16,9% e de 2,2% para 3,6%, respectivamente.

O impacto do neoliberalismo no bolso da classe média também se dá pela precarização da atuação do Estado na área social. "Com a diminuição do Estado e o sucateamento dos serviços públicos, a classe média arca duas vezes com os mesmos serviços. Paga os impostos, mas como sabe que o serviço público é ruim, acaba gastando com serviços públicos", analisa.

O professor Waldir Quadros, da Universidade de Campinas, fez outro criterioso estudo, no qual mostra que a classe média foi o segmento mais sacrificado com a política econômica adotada nos últimos 12 anos, enquanto os números mais recentes do IBGE acentuam uma mudança nos hábitos de consumo de toda a população em função da queda do seu poder aquisitivo real.

Seu trabalho "Brasil, estagnação e crise", foi editado em parceria com uma empresa de recursos humanos, há mais de 40 anos em atividade. Ao apresentá-lo, Jan Wiegerinck, presidente da Organização Gelre, que se espalha por todo o País, escreveu: "É parte de nossa missão ajudar pessoas a se colocarem no mercado de trabalho, naquela profissão na qual mais poderão produzir e, como conseqüência, obter renda. Entretanto, a cada dia sentimos que cumprir satisfatoriamente esta meta não é uma tarefa fácil".

O ensaio (do professor Quadros) coloca, de um lado, as taxas medíocres de crescimento econômico e, de outro, a contínua e acentuada queda da participação dos rendimentos do trabalho na renda nacional nas principais capitais do País. Cobre o período de 1981 a 2002. Agora já sabemos, de acordo com dados do IBGE que em 2003 o rendimento médio das pessoas que trabalham diminuiu mais 6,2%".

O professor Waldir Quadros demonstra que de 1981 para 2002 no conjunto da classe média, os mais atingidos foram os que ganhavam menos. "Caso as proporções de 1981 tivessem se mantido em 2002, a população com padrão de classe média, somadas suas três camadas, atingiria 73 milhões de pessoas ao contrário dos 61,9 milhões verificados. Ou seja, podemos considerar que 11,1 milhões de pessoas foram rebaixadas ou bloqueadas socialmente pela piora das condições gerais. Para se ter uma idéia mais precisa sobre o significado deste número, basta notar que este contingente é equivalente ao aumento efetivo de 11,2 milhões de pessoas que ocorreu no período.

coluna@pedroporfirio.com
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