| A
classe média à beira de um ataque de nervos
(II)
"Os
gastos com serviços privados vêm se acentuando
ano a ano, de forma a comprometer cada vez mais o orçamento
das famílias de classe média."
(Gilberto Luiz do Amaral, presidente do IBPT)
Como
disse na coluna anterior, o professor Waldir Quadros demonstrou
que de 1981 para 2002, no conjunto da classe média,
os mais atingidos foram os que ganhavam menos.
Desagregando esta análise em seus três componentes,
observa-se que as camadas média e baixa são
aquelas de fato impactadas: na baixa classe média,
o contingente afetado foi de 8,1 milhões de pessoas,
contra 7,2 milhões de aumento efetivo; e de 2,7 milhões
na camada média, frente uma expansão de 2,1
milhões. Na alta classe média, a retração
relativa foi de 400 mil pessoas, contra um crescimento observado
de 1,9 milhão.
"Esta
performance da desocupação repercute diretamente
na evolução dos rendimentos dos ocupados.
De fato, como se observa no quadro apresentado em seguida,
a retração dos rendimentos é maior
entre as pessoas com 2º grau. Em seguida, vêm
aqueles que atingiram o 3º grau e, por fim, as pessoas
com até o 1º grau".
No
livro "Classe média - Desenvolvimento e crise",
Mário Pochmann e equipe de economistas mostram que
a classe média brasileira, formada por 15,4 milhões
de famílias (31,7% das famílias existentes
no País), também mudou o padrão de
consumo.
Em
1987, os itens alimentação e vestuário,
por exemplo, tinham participação de 24,5%
e 11%, respectivamente, sobre as despesas do mês.
Em 2003, caíram para 15,9% e 5%, respectivamente.
A
participação dos itens habitação,
transporte e educação subiu de 17,6% para
29,5%, de 8,7% para 16,9% e de 2,2% para 3,6%, respectivamente,
sobre as despesas do mês no período. Waldir
Quadros afirma que a classe média hoje está
refém dos serviços. Gasta cada vez mais com
telefone, segurança, escola.
É
verdade. Marcos Cézari relata, em matéria
publicada na "Folha de S. Paulo" de 25 de maio
de 2006: A classe média brasileira continua trabalhando
mais para o Estado do que para si mesma. Estudo feito pelo
IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário)
mostra que as famílias de classe média gastam
o equivalente a 113 dias de trabalho por ano apenas para
custear despesas com saúde, educação,
previdência privada, segurança e pedágio,
serviços que deveriam ser oferecidos adequadamente
pelo Estado aos contribuintes.
Trabalhando
sob pressão
Segundo o estudo, os contribuintes brasileiros trabalharão
do dia 26 de maio até o dia 15 de setembro apenas
para custear a substituição de serviços
públicos - que o Estado não oferece adequadamente
- por itens de melhor qualidade, mas privados - ou seja,
pagos.
"O
contribuinte vai começar a trabalhar para a família
comer, vestir, morar, comprar bens, gozar férias
e poupar apenas no dia 16 de setembro deste ano", declarou
Gilberto Luiz do Amaral, presidente do IBPT.
O
trabalho para pagar esses serviços começa
no dia 26, porque até o dia 25 de maio os contribuintes
estarão trabalhando para outra finalidade: pagar
os tributos devidos anualmente aos fiscos federal, estaduais
e municipais", afirma Amaral.
Para
comprovar isso, ele diz que, na década de 70, aquelas
famílias comprometiam 7% da renda para comprar os
serviços. Neste ano, vão comprometer 31% -
quase 3,5 vezes mais.
Trocando em miúdos, o estudo do IBPT revela que os
7% dos anos 70 representavam menos de um mês de trabalho
(exatos 25 dias). Em 2003 aquele período já
era multiplicado por quatro, ou 102 dias. No ano seguinte
eram 105 dias de trabalho, número que cresceu para
112 dias em 2005. Neste ano será necessário
trabalhar mais um dia.
O
IBPT se refere à classe média que tem renda
familiar acima de R$ 3.000 e até R$ 10 mil por mês.
Na sua visão, famílias com renda até
R$ 3.000 mensais são consideradas "pobres".
Já as que ganham mais de R$ 10 mil são consideradas
"classe alta". O estudo considera quatro pessoas
por família: casal e dois filhos em idade escolar.
O
IBPT ressalta o crescente gasto da população
com segurança, despesas com cercas elétricas,
câmeras, vigilância particular (em geral, em
grandes condomínios), veículos para ronda,
coletes à prova de balas etc.
Segundo
estimativa do IBPT, os gastos com segurança pública
no País em 2005 foram da ordem de R$ 60 bilhões.
Some-se a esse valor cerca de R$ 70 bilhões dispendidos
pelo setor privado. Essa soma de R$ 130 bilhões supera
todo o gasto do Estado com educação e saúde.
A
classe média realmente é o segmento mais espoliado
pelo poder público. Criterioso estudo da Unafisco
- Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal
- deixa patente que os trabalhadores formais (que ganharam
mais de R$ 1.163,00 por mês) pagaram mais imposto
que as empresas e os bancos em 2005.
Segundo
a Unafisco, os bancos recolheram em Imposto de Renda cerca
de R$ 7,5 bilhões no ano passado. No total, somando
o montante de tributos pagos pelas instituições
financeiras, o valor atingiu R$ 18 bilhões. Esse
número é cerca de um terço do total
pago pelos trabalhadores em IR (R$ 52 bilhões) no
mesmo período. Com as outras empresas privadas, a
receita com arrecadação do IRPJ (Imposto de
Renda Pessoa Jurídica) totalizou R$ 44,9 bilhões
- ainda inferior aos R$ 52 bilhões pagos pela pessoa
física em 2005.
Em
reportagem publicada na revista "Época"
de 12 de dezembro de 2005, Patrícia Cançada
e Maria Laura Neves afirmam que a classe média perdeu
espaço no mercado de trabalho, viu seu salário
encolher e as despesas aumentar. Concorre com cada vez mais
gente qualificada pelas mesmas vagas e está endividada
para manter o padrão de vida do passado.
Profissionais liberais, funcionários com cargo intermediário
nas empresas, servidores públicos e outras categorias
típicas do meio da escada social vivem uma nova realidade.
Seu
mercado de trabalho ficou mais congestionado, seja porque
o País cresce pouco e gera poucos empregos, seja
porque as universidades estão formando muito mais
gente. O resultado é queda na renda. Na outra ponta,
as despesas aumentam porque o governo cobra mais impostos
e não garante educação, saúde
nem aposentadoria.
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