| Um
domingo no Jacarezinho, aterrorizado pelo "caveirão"
Por:
Pedro Porfírio
"Os
métodos de ação do `caveirão'
são para implantar o medo, não para garantir
segurança".(Depoimento de moradores ao Centro
de Mídia Independente )
Estava
ontem, em campanha, no Jacarezinho, quando espocaram 4 foguetes.
Era o sinal de que o "caveirão" estava
lá, em pleno domingo, quando todos ficam na rua,
num frenético vai e vem na feirinha da prainha e
no movimentado comércio da Rua Amaro Rangel.
Disseram-me
que o tanque de guerra da polícia fluminense estava
na Praça da Concórdia, cenário do epílogo
do meu romance "O assassino das sextas-feiras",
pequeno espaço aberto numa favela de barracos amontoados
para abrir mais de 80 mil pessoas, a Concórdia irradia
sua fumaça para todo o Jacarezinho.
O
domingo dos moradores acabou. Pelo sim, pelo não,
todos recolhem-se ao refúgio dos seus barracos de
alvenaria. Quando digo todos, falo principalmente dos milhares
de trabalhadores, desempregados e velhos de uma comunidade
de 75 anos, que cresceu como dormitório do então
parque metalúrgico do Jacaré, até a
década de 70 o segundo pólo industrial da
cidade.
Por
que o "caveirão" estava ali, naquele domingo?
Não sei. O que posso dizer é que devido às
incursões sistemáticas da polícia,
que não parece interessada em combater os bandidos,
mas em punir a favela onde alguns deles se escondem, o Jacarezinho
está virando um grande gueto.
Aberta
a qualquer campanha eleitoral, a comunidade não parece
este ano envolvida na disputa. São poucos os candidatos,
mesmo a deputados, que têm ido lá em busca
dos quase 45 mil votos, a grande maioria da 8ª Zona
Eleitoral. Os mais ricos estão lá em forma
de placas espalhadas em abundância e através
de alguns cabos eleitorais profissionais.
Ao
contrário do que sempre aconteceu, só alguns
candidatos que disputam o governo do Estado incluíram
a segunda maior favela do Rio de Janeiro em suas agendas.
Marcelo Crivella fez uma encenação e foi lá
rapidamente. Eduardo Paes percorreu alguns metros do seu
centro comercial, tal como Vladimir Palmeira. Mas os mais
cotados - Sérgio Cabral e Denise Frossard - não
tomaram conhecimento dos rostos ansiosos daquela gente sofrida
e sem muitas esperanças de dias melhores.
Ontem
me lembrei da consagradora caminhada de Leonel Brizola,
em 12 de outubro de 1982. Naquele ano, o pleito foi em 15
de novembro. E foi exatamente a partir daquele dia que o
inquieto gaúcho começou a reverter as pesquisas
até ser eleito, apesar da trama da Proconsult, que
programou seus computadores para impedir sua vitória.
Como
o "caveirão" estava lá e os moradores
ficaram nervosos, não pude fazer minha caminhada.
Fiquei conversando com algumas pessoas na esquina da Amaro
Rangel com a Rua Maria Laura, onde fica nosso comitê
político, um dos raros instalados lá, em contraste
com outros tempos, quando existiam mais de 40 comitês
eleitorais.
Dormitório
de metalúrgicos
Por ter sido erguido em boa parte por metalúrgicos
e trabalhadores do grande Jacaré, o Jacarezinho tem
uma história política marcante. Nos anos de
chumbo, foi um reduto do voto oposicionista. Lá,
Lysâneas Maciel e Edson Khair, deputados do grupo
"autêntico" do velho MDB, tinham suas maiores
votações.
E
não precisavam para isso montar onerosos "serviços
sociais", como fazem os políticos clientelistas
de hoje. É curioso, aliás, que esse tipo de
arapuca nunca vingou no Jacarezinho. Enquanto em favelas
como o Complexo da Maré e Rocinha os políticos
instalam seus consultórios médicos e oferecem
serviços de ambulâncias, lá quem tentou
angariar votos por este sistema de troca-troca acabou desistindo.
É
verdade que, como em outros morros, há no Jacarezinho
algumas dezenas de jovens armados, integrados nessa rede
de venda de tóxicos. Mas é verdade também
que, como em outras favelas, lá não se fabrica,
nem se refina qualquer tipo de droga.
As
favelas são usadas como pontos de venda exatamente
pelo abandono dos governos, que são incapazes de
articular políticas sociais sérias, e quando
aparecem é para oferecer migalhas, do tipo bolsa
família ou cheque cidadão, geralmente manipulados.
Há
nos arredores do Jacarezinho dezenas de galpões fechados,
que no passado foram indústrias de grande produção.
Até a General Electric, que tem uma fábrica
colada a um bom pedaço da favela e até uma
entradinha para o pessoal que vinha de lá prestar
serviços, está com sua unidade reduzida a
dez por cento do pessoal que empregava há vinte anos.
Pelo
que soube, está produzindo apenas algumas lâmpadas.
Mesmo assim, de fora, a gente não percebe que funciona
alguma coisa onde antes 4 mil trabalhadores batiam o cartão.
Quem quiser entender todo esse ambiente de tensão
nas grandes cidades aprenderia muito se tivesse disposição
de visitar uma favela como o Jacarezinho. Porque uma favela,
por sua natureza, é o maior reflexo da injustiça
social, da péssima distribuição de
renda, da falta de serviços públicos e da
grande chantagem política: nossos homens públicos
só costumam aparecer nessas áreas em épocas
de eleições e criaram uma idéia de
que tudo o que o governo fizer lá será um
grande favor, para o qual cobra uma boa fartura de votos.
Não
é por acaso que muitos meninos se deixam encantar
pela possibilidade de empunharem uma arma e desfrutar de
alguns meses ou anos de poder. Eles sabem que essa é
uma conquista efêmera, mas ainda acham que compensa,
até porque se consideram marginalizados, independente
do que fizerem.
E
aí está o nó. Quando fui secretário
de Desenvolvimento Social, realizei um programa de "estágios"
de adolescentes no Banco do Brasil. Preenchi quase 600 vagas
com meninos de favelas. Mais de 200 iam do Jacarezinho para
o CPD do banco, na Rua Barão de São Francisco.
Nunca recebi uma queixa dos gestores do programa. E de vez
em quando, quando percorro suas ruas, encontro um pai de
família que me refresca a memória:
"Eu
sou um daqueles garotos que trabalhou como estagiário
no Banco do Brasil. Hoje, sou bancário, trabalho
e mantenho minha casa porque tive uma oportunidade lá".
Era o ano de 1990.
Jogo
pesado
Ao voltar para casa, num condomínio de classe média
de Jacarepaguá, vi mais uma obra dos patronos do
"caveirão". Os "plaqueiros" do
ex-chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, candidato
a deputado estadual, haviam invadido o terreno de um amigo,
na Estrada do Bananal. Num abuso de quem "se garante",
arrancaram duas raras placas que mandei confeccionar e colocaram
em seu lugar as do policial candidato.
Teria
sido mera coincidência? É provável que
sim, porque seu pessoal é abusado mais da conta mesmo.
Pedro
Porfírio
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