| Democracia
de cabresto, veneno contra mudanças
"Denomina-se
democracia (do grego demos, "povo", e kratos,
"autoridade") uma forma de organização
política que reconhece a cada um dos membros da comunidade
o direito de participar da direção e gestão
dos assuntos públicos." (Definição
clássica das enciclopédias)
Não há nada
mais inverossímil do que a democracia no Brasil.
Isso mesmo. No Brasil a democracia é uma peça
de retórica que preserva o intocável domínio
das elites e torna a atividade política um privilégio
dos mais ricos, mais poderosos e mais audaciosos.
Falo isso com todas as letras
porque não dá para assistir a esse jogo de
cartas marcadas como se fosse tudo às mil maravilhas.
Como se o processo eleitoral que definirá os destinos
do Brasil e dos estados nos próximos quatro anos
fosse pavimentado de salvaguardas legais democráticas.
Estamos a menos de um mês das eleições
que já trazem em seu bojo uma grande pergunta: por
que nossas urnas eletrônicas são intocáveis,
inquestionáveis?
É inacreditável
que você considere como inteiramente corretos os resultados
de urnas que não podem ser objeto de recontagem.
Você digita seu voto ali e pronto. Dentro de horas,
como se essa rapidez fosse um grande mérito, a Justiça
Eleitoral anuncia os vencedores. E se você se considerar
prejudicado não tem para quem apelar.
No final de 2002, o Congresso
aprovou um projeto do então senador Roberto Requião
que previa a impressão do voto, como foi bandeira
de Leonel Brizola desde que apareceram as urnas eletrônicas.
Essa lei já havia sido devidamente limitada por interferência
do ex-ministro Nelson Jobim.
Mesmo assim, no ano seguinte,
uma das primeiras iniciativas do presidente Luiz Inácio
foi patrocinar a sua revogação, contando com
o apoio de alguns ministros do TSE e o pretexto de que não
haveria impressoras suficientes para as eleições.
Urnas eletrônicas, sim, não eram problemas.
E com disquetes. Impressoras, não, aí eram
problemas.
E ficou tudo como dantes,
de forma a que o Brasil é o único país
do mundo em que o voto se dilui no totalizador. Armadura
contra mudança
Mas não é
só isso. A legislação eleitoral é
uma verdadeira armadura para preservar os atuais detentores
de mandatos, em função do que eles deitam
e rolam, roubam, envolvem-se em maracutaias e acabam reconduzidos
pelo "voto popular".
Veja os horários
da propaganda gratuita. Privilegia os partidos com maiores
bancadas. Detalhe: a lei é tão viciada que
estabelece para efeito de cálculo o número
de deputados federais no dia da posse. Eleito por um partido,
um deputado negocia tomar posse por outro. E aí começam
as maracutaias.
Como você pode falar de democracia se um partido tem
cinco minutos para apresentar seus candidatos e outro tem
20 segundos?
Você diria que esse
é um critério proporcional à representatividade
de um partido. Ora, não se pode falar em representatividade
partidária num país em que durante uma legislatura
metade dos deputados mudaram de legenda, alguns mais de
uma vez.
No caso das eleições
para presidente, essa distribuição de tempo
no rádio e tv, baseada na Lei feita em causa própria
pelos legisladores, é tão absurda que até
a TV Globo, quem diria, está sendo mais "democrática"
do que o horário eleitoral.
Enquanto Lula e Alckmin
se fartam e até cansam os telespectadores e ouvintes,
Heloísa Helena, a grande novidade dessas eleições,
com milhares de cidadãos querendo saber mais a seu
respeito, quase não aparece.
Se vivêssemos realmente
um processo democrático, todos os partidos teriam
tempos iguais. Porque a propaganda gratuita resulta de uma
renúncia fiscal, isto é, todos os cidadãos
acabam pagando para que uns tenham mais "direitos"
do que os outros.
Legislativo e Judiciário
participam da mesma ofensa ao direito puro, considerando
a essência da constituição democrática
que, em tese, assegura condições iguais para
todos os candidatos.
Quem
trapaceia
Você dirá: mas há partidos pequenos
que alugam legendas e têm péssimos hábitos.
Não foi o que se viu nessa legislatura. Quem foi
pilhada com a mão na massa foi a turma dos partidos
que praticamente monopolizam o tempo gratuito de rádio
e tv. São sanguessugas, mensaleiros e aparecem na
televisão quase todos os dias.
Sobre esses "partidos
pequenos", posso prestar meu próprio testemunho.
Tanto no PDT, ao qual estive filiado enquanto Brizola estava
vivo e o brizolismo prevalecia, como no PMN, fundado por
Celso Brandt, nunca ouvi falar em "aluguel de legenda".
No PMN, que sobrevive a
duras penas graças ao idealismo de alguns dos seus
dirigentes (falo do Rio de Janeiro e do seu presidente nacional)
nunca me pediram um centavo para me conceder legenda como
candidato. Ao contrário, nem para a gravação
do programa de tv (em que só aparecerei uma vez,
durante 10 segundos, no dia 20 de setembro) me foi pedida
qualquer contribuição.
Como podem impor cláusulas
de barreiras se antecipadamente já privilegiam o
maior veículo de divulgação, que é
a propaganda gratuita em cadeia por rádio e tv? Fatalmente,
quem aparece mais terá mais condições
de ganhar mais votos até porque, sabendo de antemão
dessa regra, muitos candidatos com potencial preferem os
partidos onde terão mais espaço para dar seu
recado com maior tranqüilidade.
E a propaganda de rua? Prevalece
o domínio dos mais ricos. Pode ver. Quem tem mais
placas? Exatamente quem pode bancar um verdadeiro rolo compressor.
E tem candidato que não se conforma em subir suas
placas. Usa também "especialistas" em arrancar
as dos adversários.
Finalmente, o mais grave
de tudo, que ninguém dessa grande imprensa registra,
porque, no fundo, também cultiva esse ambiente político
desmoralizado e vulnerável.
Hoje, quase todos os titulares
de mandatos legislativos e alguns interessados em ganhar
eleições sem propostas mantêm caríssimos
"serviços sociais". Por uma emenda de origem
popular, durante o período eleitoral eles têm
de suspender os atendimentos, que existem por conta do sucateamento
dos serviços públicos. Sabe o que fazem? Tiram
seus nomes dos seus centros sociais e mantêm o serviço.
Poderia
relatar muito mais. Poderia provar sem dificuldades que
se temos uma democracia, ela é uma DEMOCRACIA
DE CABRESTO, como nos velhos tempos dos "coronéis"
do sertão.
Pedro
Porfírio
www.palanquelivre.com
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