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da queda do PIB no último trimestre, segundo o IBGE,
o foco das preocupações pairou sobre a análise
do crescimento do País. A avaliação
geral é que o Brasil anda muito pouco, embora tenha
tudo para se desenvolver. O que freia então?
Para
Eduardo Giannetti, professor das faculdades Ibmec de São
Paulo e PhD pela Universidade de Cambridge, a anomalia que
impede o crescimento é a drenagem da renda do setor
privado para financiar o público. Ele lembra que
o País arrecada uma massa alta de recursos na forma
de impostos, o que soma cerca de 37% do PIB mais 3% do déficit
nominal.
"Isso significa que 40% da renda nacional brasileira
transitam pelo setor público. Este é realmente
o ponto capital hoje para entender porque que o Brasil é
um país que, em condições normais,
cresce tão pouco", elucida Giannetti, que acaba
de lançar o livro "O valor do amanhã",
editado pela Companhia das Letras, destaca ainda que a natureza
dos juros está em toda parte.
TRIBUNA DA IMPRENSA - Os juros são
a tônica do seu mais recente livro. Como o senhor
tratou o tema?
EDUARDO GIANNETTI - Tento mostrar que os
juros têm uma dimensão bem mais ampla do que
as pessoas normalmente se dão conta. Os juros são
uma forma particularizada de um fenômeno que permeia
toda a existência, muito presente no nosso dia-a-dia.
Os juros aparecem toda vez que há uma troca no tempo.
Dê um exemplo.
Quando abrimos mão de alguma coisa agora para obter
algum benefício no futuro, ou, quando se aceita sacrificar
alguma coisa no futuro, ter algum tipo de custo no futuro,
para obter algum benefício agora. Toda vez que há
uma operação desse tipo, que é chamada
troca intertemporal, existe um termo de troca entre o presente
e o futuro. Esse termo de troca é o juro.
Então, contra os juros não há saída?
Sim.
Vou dar outro exemplo: a dieta. É oferecida uma sobremesa.
Aí você pára para refletir se deve desfrutar
do momento ou cuidar do amanhã. É uma troca
intertemporal. Se eu tiver o prazer agora, eu vou ter um
custo lá na frente, que é ganhar mais alguns
quilos, talvez me tornar um obeso. Vale a pena ou não
vale? Devo sacrificar o prazer momentâneo em prol
de um corpo esbelto e saudável amanhã, ou
devo ter o prazer momentâneo mesmo que isso implique
num custo mais adiante? Há um juro implícito
nessa operação.
Outro exemplo: uma pessoa que usa droga por conta de um
prazer efêmero no curto prazo, tem que se dar conta,
muitas vezes, que está sacrificando o matrimônio,
que é o sistema nervoso, seu cérebro. Ela
está incorrendo num juro exorbitante. Ela é
uma espécie de agiota dela mesma. Porque ela está
sacrificando o amanhã, pagando um preço muito
alto no futuro em prol de um prazer passageiro no presente.
Então, qual é a mensagem que o senhor pretende
transmitir ao leitor sobre os juros?
É alertar as pessoas sobre o tipo de troca que estão
fazendo no tempo ao longo de sua vida. Hoje, nós
vivemos num mundo em que viver 70, 80 anos, é a regra,
não é mais a exceção. Isso implica
pensar com muito mais cuidado no ciclo de vida como um todo.
Se você vive cada dia isoladamente, vai estar provavelmente
sacrificando o seu bem-estar e a sua realização,
porque vivemos 70, 80 anos, e temos que planejar com mais
cuidado a nossa jornada de vida.
E o que atrapalha esse planejamento?
Existem dois tipos de anomalias nessa operação,
nessa escolha intertemporal: uma, chamo de miopia temporal,
que é subestimar o futuro, é o imediatista;
a outra, chamo de hipermetropia temporal, quando se superestima
o futuro e acaba sacrificando em demasia o presente. Existem
sociedades, como a japonesa, por exemplo, que descambam
e acabam sacrificando demais o presente, utilizando a hipermetropia
temporal. O governo japonês, nos anos 90, estava querendo
estimular o consumo para retirar a economia da recessão.
Então, começou a distribuir vales consumo
para os idosos. Só que os idosos no Japão
são tão preocupados com o amanhã, com
o futuro, que começaram a poupar os vales consumo.
Diria que esse exemplo mostra o lado da hipermetropia temporal,
enquanto que na vida brasileira predomina claramente a miopia
temporal.
Baseado nesses conceitos de miopia e hipermetropia temporais,
o que o governo brasileiro poderia fazer agora para não
obstruir o crescimento da economia no futuro?
A grande anomalia hoje na vida brasileira é que o
Estado brasileiro arrecada uma massa de recursos muito grande
na forma de impostos, cerca de 37% do PIB. E além
dessa carga tributária bruta, há um déficit
nominal. O governo no seu conjunto - União, estados
e municípios - gasta, em média, num ano normal,
de 2,5 a 3% do PIB. Isto é além do que ele
arrecada.
Portanto, a soma da carga tributária de 37% mais
o déficit nominal de 3% significa então que
40% da renda nacional brasileira transitam pelo setor público.
Mas, no entanto, o Estado brasileiro não tem capacidade
de investimento. Então, todo o nosso crescimento
fica prejudicado por essa drenagem de recursos do setor
privado para financiar gastos correntes do setor público.
E isso é realmente o ponto capital hoje para entender
porque que o Brasil é um país que, em condições
normais, cresce tão pouco.
Depois da notícia da queda do PIB, houve pessoas,
inclusive o ministro Antonio Palloci (Fazenda), que apontaram
a crise política como um fator importante para a
retração na economia. É verdade?
Acho que estão fazendo uma tempestade em copo d'água
em relação a esse número trimestral.
Em primeiro lugar, porque o IBGE costuma rever esses números
e eles não têm um grau de realidade com o qual
se possa imediatamente contar. Eles são passíveis
de serem revistos mais à frente, como tantas vezes
acontece.
Em segundo lugar, não pode extrapolar um dado trimestral
para períodos maiores de tempo. Tem que analisar
dados com períodos mais longos. O fato é que
a econonia brasileira vai crescer este ano entre 2,5 e 3%,
o que é um número muito baixo. E mostra que
2004, na verdade, foi uma recuperação cíclica,
não o início de um movimento de um crescimento
sustentável.
Nesse momento, qual é a dose certa para estimular
a expansão do PIB?
Precisamos de uma profunda reforma tributária, precisamos
melhorar muito a qualidade do sistema de impostos que há
no Brasil e precisamos reduzir o tamanho do Estado. Se o
Estado não drenasse uma fatia tão grande da
renda do setor privado, este setor poderia estar poupando
mais, investindo mais e promovendo a formação
de capital físico, humano, que leva ao crescimento.
O senhor acha que o IBGE precisa passar por aprimoramentos
para fazer o cálculo do PIB?
u
acho que as metodologias de contas nacionais no Brasil precisam
estar em processo de constante aprimoramento. Isso ocorre
no mundo inteiro. Nós precisamos ter números
confiáveis para podermos ter um termômetro
e realmente avaliar a situação da economia
brasileira de uma forma objetiva. Eu não tenho conhecimento
de como está hoje o sistema de cálculos e
medição do IBGE, mas ele tem que estar sempre
em processo de revisão.
O senhor concorda com a política econômica
do Palocci?
O governo Lula foi bem em relação à
política macroeconômica de curto prazo. Os
indicadores de curto prazo no Brasil hoje são bons.
A inflação vai convergir para a meta. A dívida
pública está sob controle, parou de crescer
a partir de 2004. Isso é muito tranqüilizador
e tira o Brasil do caminho perigoso. E as contas externas
de curto prazo também são positivas. O Brasil
vai fechar o ano com um bom superávit de balança
comercial e com um pequeno saldo em conta corrente.
No entanto, se olharmos para um prazo um pouco maior de
tempo, nós vemos que, embora o governo Lula tenha
acertado na política macro de curto prazo, ele deixou
muito a desejar por não preparar o terreno para que
o País encontrasse o caminho de um crescimento sustentável
a taxas mais elevadas. Nesse sentido, faltou muita coisa
importante: a reforma tributária, fiscal, uma ampla
reforma trabalhista, a criação de um ambiente
regulatório adequado para o investimento em infra-estrutura.
Toda a chamada agenda microeconômica não foi
cumprida no governo.
Palocci disse que a política monetária do
País vai bem, mas que vai ter custos. O que o senhor
acha que pode acontecer? Que tipos de reflexos podem ocorrer?
O Brasil vai ter que descobrir que não tem atalho
para o crescimento. Não vai ser a golpes de mudança
de política monetária ou a custa de gastos
públicos que vamos encontrar o caminho do crescimento.
Nós vamos ter que fazer reformas muito mais substantivas
ligadas às finanças públicas e ao ambiente
institucional da economia brasileira. Eu espero que o mau
exemplo da Argentina sirva de alerta para que não
se caia na tentação populista no Brasil.
A Argentina hoje está com uma inflação
acumulada de 12% ao ano em aceleração e vivendo
um enorme retrocesso, que é a volta do sistema de
controle de preços. Coisa que nós tentamos
durante anos e anos no Brasil e sabemos que não funciona.
Infelizmente, a Argentina, que não levou a sério
a estabilidade macroeconômica e uma política
monetária com metas de inflação, está
vivendo um enorme retrocesso e que o Brasil não precisa
incorrer. E eu espero que não incorra no final do
governo Lula.
Quais reformas são mais necessárias agora?
Precisamos diminuir o tamanho da carga tributária,
precisamos fazer uma ampla reforma trabalhista, liberalizando
muitos mercados de trabalho para permitir a incorporação
de um número maior de trabalhadores no mercado formal.
Devemos criar um ambiente previsível e confiável
de regras para o investimento privado em infra-estrutura.
Há uma agenda complexa e extensa de reformas para
que o Brasil possa crescer a taxas elevadas, mas de uma
maneira sustentada, e não apenas uma bolha de crescimento.
A economia, na sua visão, tem que ser política
também?
Inescapavelmente é política em qualquer cenário.
A questão é saber se é uma boa política,
se é uma política consistente, ou se é
uma política míope, uma política populista,
que obtém benefícios aparentes no curto prazo,
mas acarreta enormes perdas e prejuízos em prazos
mais longos.
A nossa economia é populista?
A nossa não está incorrendo num populismo,
mas ela não está preparando o caminho para
o crescimento sustentável. Eu diria que a nossa,
no momento, não é uma coisa e nem outra.
Para manter esta política, que mantém altas
taxas de juros, inflação baixa e dólar
apreciado, há boatos de que o governo estaria emitindo
papel sem lastro. É possível?
Possível é, mas seria uma rematada loucura
fazer isso, porque seria incorrer no risco da inflação,
do qual nós lutamos durante muito tempo para nos
libertar. Seria como um viciado em drogas achar que pode
tomar mais uma dose e ainda achar que não vai ter
nenhum tipo de recaída. Se o Brasil voltar a usar
essa droga, vai rapidamente viver o drama da recaída.
A curto prazo, há alguma maneira de aumentar a poupança
interna do País?
Sim, reduzindo a despoupança do setor público.
O País ainda sofre com a má distribuição
de renda, um velho problema. Ainda é possível
sonhar com uma mudança nessa direção,
mesmo com a pesquisa da FGV concluindo que o número
de miseráveis no País caiu?
É desejável sonhar com mudanças nessa
direção, mas o caminho consistente para reduzir
em caráter permanente a pobreza no Brasil não
é o assistencialismo: é a formação
de recursos humanos. É a formação de
pessoas aptas a gerar uma renda e uma dignidade para si
mesma.
Um outro grave problema na vida da maioria dos brasileiros
é a falta de saneamento básico. Por que que
isto ocorre? Onde está a solução?
Segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios) do IBGE, é que um terço
dos domicílios no Brasil não tem saneamento
básico, o que é vergonhoso para um País
como o Brasil em pleno século XX. Isso ilustra a
nossa dificuldade em transferir recursos do presente para
o futuro. O Brasil é um país que escolheu
construir uma nova capital no meio do nada, que é
Brasília, antes de fazer o saneamento básico.
China e a Índia vivem assoladas pela miséria.
Mesmo assim, a índia, por exemplo, se tornou um pólo
tecnológico. Por que o Brasil, após levantamento
da PNAD, mostra menores índices da pobreza e não
consegue um avanço que melhore a vida da população?
Em compensação, a Índia mostra que
não basta ter uma elite educada para resolver o problema
social de um país. A Índia tem uma elite extremamente
sofisticada, com grandes matemáticos, engenheiros,
economistas, mas a base da população infelizmente
não tem acesso a oportunidades educacionais. Não
se desenvolve um país constituindo uma elite sofisticada.
Desenvolve-se um país investindo maciçamente
em ensino fundamental, garantindo que esse ensino seja de
alta qualidade. É o caminho que, por exemplo, fez
a Coréia do Sul, onde os índices de pobreza
hoje são parecidos com qualquer país desenvolvido.
E o que dizer da qualidade do ensino fundamental do nosso
País?
A qualidade do ensino fundamental do Brasil é lamentável.
Todos os testes internacionais dos quais o Brasil participa
nos colocam, infelizmente, na rabeira como um dos países
em que a qualidade do ensino fundamental é das piores
do mundo.
O que freia o crescimento do País?
Falta de capital, falta de investimento, incapacidade de
transferir recursos do presente para o futuro.
Para um maior fortalecimento institucional, há necessidade
do governo dar mais clareza aos marcos regulatórios?
Sem a menor dúvida. Isso aí é uma das
razões que nos impedem de acumular capital. Como
não há previsibilidade, não há
confiabilidade nas regras do jogo. Por exemplo, na questão
da infra-estrutura, os investidores privados se retraem.
Então, não há investimentos em transporte,
rodovias, geração elétrica. Todo esforço
de formação de infra-estrutura fica tolido
pelas incertezas do ambiente jurídico e pelas regras
do jogo, ainda muito fluidas, que existem no Brasil.
Leia
um trecho do livro >>
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