Publicação
apresenta dez casos de defesa dos direitos de adolescentes
no sistema socioeducativo
Juliana Rocha Barroso
22/1/2008
Uma obra coletiva, Advogando pelos Direitos Humanos dos
Adolescentes no Sistema Socioeducativo foi lançado
em dezembro 2007. Financiado pela Secretaria Especial
de Direitos Humanos (SEDH), o livro é resultado
da "união de forças interdisciplinares
do Projeto Legal em torno da proteção dos
direitos humanos, no caso, dos adolescentes autores de
ato infracional", como defende o autor, Carlos Nicodemos,
o advogado fundador e coordenador executivo da Organização
de Direitos Humanos – Projeto Legal.
Resultado do processo político da ditadura militar
instaurada após o golpe de 1964, a história
da ONG começou no dia 3 de maio de 1993, quando
foi criado o Centro de Defesa dos Direitos da Criança
e do Adolescente – Projeto Legal, que dedicava suas
ações ao acompanhamento de vítimas
da violência policial, de extermínio e na
formulação de defesas técnicas dos
adolescentes autores de ato infracional perante a Justiça.
Em 1995, o Centro conseguiu apoio de órgãos
oficiais e entidades internacionais de defesa dos DH.
Em 1998, o Centro de Defesa transforma-se na Organização
de Direitos Humanos – Projeto Legal, uma mudança
que sinalizava a necessidade de ampliar o campo de atuação
em DH. A partir de 10 de setembro de 1999, ela assume
autonomia política, administrativa e financeira.
Em 2005, a organização inicia de forma pioneira
a execução do Projeto Nacional de Proteção
à Criança e ao Adolescente Ameaçado
de Morte (PPCAAM).
Na apresentação do livro, Nicodemos aponta
alguns dados, defendendo que o tema ocupa o cenário
nacional como um problema social de alta complexidade.
"Em 2004, o IBGE indicou a existência de cerca
de 25 milhões de adolescentes no Brasil, ou seja,
pessoas entre 12 e 18 anos de idade. Este contingente
vive num país em que 1% da população
mais rica detém cerca de 13,5% da renda nacional,
enquanto 50% da população detêm outros
14,4%. Levantamento promovido pela Subsecretaria de Promoção
dos Direitos da Criança e do Adolescente, da Secretaria
Especial de Direitos Humanos, no ano de 2004 verificou
a existência de cerca de 39.578 juvenis no sistema
socioeducativo. Por mais que os adolescentes autores de
ato infracional sejam somente 0,2% do universo de juvenis
no Brasil, constatamos o curso de uma cultura de criminalização
da juventude que vai desde a proposta de reduzir a idade
da responsabilidade penal até a persistente priorização
das medidas de internação como solução
desse problema social."
O grupo de advogados e estagiários orientado pelo
professor Nicodemos usou estratégias judiciárias
diferenciadas, representadas no volume através
de dez casos selecionados. Segundo Nilo Batista, que assina
o prefácio da obra, "é possível
perceber certas idéias correntes, certos preconceitos,
certas visões de ordem e de estratificação
social que nas agências do sistema penal integram
a gestão da infância e da adolescência
pobres. Já então, o volume extravasa do
âmbito jurídico e passa a interessar também
às ciências sociais em geral."
Nicodemos explica que os dez casos estão divididos
por temática e todos seguem a seguinte estrutura:
"Na primeira parte, faz-se um histórico sobre
a situação de violação dos
direitos humanos dos adolescentes. Na segunda, é
indicada a situação processual do caso,
permitindo ao leitor, caso queira, acompanhá-lo
administrativa ou judicialmente. Na terceira parte é
apontado o quadro jurídico que fundamentou a ação
proposta. Na quarta e última parte, transcrevemos
a peça jurídica proposta."
Quem quiser solicitar um exemplar pode escrever para a
Organização, que está negociando
a publicação e distribuição
do livro nas livrarias. A versão para download
também estará disponível no site
da ONG, na área Publicações, a partir
de fevereiro. "Acima de tudo, acreditamos que esta
obra representa a oportunidade de compartilhar com a sociedade
a nossa experiência, especialmente com os centros
de defesa, e que, de alguma forma, podemos somar forças
para a proteção dos direitos humanos dos
adolescentes autores de ato infracional", defende
Nicodemos. Leia a entrevista cedida por ele ao portal
Setor3.
Setor3 – A ONG só atua na cidade
do Rio de Janeiro?
Carlos Nicodemos – Atua em nível
nacional, através de seus projetos e participações
em fóruns nacionais, Criança, Jovens, Mulheres
etc.
Setor3 – O que o motivou a criar a ONG?
E hoje, o que o motiva a continuar com esse trabalho?
Carlos Nicodemos – Trata-se de
uma opção de vida, além do trabalho.
A Organização apenas "organiza"
o nosso projeto de sociedade, Estado e direitos humanos.
Desde os tempos de Faculdade, entendo o Direito como um
instrumento de transformação e não
de dominação como se propõe na nossa
superestrutura política e jurídica. Como
é uma opção de vida, esta é
a minha maior motivação.
Setor3 – Como é financiada a estrutura
da ONG?
Carlos Nicodemos – Através
de convênios com órgãos públicos
e privados, nacionais e internacionais. Também
com a iniciativa de auto-sustentabilidade, oferecendo
cursos e assessorias na área dos Direitos Humanos
de uma forma ampla.
Setor3 – Quantas ações a ONG
abriu na defesa dos direitos da criança e do adolescente
nestes quinze anos de existência?
Carlos Nicodemos – Não é
possível contabilizar este universo. Mas, por exemplo,
no de 2007, somente na área de adolescentes autores
de ato infracional, foram movidos 250 processos no Rio
de Janeiro. O livro retrata exemplarmente uma década.
Setor3 – O Projeto Legal também trabalha
com estagiários de direito. O objetivo é
formar profissionais que trabalhem por uma Justiça
Restaurativa?
Carlos Nicodemos – Não necessariamente
por uma Justiça Restaurativa. Tenho críticas
a este modelo. A idéia é formar quadros
políticos e jurídicos que possam levar adiante
o projeto de um Direito Humano, verdadeiramente igualitário
e libertário.
Setor3 – Quais são essas críticas
ao modelo de Justiça Restaurativa?
Carlos Nicodemos – Tenho várias
questões. Primeiro: Trata-se de um modelo vocacionado
no interesse da vítima. Segundo: Não se
aplica a todos os delitos. Terceiro: Tem um custo muito
elevado e pouco resultado na superestrutura do Estado.
Setor3 – Qual o objetivo da ONG com este
livro? Para que público foi pensado, já
que o formato mantém os termos jurídicos
técnicos?
Carlos Nicodemos – A idéia
central é replicar a nossa experiência, especialmente
com entidades e pessoas que atuam na defesa dos direitos
humanos de adolescentes no Sistema Socioeducativo. Preservamos
o formato jurídico no sentido de mostrar que temos
e podemos ocupar o espaço público da Justiça
com demandas além dos interesses patrimoniais.
Setor3 – Quais os critérios de escolha
dos dez casos apresentados? Eles contemplaram as situações
de maior agressão aos direitos humanos de crianças
e adolescentes?
Carlos Nicodemos – Primeiro que
retrata uma década, ou seja, dez anos de violação
de direitos humanos dos adolescentes. Uma geração
perdida! Segundo que foram escolhidos variados instrumentos
jurídicos (petições, pareceres, ações
individuais, coletivas, etc.) de responsabilização
dos três poderes do Estado.
Setor3 – Vocês pretendem produzir
mais livros como este, como uma espécie de série?
Carlos Nicodemos – Sim. Estão
sendo preparados: Ato Infracional; Proteção
à Criança e Adolescente Ameaçados
de Morte e Juventudes.
Setor3 – Quantos exemplares foram produzidos?
Onde e como estão sendo distribuídos? Também
será colocado à venda (onde encontrar)?
Carlos Nicodemos – Dois mil exemplares.
Estão sendo distribuídos no circuito do
terceiro setor. Sim, está sendo negociado com uma
Editora.
Setor3 – Como contatar a ONG e quem deve
fazer isso?
Carlos Nicodemos – A Organização
pode ser contatada através do site ou mesmo telefone.
Por princípio toda a sociedade pode acessar os
serviços da Organização. Nas áreas
em que não atuamos, prestamos uma assistência
imediata e depois encaminhamos para a Rede de Serviço.
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Organização de Direitos Humanos Projeto
Legal
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