| O
know-how para subir o morro
Paulo
Ghiraldelli Jr.
Sábado, 28 de Junho de 2008 | Estadão
Uma
bala perdida por um policial, atingindo um inocente, causa
revolta. A brutalidade "natural" do Exército
no combate ao tráfico pode também ser alvo
de crítica. Mas o que não se espera jamais
é que membros do Exército peguem civis e os
entreguem a gangues, por requisição destas.
O ministro da Justiça, ao dizer que o ato é
da responsabilidade apenas dos soldados que assim agiram
- "desvio de conduta" - e que não faltou
comando, pode estar querendo apaziguar os ânimos.
Mas, do ponto de vista técnico, está errado.
Faltou não só comando imediato, mas comando
dele próprio e, no limite, do presidente da República.
O
que ocorre no Brasil é uma situação
de descontrole do presidente da República perante
as instituições republicanas e suas funções.
O Exército precisa estar na favela? Bom, se o governo
tem claro que precisa, e que vai mantê-lo lá,
não pode de modo algum ir até os soldados
para pedir calma, altivez e que não revidem a provocações.
Isso soa como piada de humor negro na tropa. Isso revela
a não-compreensão do que está acontecendo
no Rio de Janeiro. É a completa alienação
a respeito das reais condições dos favelados,
das pessoas envolvidas no tráfico e, pior ainda,
a incapacidade de perceber o que se passa com o soldado
que sobe o morro.
Quando
se decidiu que o Exército iria "subir o morro",
todos nós deveríamos ter observado situações
reais de guerra de guerrilha, inclusive deveríamos
ter-nos lembrado de relações entre soldados
e guerrilheiros não só de longe, mas daqui
mesmo, em tempos passados. A dor da vida conjunta entre
grupos armados deveria ter-nos vindo à mente.
Os
Estados Unidos passaram por uma situação que
muito poderia educar o governo brasileiro na sua lida com
o Exército. Sem exagero: foi o Vietnã. Lá
os americanos deixaram de ser os heróis que foram
na 2ª Guerra Mundial ou mesmo na Coréia. No
Vietnã os americanos se tornaram alvos fáceis
e, ao mesmo tempo, passaram a ser vistos pelo mundo como
desrespeitadores de princípios básicos da
dignidade humana. O que houve? Houve aquilo que não
poderia existir de modo algum: o contato prolongado com
o inimigo e com o aliado local. Esse tipo de contato cria
dificuldades inauditas para a ação do soldado.
Este se torna uma pessoa, alguém conhecido, com toda
a sua individualidade localizada. E isso cria a chantagem,
a possibilidade de vingança pessoal (de ambos os
lados) e, enfim, todos os problemas gerados pela promiscuidade
entre partes que não poderiam estar em conversação.
Esse
tipo de coisas voltou a ocorrer no Iraque. Todavia, já
com menos problemas que no Vietnã. Mas cinco anos
no Iraque contam. E situações estranhas, envolvendo
soldados e moradores do local, começam novamente
a aparecer: estupros, subornos, mercado negro, etc. Ou seja,
mesmo com o aprendizado do Vietnã, os Estados Unidos
não têm conseguido evitar que algo parecido
volte a acontecer no Iraque.
A
lição que o governo brasileiro deveria tirar
disso é simples. O Exército na favela só
tem uma chance de poder permanecer lá: é se
ele for visto como quem está dando condições
para programas realmente transformadores - para melhor -
da vida da população. Mas para tal não
basta que os programas sociais existam e funcionem bem.
Isso é o básico. É necessário,
além disso, um apoio maior ao próprio Exército
para que o soldado tenha orgulho do que faz, tenha brio
e, principalmente, tenha vantagens financeiras legais por
aquela operação, ali, na favela. Ele deve
ter um estímulo financeiro de modo a poder pensar
duas vezes antes de ceder e estabelecer contatos com as
gangues. E, principalmente, deve sentir-se seguro, deve
ter claro que a sua família não estará
na mira das gangues. Isso não é o que ocorre
no momento.
O
soldado não pode ficar exposto, como vinha ocorrendo,
à vingança e ao controle dos bandidos. Não
estou querendo defender "o lado do soldado", não!
Estou apenas mostrando que este lado, uma vez cuidado, é
o que poderá diminuir as chances de o que ocorreu
voltar a acontecer.
O
presidente Lula e o ministro Nelson Jobim não conseguem
entender tal situação. Foram criados em meios
distintos do que se verifica no Rio de Janeiro. Lula tem
um entendimento diminuto do que sejam de fato problemas
sociais. Tudo ele acha que é "problema de pobreza"
(achava isso a respeito da existência do Taleban!).
"Melhorou a renda do muito pobre com algum dinheiro,
as pessoas naturalmente param de fazer o que estavam fazendo
de errado" - é assim que ele pensa. Não
lhe passa pela cabeça que o "errado" não
é de definição tão simples para
cada um. Jobim, por sua vez, está alheio ao que é
a realidade do homem-soldado dentro da favela. A tensão
pessoal que apresentou no momento em que esteve na favela
mostra bem isso. Ele não está confortável
como ministro brasileiro. Um ministro brasileiro, brasileiro
mesmo, que entenda de Brasil, teria de compreender melhor
o que se passa no relacionamento entre o Exército,
a população da favela e as gangues. Jobim
está fora disso.
O
Brasil acumulou certo know-how no tratamento com problemas
de segurança pública, pobreza e tráfico.
Não somos mais uma sociedade inocente a respeito
disso. Há trabalhos teóricos e práticos
de filósofos e antropólogos sobre o assunto.
Há uma rica experiência da imprensa liberal
no que se refere a esse tema. Isso é aproveitado?
Infelizmente, não. Como em outras áreas, o
governo improvisa e se acha capaz de entender do que não
entende. Não consulta, não investiga, não
aprende. O governo Lula é um governo teimoso nos
erros. Por isso, o que aconteceu na favela, com a morte
dos jovens levados pelo Exército para serem mortos,
vai se repetir.
Paulo
Ghiraldelli Jr. é filósofo Site: www.filosofia.pro.br |