| OS
PARTIDOS, AS ELEIÇÕES DE OUTUBRO E O MAPA
POLÍTICO DO BRASIL
Rudá
Ricci
Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Diretor
Geral do Instituto Cultiva
Já
se disse muito sobre a quantidade de partidos brasileiros.
A crítica à quantidade baseia-se na falta
de projeto próprio, possibilitando que muitos partidos
se limitassem a ser linhas auxiliares. Com efeito, o país
caminha rapidamente para uma estrutura bipolarizada, entre
PSDB e PT, mas nem todos os outros partidos que gravitam
ao redor destes dois hegemônicos ou dominantes são
simplesmente auxiliares. A intenção deste
artigo é sugerir que vai se consolidando algo além
de partidos dominantes e seus auxiliares. Temos, segundo
o Tribunal Superior Eleitoral, 27 partidos políticos
registrados no país. São eles: PMDB, PTB,
PDT, PT, DEM, PCdoB, PSB, PSDB, PTC, PSC, PMN, PRP, PPS,
PV, PTdoB, PP, PSTU, PCB, PRTB, PHS, PSDC, PCO, PTN, PSL,
PRB, PSOL, e PR.
O
IBGE oferece uma listagem de prefeitos e seus partidos de
origem, de 2004.
É fato que muitos deles já não estão
mais nos partidos pelos quais foram eleitos. Mas temos a
partir daí uma base de análise. O PMDB era
o partido com mais prefeitos eleitos, 1.132, totalizando
20% dos municípios brasileiros. Em seguida, despontava
o PSDB, com 1.098 prefeitos (19,7%). O então PFL
(hoje, DEM) tinha eleito 959 prefeitos, totalizando 17%
dos prefeitos. Esta é a maior distorção
do dado do IBGE já que este partido sofreu uma contínua
defecção de prefeitos obrigando-o, inclusive,
a alterar seu nome. Em seguida, surgiam PP, PTB, PL e PDT,
oscilando entre 10% e 4% do total de prefeitos eleitos no
país. PT tinha, neste período, eleito 217
prefeitos (4%), PPS possuía 213 (3,8%) e PSB havia
eleito 135 prefeitos (2,4%).
A
mudança neste panorama foi resultado da ofensiva
do Palácio do Planalto, tendo Lula à frente.
PSDB, DEM e PPS deixaram de controlar 50% das prefeituras
de grandes cidades conquistadas em 2004. Tendo por base
as 100 maiores cidades do país, a base governista
governava, em 2004, 54 cidades e, hoje, governa 76. Os maior
beneficiado foi o PMDB (de 12 para 18), seguido pelo PSB
(de 8 para 11) e PP (de 2 para 4). PSDB perdeu 3 das 21
prefeituras que comandava; DEM perdeu uma prefeitura e PPS
perdeu 7, sendo o maior prejudicado até então.
É
comum se afirmar, entre analistas políticos tupiniquins,
que as eleições municipais não possuem
nenhuma relação com a agenda nacional. O eleitor
estaria totalmente focado no líder e agenda local,
até mesmo nas relações pessoais estabelecidas
com cada candidato. Não deixa de ser uma verdade,
mas muito simplória. Isto porque desconhece o poder
e arranjos políticos que os governos estaduais e
federal operaram no período anterior às eleições
municipais e mesmo nas convenções partidárias.
O caso mais evidente é a aliança do PT com
PSDB na capital mineira. Mas não só. Em 2004
os dois partidos fizeram aliança eleitoral em 121
cidades (pequenos municípios, em sua maioria) e ganharam
as eleições em 44% dos casos. Já estão
previstas alianças eleitorais entre os dois partidos
em 200 municípios. E não são alianças
sem vínculo algum com desejos dos caciques estaduais
ou nacionais.
Contudo,
a possível aliança entre os dois partidos
dominantes do Brasil será obra de uma ou duas eleições
adiante. Trata-se de uma aproximação, um teste
inicial, nas eleições de outubro deste ano.
Ocorrerão acomodações internas, nos
dois partidos, e a militância se acostumará
lentamente à este novo mapa partidário.
Assim,
as eleições de outubro continuarão
medindo força entre até aqui situacionistas
e oposicionistas (ao governo federal). Em outras palavras,
temos um jogo de xadrez onde partidos com perfil programático
ou ideológico que aproxime os dois pólos (PSDB
e PT) podem ganhar alguma projeção.
PT
já caminha para o centro, ao menos o PT governista.
A agenda do governo federal é social-liberal, alguns
ministérios mais focados na agenda social, outros
na agenda de mercado. PSDB, que já tinha adotado
esta referência programática, procura atualizar
ainda seu discurso e projeto, mas sua novas lideranças
(como o governador Aécio Neves) já iniciam
movimentos ousados de aproximação.
A
questão que fica, então, é se haveria
algum partido neste espectro que seria o fiel deste casamento
entre partidos dominantes. Pelo movimento dos últimos
meses, o PSB é o candidato mais nítido a este
posto. Não menosprezando o peso político do
"partido mosaico" que é o PMDB. Não
por outro motivo, foram os dois partidos que ganharam o
espólio de PSDB, DEM e PPS a partir da ofensiva do
Palácio do Planalto.
Se
esta hipótese se confirmar, PPS, DEM e PV (este último,
enfrentando grave crise de identidade) ficarão sem
o lugar de destaque que até agora tinham adquirido.
Serão "partidos do passado" justamente
porque não conseguiram ler a mudança do mapa
eleitoral que se configurava.
Trata-se
de uma hipótese, mas plausível, e que pode
auxiliar na leitura do resultado das eleições
de outubro.
Para
finalizar, uma última palavra a respeito da lógica
territorial. Segundo estudos do IBAM, os prefeitos que mais
se reelegem no segundo turno eleitoral do país são
os do norte e nordeste do país, principalmente em
municípios grandes, com mais de 200 mil habitantes.
E quase 30% dos ex-prefeitos que estavam afastados do cargo
por um ou dois mandatos, retornaram ao cargo na última
eleição. Para o coordenador da articulação
político institucional do IBAM, François Bremaeker,
o fenômeno estaria vinculado à segurança
dos eleitores. Poderíamos, assim, afirmar que o eleitorado
local tende a uma postura mais conservadora e desconfia
das ousadias ou mudanças bruscas. Nordeste volta
a emergir como a região com mais número de
reeleitos ou reconduzidos ao cargo (superior a 48%). No
sudeste, o índice ficou próximo de 34%.
Este
é o motivo de Lula e Aécio investirem tanto
no nordeste, nos últimos tempos. A aliança
em Belo Horizonte tem por base o apoio de Ciro Gomes. Neste
sentido, as eleições de outubro, no nordeste,
podem selar o futuro do mapa partidário e eleitoral
do país. E, assim, consolidariam o fortalecimento
do centro social-liberal do espectro partidário nacional:
pouco ousado, enraizado na cultura local e fortemente manipulado
pelos governos estaduais e federal. |