Discurso
da Patrícia Evangelista, representante de Manguinhos,
no Fórum Cidadania do dia 11/11/2008 no auditório
do Centro Cultural da Caixa Econômica Federal
Boa
noite a todas as autoridades e companheiros comunitários
aqui presentes...
Eu,
Patrícia Evangelista, secretária executiva
do Fórum do Movimento Social de Manguinhos estou
aqui representando o Povo das comunidades de Manguinhos.
Manguinhos é um dos mais perversos reflexos do
projeto de desenvolvimento econômico concentrador
de renda, sendo um dos 5 piores bairros da Cidade pelo
Índice de Desenvolvimento Humano. Por isso reconhecemos
a importância do espaço que está sendo
inaugurado hoje.
O
Fórum da Cidadania pela sua natureza inclusiva
pretende reunir todos os segmentos da sociedade civil
e instâncias do poder público envolvidos
com os rumos da nossa cidade. Esse é um momento
histórico, onde nós de Manguinhos vemos
com satisfação os investimentos públicos
na nossa região e temos muitas expectativas de
que a chegada das obras e do trabalho social melhore a
nossa qualidade de vida.
Vemos
que mesmo em uma obra da magnitude da que será
realizada em Manguinhos, ainda falta muita coisa. Falta
um diálogo franco, real, menos discriminatório
onde o povo possa discutir os rumos de suas vidas com
os governantes e os vários movimentos sociais e
políticos engajados com os problemas da favela,
que influenciam com certeza a toda a sociedade.
Temos
inúmeras necessidades em Manguinhos, por isso vemos
a elevação da linha férrea como elemento
secundário para a nossa qualidade de vida, diante
da demanda urgente de saneamento básico e moradia
para todos.
Moramos
às margens dos rios Faria-Timbó e Jacaré,
os maiores poluidores da Baía de Guanabara. Cerca
de mil empresas contribuem com esta poluição.
O
princípio da participação social
está sendo desrespeitado, principalmente quando
o Estado e a Prefeitura não apresentam para as
organizações da sociedade os seus projetos
executivos, detalhados. A rede de esgoto, em construção
nas comunidades, está sendo conectada com a rede
de água pluvial, que é despejada nos rios
e na Baía de Guanabara. Por isso chamamos mais
uma vez a atenção para a necessidade de
integração entre as políticas públicas,
como o PAC-Manguinhos e o Programa de Despoluição
da Baía de Guanabara, entre outros.
O
PAC-Manguinhos é uma conquista da mobilização
social. Em dezembro de 2006, nós do movimento social
manifestamos, em um Seminário, para o Ministério
das Cidades, nossas bandeiras prioritárias: saneamento
integrado, infra-estrutura social e habitação
saudável! Diante do diagnóstico socioambiental
apresentado, o representante do Ministério se comprometeu
com a inclusão de Manguinhos entre as prioridades
de investimentos das Secretarias de Saneamento Integrado
e Habitação. Depois veio o anúncio
do PAC-Manguinhos.
O
Estatuto da Cidade fundamenta-se em diretrizes essenciais
para o pleno desenvolvimento das funções
sociais da Cidade, dentre os quais ressaltamos:
1)
A garantia do direito às cidades sustentáveis
(direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento
ambiental, a infra-estrutura urbana, ao transporte e aos
serviços públicos);
2)
A gestão democrática por meio da participação
da população na formulação
e na execução de projetos de desenvolvimento
urbano;
Mas
esta Lei, que pode garantir a sustentabilidade dos investimentos
do PAC, não vem sendo cumprida! As comunidades
de Manguinhos, seus atores sociais não têm
encontrado meios eficazes de participação
social. Não participamos da formulação
do Plano de Desenvolvimento Urbano de Manguinhos, que
não foi validado nem tornado público! E
contestamos as formas de acompanhamento e participação
do processo de execução dos projetos e políticas
que são excludentes!
Nós
do movimento social fizemos o nosso dever de casa e entregamos
ao governo do Estado, gestor do PAC-Manguinhos, proposta
de um Comitê Intersetorial de Acompanhamento do
PAC-Manguinhos, em janeiro de 2008. Mais de sete (7) meses
depois, o governo do Estado se desincumbiu da instituição
deste Comitê, alegando para tal um parecer da Procuradoria
Geral do Estado que não questiona o mérito
da proposta, apenas desobriga o Estado da necessidade
de instituir um Comitê com a conformação
por nós sugerida, alegando para tal que a normativa
específica do Ministério das Cidades não
obriga o Estado a isto! Mas também não o
impede! Esta posição da Casa Civil do Governo
do Estado é política, pois utiliza uma norma
infra-legal (normativa) para recuar de uma proposta que
encontra amparo nos princípios do próprio
Estatuto das Cidades, mas também dos Direitos Humanos
Internacionais! Pior, nem a Procuradoria, nem a Casa Civil,
nem o Governo apresentaram outra proposta. Restringiram
assim a participação ao acompanhamento indireto,
via 'trabalho social', do PAC-Manguinhos.
Em
relação a isto, a proposta deste Fórum
da Cidadania é muito mais efetiva. Mas, tememos,
poder também não contemplar as especificidades
do que deveria ser tratado no âmbito do Comitê
de Acompanhamento do PAC-Manguinhos! A Favela É
Cidade. Somos todos cidadãos! Mas somos uma parte
da Cidade que muitos queriam esquecida, invisível!
Para nós a cidade deve ser pensada na perspectiva
dos princípios de Direitos Humanos, que conferem
prioridade absoluta para grupos sociais historicamente
minorizados e vulnerabilizados. E é deste ponto
de vista que também este Fórum da Cidadania
será um espaço de disputa e formação
política que deveremos enfrentar!
Somente
uma concepção que desvaloriza o nosso povo
justifica a exclusão das organizações
sociais de Manguinhos dos processos de gestão e
execução de políticas públicas,
seja de um trabalho chamado social, mas também
do Planejamento e Execução das ações
nos diversos setores: Saúde, Educação,
Cultura, Habitação, Saneamento, do PRONASCI,
etc. É esta mesma política que não
compreende a importância de reforçar o capital
social local para a sustentabilidade dos investimentos
do PAC-Manguinhos. Neste sentido, queremos deixar claro
que para nós os moradores de Manguinhos devem ter
protagonismo na gestão dos equipamentos construídos
pelo PAC Manguinhos.
Essa
concepção pejorativa de povo vem agenciando
os investimentos do PAC-Manguinhos em desacordo com as
prioridades das comunidades populares de Manguinhos. Mas
algumas incertezas nos deixam especialmente preocupados.
Ainda não foram divulgados os resultados do Censo
Manguinhos. A Prefeitura sequer realizou o Censo na área
em que deverá atuar. O Estado e da Prefeitura preveem
um grande número de indenizações,
cujo valor, apesar de seduzir (como o canto da sereia)
pessoas de baixa renda, não garante o direito à
moradia digna destas pessoas, incentivando a reprodução
de formas irregulares de ocupação do solo
urbano para fins de moradia, mas também a especulação
imobiliária. O que é um absurdo!
A
luta do movimento social de Manguinhos conseguiu elevar
o número de novas habitações previsto
no projeto do PAC-Manguinhos. Originalmente, o projeto
só previa cerca de 550 novas unidades habitacionais.
Após sucessivas demonstrações de
que este número não correspondia nem de
perto as necessidades geradas pelas obras do PAC, obtivemos
a ampliação deste quantitativo para 1.774
novas unidades. A nosso ver uma das providências
urgentes a serem tomadas pela Caixa Econômica Federal
deverá ser a garantia de que o Censo será
realizado em todo o território de Manguinhos. Somente
com estes números, precisados, pode-se definir
políticas públicas que respeitem os direitos
fundamentais dos cidadãos moradores de Manguinhos,
mas também evitar que o processo das obras possa
continuar violando estes direitos. Não é
aceitável que estes projetos, cujas obras já
estão em andamento, estejam calcados em informações
imprecisas, especulativas e na naturalização
da oferta discriminatória de políticas precarizadas
para os moradores mais vulneráveis das favelas.
O
trabalho social da Prefeitura além de ter se iniciado
com muito atraso, tem atuado de forma a restringir os
espaços de participação social, não
reconhecendo o Fórum do Movimento Social de Manguinhos
como espaço privilegiado e democrático de
diálogo com o movimento social organizado da região.
O que também reforça a necessidade da instituição
do Comitê Intersetorial de Acompanhamento do PAC-Manguinhos
JÁ!!! Afirmamos que a precariedade do diálogo
com os moradores de Manguinhos e a não-instituição
do Comitê também colocam em risco a própria
sustentabilidade dos investimentos públicos na
região!
Esse
discurso é um documento que está sendo assinado
pelas lideranças comunitárias, associações
de moradores, igrejas, agentes culturais, instituições
de educação e diversos outros segmentos
do movimento social de Manguinhos demonstrando a nossa
UNIDADE pela melhoria das nossas condições
de vida.
Acreditamos
que esse encontro de hoje será um importante passo
para um melhor andamento das políticas públicas
que visam o desenvolvimento das favelas e da nossa cidade
como um todo.
Muito
obrigada!!!