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LEME SONHA COM A PRIMEIRA DIVISÃO

Há três meses, na praia do Leme, durante cinco dias, seus freqüentadores vêm se acostumando com uma nova paisagem: os treinamentos do Leme Sport Club, clube de futebol criado por moradores do bairro que pensa em disputar seu primeiro jogo de primeira divisão dentro de seis anos. Com cores azul-e-branco, o time conta com um plantel: 55 jogadores, entre 16 a 28 anos.

Eles sonham em fazer sucesso no clube e se transferir para o exterior. Por enquanto, o time está na terceira divisão do futebol do Rio.

Patrocinado pela Asfunrio, o time, no entanto, ainda necessita de novos patrocinadores para resolver alguns problemas tão comuns para quem está começando. Para driblar a falta de recursos, às vezes, o cabo de vassoura vira baliza e câmara de pneumático se transforma numa corda para treinar “explosão” dos atletas. O time conta com jogadores como Junior Paulo, 25, cabeça de área que já jogou na França, e Leo Delatle, 24 anos, francês, zagueiro-central, que mora no Leme.

Fazem parte ainda jovens suburbanos que pegam dois ônibus para treinar no Leme, na esperança de deslanchar na profissão.

O treinador é Sergio do Nascimento, o Sérgio Galocha, 44, ex-zagueiro do Flamengo no início dos anos 80, e que há 20 mantém uma escolinha de futebol, no Leme, chamada “ Show de Bola” para os meninos dos morros da Babilônia, Chapéu Mangueira e de outras comunidades carentes da zona sul. Galocha diz ser muito exigente e tem frases-de-efeito na preleção de seus comandados. “Boca não joga, boca atrapalha”, diz ele, numa critica aos jogadores que falam muito.

Os dirigentes Reinaldo de Jesus Cunha, Sidney do Nascimento e Bruno Seroa, contam que os garotos vêm de diversos bairros para o treinamento na praia. A diretoria dá café e lanche. Entre os diretores, André Gasparetti cuida dos contratos dos jogadores. O time já jogou seis vezes, não venceu, mas mantém a chama acesa. “ Cobramos empenho, força de vontade e determinação”, diz Sidney.

Bruno informa que o jogador Wladimir veio treinar no Leme e depois de um mês se transferiu para o Borússia Dortmund, da Alemanha. Segundo Bruno, no Rio de Janeiro, o mercado de futebol é muito fechado. “Estamos dando oportunidades para eles serem vistos como profissionais. Nos clubes, em geral, o candidato a jogador fica largado muitas vezes. Pagam uns R$ 70 para treinar e é só”, conta ele.

Pelo planejamento da diretoria, o clube deverá estar dentro de seis anos na badalada primeira divisão do futebol do Rio de Janeiro, disputando partidas duríssimas contra Vasco, Flamengo, Botagogo e Fluminense.

Um dos fundadores do time é o craque Neném, da Seleção Brasileira de Futebol de Praia, que assinou a ata de criação do Leme Sport Club.

EX-JOGADOR DO FLAMENGO É O TÉCNICO

Sérgio do Nascimento, o Sérgio Galocha, o treinador do Leme Sport Club, jogou como lateral-direito do Flamengo nas temporadas 1981-1982. Dois anos antes, fora Junior do time de maior torcida do Brasil. Alguns de seus companheiros foram simplesmente os zagueiros Mozer, Figueiredo, Elder e Maciel. Neste time, ele foi comandado pelo cerebral treinador Cláudio Coutinho, ex-técnico da Seleção Brasileira, já falecido.


Por isso, hoje, Galocha consegue que craques Adílio, do supertime do Flamengo do início dos anos 1980, e Fernando Macaé, ex- Bangu e Botafogo, passem pelo pela praia e façam palestras para os ambiciosos jogadores do Leme. O sonho de Galocha é trazer seus amigos Zico e Junior para novas palestras. Galocha também conta com o apoio de Waltinho, treinador- auxiliar, filho de Silva Batuta, ex-centro-avante do Vasco e Flamengo nos anos 1960. “ De vez em quando, eu passo alguns detalhes para Galocha”, diz Waltinho.

Numa preleção para os jogadores, Galocha detalhou a importância do time estar se preparando com determinação. Pediu que os jogadores abraçassem o projeto, pois, detalhou, existem patrocinadores querendo alavancar o time, mas está esperando por resultados em campo. “ Eu sei quem quer ficar e quem quer sair. Eu passei por isso. Fui jogador”, diz Galocha.

TREINADOS PARA FAZER GOL

O francês Leo Delatle, 24, veio morar no Leme recentemente. Seu pai fez amizade com o dirigente Sidney Nascimento e este estimulou o rapaz a praticar futebol. Resultado: Leo treina como zagueiro no Leme Sport Club.

O taxista Enzo de Oliveira, nas folgas do volante, costuma a ser um dos cabeças-de-área do Leme. Junior Paulo, o mais experiente do grupo, lembra que, na França, onde jogou em times de segunda divisão, o método é bastante diferente do treinamento feito pelos técnicos brasileiros.

Formado por ex-juniores e profissionais de times cariocas, o Leme exibe um plantel eclético e diferenciado, segundo os próprios jogadores. Para Enzo, por exemplo, o mais importante no time é a união do grupo. “ Sem isso, não estaríamos aqui”, diz ele.

Junior Paulo, 25, se profissionalizou em 2003 quando foi jogar no Ceará, como lateral direito e cabeça de área. Ele começou a carreira no junior do Fluminense. Passou pelo beach soccer e depois se transferiu para França onde jogou no F.C. Paris e Creteil, da terceira divisão.

“Na França, estranhei o treinamento. Lá, os atacantes são obrigados a marcar. Aqui, não. Por isso, nossos atacantes têm muito potencial ofensivo, pois são treinados para fazer gol”, conta.

O francês Leo, para seu turno, diz admirar o futebol brasileiro e entre seus ídolos estão Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho.

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