CANDIDATOS
TERÃO QUE SE POSICIONAR SOBRE SEGURANÇA PÚBLICA
NO RIO
A
cena vem se repetindo a cada eleição: os
candidatos a prefeito e vereador ao entrarem nas comunidades
carentes devem estar acompanhados de alguma liderança
comunitária, que, antes, conseguira autorização
dos traficantes para que a campanha eleitoral pudesse
acontecer no local. Há duas semanas, Jandira Feghali,
candidata à prefeita pelo PC do B, constatou o
clima de tensão e nervosismo no complexo da Maré,
zona norte, com a presença de homens armados vigiando
a caminhada da candidata.
Fernando Gabeira, mais comedido, preferiu visitar a sede
do Bope (Batalhão de Operações Especiais),
na favela Tavares Bastos, no Catete, onde, acredita-se
que a violência lá é zero, em função
da presença do aparato militar. Era um sinal da
campanha do candidato que deve esperar debates acirrados
sobre o espírito exaltado de insegurança
na cidade durante os programas de TV.
As regras segundo as quais os temas nacionais devem pautar
eleições de grande porte (governador e presidente
da República), no Rio de Janeiro, passam ao largo
neste processo eleitoral. Todos os candidatos a prefeito
deverão se posicionar sobre o quê fazer para
reduzir a violência e controlar o aparelho policial,
embora não sejam atribuições constitucionais
de prefeitos. A municipalização da segurança
pública ocorrerá independentemente dos limites
jurídicos eleitorais onde o prefeito só
cuida de sua polícia, a Guarda Municipal.
Por falar em Guarda Municipal, os candidatos a prefeito
deverão fazer logo o dever de casa: o que fazer
com essa tropa? Armá-la e colocá-la à
disposição do secretario estadual de segurança
pública? Continuar com sua função,
isto é, de protetora dos bens municipais e interventora
de conflitos quando as posturas municipais estiverem ameaçadas?
Mantê-la como um aparato de choque em permanente
guerra com os ambulantes como ocorreu nos 12 anos das
gestôes cesaristas?
O problema é muito mais grave do que se pensa.
O Rio de Janeiro tem seis polícias públicas
em seu território: militar e civil (estadual),
guarda (municipal), federal e federal rodoviária
(federal), e todos os dias trememos diante de casos que
se repetem anos a fio: mortes de inocentes por balas perdidas,
atuação desastrada de policiais, bonde de
traficantes pelos subúrbios, acirramento de diferenças
sociais, enfim, um supercaldo ideológico de tendências
violentas e subjetividades indecifráveis.
Então, será impossível nos debates
da TV os candidatos se livrarem da questão segurança
pública. Mesmo que não vá fazer nada
(porque segurança pública não é
atribuição de prefeitos), os candidatos
terão que dizer que soluções devem
ser tomadas para reduzir e manter a violência urbanas
em níveis toleráveis pelos cariocas. Dessa
municipalização da segurança pública
ninguém vai escapar.
Como o vencedor da disputa não vai ficar distante
deste tema, será natural que crie uma Secretaria
Municipal de Segurança. Não para competir
com as polícias estaduais, mas, para, especialmente,
dar uma nova dimensão à Guarda Municipal.
Por outro lado, essa municipalização servirá
como um organismo de articulação com os
governos estadual e federal em relação ao
assunto. Por exemplo: o município do Rio fatura
muito com o turismo. Neste caso, o prefeito e o governador,
através da articulação da Secretaria
Municipal de Segurança, podem assinar convênio
estabelecendo policiamento especial em zonas de trânsito
dos visitantes da cidade. A Guarda Municipal, por exemplo,
pode fazer cursos de requalificação em organismos
estaduais.
Muitos prefeitos não têm esperado pelas ações
dos governos estadual e federal. Este foi o caso da prefeitura
de Diadema, no interior de São, que, há
quatro anos, resolveu impor lei seca na cidade e reduziu
o número de homicídios. Outros municípios
vêm treinando a Guarda Municipal para policiamentos
comunitários, ou seja, com mais inteligência,
mais próximo do cidadão e fazendo da prevenção
sua pedra de toque.
Em Nova Iguaçu, o prefeito Lindberg Farias (PT)
não esperou também a ação
federal e criou a Secretaria Municipal de Segurança,
que ficou a cargo do antropólogo Luiz Eduardo Soares,
que já tinha sido subsecretário de Segurança
Pública em 1999, durante o governo Anthony Garotinho.
A segurança pública é uma questão
estrutural do terceiro milênio e não deverá
sair tão cedo da pauta das grandes discussões
nacionais.