| A
HISTÓRIA DA CRIAÇÃO DA XXXª
RA DA MARÉ
Reinaldo
de Jesus Cunha*
Em 1987, o então prefeito do Rio de Janeiro,
Saturnino Braga, criou as Regiões Administrativas
do Jacarezinho, Alemão, Rocinha e Maré,
como parte de sua política de descentralização
administrativa. Era um momento difícil, pois,
ele, o prefeito, estava rompido com o então
governador Leonel Brizola (PDT), e a prefeitura
passava por grave crise financeira.
A implementação das RAs, nesse sentido,
coube James Lewis, ex- coordenador das Regiões
Administrativas do município do Rio de Janeiro.
Para democratizar o processo, os administradores
das RAS eram indicados pelo partido e eleitos pelos
integrantes das zonais eleitorais. A RA da Maré
foi disputada, na época, pelos senhores Neném
e Ferreira, um brizolista histórico.
Naquela época, porém, as lideranças
na Maré conseguiram que o prefeito Saturnino
Braga indicasse o administrador da RA, uma sugestão
das comunidades e não pelo partido. Na época,
os moradores participavam da Comissão de
Defesa da Maré, que deliberava em conjunto
após reuniões semanais.
Com o vácuo deixado pelo PDT, fui convidado
pelo ex-assessor Hermógenes (já falecido),
para articular lideranças da Maré,
visando a implementação da RA. A sra.
Maria do Carmo, ex-presidente da Associação
de Moradores da Vila Pinheiros, após várias
reuniões, foi indicada para ser a administradora
da RA.
Quanto da posse dela, surgiu o Conselho Governo
Comunidade (CGC), onde os militantes da Comissão
de Defesa da Maré passaram a atuar. Era um
órgão que reunia presidentes de Associações
de Moradores, comerciantes, organismos da prefeitura
e da UFRJ, na gestão de Horácio Macedo.
Com o passar do tempo, as reuniões do CGC
aconteciam no Ciep Gustavo Capanema, na Vila Pinheiros.
Depois passou a acontecer na sede da Associação
de Moradores de Vila Pinheiros. A RA foi impulsionada
pelo fato de os moradores terem indicado o administrador
regional. O fato possibilitava a comunidade ser
reconhecida como bairro e não como favela.
O passo seguinte foi a criação da
Comissão Setorial de Urbanização
da Maré, que tinha um representante de cada
comunidade, estudantes de arquitetura da UFRJ, representante
da Secretaria Municipal de Urbanismo e interessados
no processo. As reuniões eram quinzenais
e, às vezes, semanais.
Um dos assuntos interessantes que se discutiu foi
sobre a vocação e o destino da Maré.
Na época, já se previa o crescimento
vertical na comunidade. Em 1987, a Maré era
constituída de 13 comunidades: Conjunto Esperança,
Vila do João, Conjunto Pinheiros, Vila Pinheiros,
Timbau, Baixa do Sapateiro, Parque Maré,
Nova Holanda, Rubens Vaz, Parque União, Parque
Roquette Pinto, Praia de Ramos e Marcílio
Dias. Hoje 16 comunidades, com a inclusão
do Conjunto Bento Ribeiro Dantas, Conjunto Nova
Maré e Salsa e Merengue.
A comissão setorial acabou com a posse de
Marcelo Alencar, o novo prefeito, que indicou o
novo administrador regional da Maré, João
Brizola, indicado pelas bases do PDT, ( Partido
Democrático Trabalhista), após calorosa
discussão.
Para as comunidades, a gestão do novo administrador
foi marcada pela volta da máquina política
do partido, e o esvaziamento do CGC. O fato de ao
mesmo tempo, de terem colocarem alguém que
não tinha de sintonia com as lideranças
locais e a serviço de interesses eleitoreiros
acabou com a politica de autogestão popular.
Na época do governador Carlos Lacerda, idealizador
das Regiões Administrativas, os administradores
eram indicados entre os servidores públicos
mais capazes e de conduta ilibada. Era uma época
segundo a qual as RAs tinham muita influência
política. Até o delegado de polícia
da região era subordinada ao administrador
regional.
Este servidor contava também com um pequeno
orçamento para solução de pequenos
problemas como tapar buraco nas ruas e resolver
questões de saúde e educação.
Em 1987, a Maré inovou com sua RA. Hoje,
passados 47 anos, da Criação das RAs,
velhos problemas permanecem atuais. Por exemplo:
como dotar a RA de orçamento, eleger diretamente
o administrador regional, obrigar os organismos
públicos a participarem de ações
conjuntas. Ou então, criar meios de participação
dos moradores nas decisões estratégicas
da RA.
A experiência da Maré foi um marco
administrativo da gestão do prefeito Saturnino
Braga em criar RAS em favelas. E hoje como ela está?
Descubra na próxima edição.
*Reinaldo de Jesus Cunha foi assessor da CRA
na implantação da XXXª RA.
Atuou como 1º secretário da gestão
de 2007 a 2008. Hoje é presidente da Asfunrio. |