ZUMBI ENTRE OS PRETOS-NOVOS DA SAÚDE

As comemorações pelo Dia Nacional da Consciência Negra), no Rio de Janeiro, tiveram uma programação especial no Instituto e Pesquisa de Memória Pretos Novos (IPN), na Rua Pedro Ernesto, nº 32 da Saúde, um dos bairros que formavam a chamada “Pequena África”, no século XIX.

Ali, durante dois dias, foram feitos seminários, exibição de filmes, palestras, canto coral, rodas de samba, cerimônias religiosas e muita discussão sobre Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares, que , em 20 de novembro, dia de sua morte, há 313 anos, recebe homenagens.

Antes de participar de alguns eventos, o músico de reggae ganês Nabby Clifford e Abdullah Sanin Aleiso, presidente do Igammalês Irmandade de Crêoulos Africanos Muçulmanos Males Yorubá, defenderam o fim da palavra “negro” no dicionário e nas expressões correntes do cotidiano. “Negro está relacionado a tudo que é ruim. É dia negro, magia negra, sorte negra, enfim, uma série de estereótipos. O ideal é sermos chamados de pretos”, propôs Nabby. Segundo ele, a palavra “negro” foi banida dos Estados Unidos e de alguns países do Caribe após a escravidão à sua conotação pejorativa.


Quem também passou pelo IPN foi a historiadora Néia Daniel, ex-assessora de cultura afro-brasileira da Secretaria Estadual de Cultura. Néia fez uma palestra sobre o marinheiro João Candido, o líder da Revolta da Chibata, acontecida em 22 de novembro de 1906, nas águas da Baía de Guanabara, em protesto contra os castigos brutais na Marinha. Recentemente, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, inaugurou o monumento em homenagem a João Cândido, na Praça XV.

“ Esta estátua inaugurada agora era para ter sido colocada lá, na Praça XV, há muito tempo, já estava pronta. Mas a prefeitura alegava que ela não tinha valor estético e adiava sempre sua inauguração”, contou a historiadora para o público formado por jovens, adultos e crianças.

Após a palavra de Néia, chegou a vez da apresentação do coral Iyu Ase Orun, que, formado por 18 homens e mulheres, brancos e negros. Na pequena sala de concertos do IPN, através da língua yorubá, o coral prestou uma belíssima homenagem à África. Os cantos evocavam a magia das culturas africanas que aqui chegaram, no inicio do século XVI.

Depois, foi exibido o filme” Atabaques Nzinga”, de Otávio Bezerra, que relata a fantástica história de Nzinga, a rainha angolana, que organizou a resistência contra a invasão portuguesa em Angola, no inicio do século XV. Por causa deste feito, ela acabou se tornando um protótipo de mulher guerreira e de liderança africana feminina.

Reinaldo de Jesus Cunha, presidente da Asfunrio, que esteve prestigiando os eventos do IPN, elogiou o trabalho realizado no Dia Nacional da Consciência Negra pela direção da casa Afro-Cultural da Saúde. Segundo ele, a diversificação das atividades do IPN foi o ponto alto das homenagens a Zumbi.

A casa cultural, sem fins lucrativos, surgiu, em 1996, quando numa reforma, os pedreiros encontraram ossadas de escravos que eram chamados de “pretos novos”. Tratava-se, neste sentido, do cemitério dos pretos-novos, bastante citado em livros de viajantes. Ali tinha sido sepultados, em condições precárias, entre 1824 a 1830, 6.122 escravos, sendo 60% de homens, 30% de mulheres e 10% de jovens e crianças, segundo a entidade. Hoje, o local virou Instituto de Pesquisa e Memória Pretos-Novos, um centro cultural filantrópico, que se dedica a preservar à memória da cultura afro-carioca.

 

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