| ONG:
polícia carioca matou 25% mais em 2007
30/4/2008 09:18
A
política de segurança pública do governo
do Rio de Janeiro foi duramente criticada hoje, em audiência
pública realizada pela Comissão de Direitos
Humanos e Minorias da Câmara. A representante da ONG
carioca Rede contra Violência, Patrícia da
Silva, citou dados mostrando que o número de mortos
pela polícia cresceu de 1063 em 2006 para 1330 em
2007 (25%). Ela denunciou o uso indiscriminado dos "autos
de resistência" - nos quais os mortos são
acusados de terem resistido à prisão e atacado
a polícia - para mascarar as execuções
sumárias.
"Até
uma mãe com criança no colo foi enquadrada
num auto de resistência. Como essa mãe poderia
estar com um fuzil?" - perguntou Patrícia. Ela
acrescentou que os inquéritos policiais sobre alguns
casos desses permanecem parados. A representante criticou
a declaração do governador Sérgio Cabral
de que os bairros ricos do Rio têm padrão Suécia,
porque as mães tem no máximo dois filhos,
enquanto as favelas são padrão Zâmbia,
onde os muitos filhos constituem "uma fábrica
de criminosos".
A
mãe Márcia Jacintho disse que os autos de
resistência são parte de uma doutrina batizada
de "inseticida social", destinada a eliminar negros
e pobres. "As comunidades precisam ser respeitadas",
pediu, contando que seu filho nunca foi traficante, e que
os policiais "implantaram" um revolver 38 e algumas
trouxinhas de maconha para incriminá-lo e encobrir
o crime.
Márcia
não escondeu sua indignação diante
do fato de que os dois policiais, além de permanecerem
em liberdade, foram há pouco promovidos, apesar de
estarem respondendo por homicídio doloso e também
por fraude processual. "É preciso pôr
um freio nessa onda de criminalizar a pobreza", pediu,
dizendo que a violência não é natural
dos pobres, e começa quando o Estado não dá
educação.
Caveirão
O deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) afirmou que a
polícia fluminense não respeita a população
pobre, em especial os jovens, e pode ser qualificada de
"genocida" e "fascista". Segundo ele,
o Poder Público tornou-se sócio do narcotráfico,
pois os presos são enviados aos presídios
conforme a facção criminosa a que pertencem.
O deputado revelou que os presos são obrigados a
assinar, nas suas fichas policiais, sob um carimbo com a
frase "assumo a responsabilidade pelo que me acontecer
no presídio tal, da facção tal".
Para Freixo, é um exemplo do absurdo a que chegou
a polícia.
Freixo
criticou o uso do caveirão, lembrando a utilização
do mesmo equipamento pelo regime do apartheid, na África
do Sul. "A lógica perversa da criminalização
da pobreza tem no caveirão - veículo blindado
usado pela polícia para entrar nas favelas - o seu
símbolo maior". O deputado informou que o caveirão
atira indiscriminadamente, fazendo muitas vítimas
inocentes, e entra nas favelas com seu autofalante ameaçando:
"sai da frente, vim buscar sua alma".
O
deputado citou pesquisa feita com crianças do Rio
sobre o que mais lhes mete medo. As da Zona Sul deram algumas
respostas variadas - uma bala perdida, um carro correndo,
um negro da favela. Já as crianças das favelas,
todas elas, sem exceção, responderam: do caveirão.
O
tenente-coronel da PM Mário Sérgio Duarte,
presidente do Instituto de Segurança Pública
do Rio de Janeiro, falou em nome do secretário de
Segurança do Rio, José Mariano Beltrame. Ele
argumentou que os policiais não gostam de usar o
caveirão, mas que ele é necessário,
pelo menos por enquanto. "Tomara que seja provisório",
disse o militar. Duarte disse ter ficado preocupado com
uma pesquisa que mostra que a maioria da população
carioca, inclusive a favelada, é a favor do caveirão.
"Fiquei com medo que ele vire permanente", desabafou.
Conflito
urbano
Em relação à excessiva violência
policial, Mário Sérgio Duarte argumenta que
o Rio é diferente dos outros estados. Segundo ele,
a presença abundante de armas de guerra, como os
fuzis AK-47, são uma característica carioca.
"Nós policiais não desejamos o confronto,
e inclusive perdemos sete policiais só na semana
passada; mas há situações que não
podemos deixar de enfrentar", explicou.
Duarte
disse que o governo Sérgio Cabral encontrou o Rio
em uma situação caótica, no início
de 2007: atentados de todo tipo, inclusive à própria
chefia da Polícia, ataques incendiários contra
ônibus, tiroteios freqüentes, tensão e
insegurança nas delegacias. "Levar um tiro de
fuzil tornou-se uma hipótese banal", afirmou.
O
militar admitiu ter aumentado o número de autos de
resistência, mas ressaltou que, em contraposição,
os homicídios dolosos diminuíram. Disse também
que a segurança pública começa a ser
vista como algo além da mera repressão, que
inclui também ações de educação,
de saúde, de promoção da cidadania.
"Tratar o crime só com repressão é
como enxugar gelo", afirmou.
Fonte:
AGÊNCIA CÂMARA |