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Assédio judicial
Equipe da Universal orienta fiéis a processar
imprensa
por Priscyla Costa
A
ofensiva da Igreja Universal do Reino de Deus contra a imprensa
pode atingir proporções gigantescas. A igreja
montou uma equipe para orientar seus fiéis a entrarem
com pedidos de indenização por danos morais
contra jornais e jornalistas que publicam notícias
sobre os negócios da Universal.
Até
agora, são 96 processos de fiéis em dezenas
de cidades pelo interior do país. E o número
vai crescer. Em reportagem exibida no último fim
de semana pelo programa Domingo Espetacular, da TV Record
— que pertence ao bispo da Universal Edir Macedo —
é feita uma ameaça velada. Depois de dizer
que há mais de 50 ações contra o jornal
Folha de S.Paulo e a jornalista Elvira Lobato, lembra: "A
Universal tem cinco mil templos". A reportagem tem
sido repetida com insistência pela emissora.
A
série de ações de fiéis da Universal
contra jornais começou depois que a Folha publicou
a reportagem Universal chega aos 30 anos como império
empresarial, em 15 de dezembro. No texto, a repórter
Elvira Lobato relatou que a Universal construiu um conglomerado
empresarial. A jornalista informou que uma das empresas
da Igreja, a Unimetro, está ligada à Cableinvest,
registrada no paraíso fiscal da ilha de Jersey, no
canal da Mancha. "O elo aparece nos registros da empresa
na Junta Comercial de São Paulo. Uma hipótese
é que os dízimos dos fiéis sejam esquentados
em paraísos fiscais", informou.
Nas
primeiras decisões sobre o caso, a manobra da igreja
já foi classificada como "assédio judicial",
"aventura jurídica" e "abuso de direito"
pelos juízes que apreciaram as causas. Segundo o
departamento jurídico do jornal, a Folha e a jornalista
Elvira Lobato foram intimados em 50 ações.
O jornal já ganhou cinco delas. O único pedido
rejeitado foi a preliminar para reunir todas as ações
em um só juízo, solicitação
negada pelo Juizado de Jaguarão (RS). Para todas,
cabem recurso. A Igreja Universal diz que são 56
ações.
A
maioria dos processos está concentrada em Juizados
Especiais. Eles tramitam em São Paulo, Rio Grande
do Sul, Minas Gerais, Piauí, Acre, Mato Grosso do
Sul, Paraíba, Amazonas, Espírito Santo, Bahia
e Rio Grande do Norte, por enquanto. Todos foram protocolados
em cidades do interior dos estados, para dificultar a defesa
do jornal e jornalista. Uma audiência, por exemplo,
aconteceu numa cidade do Amazonas que fica a 300 quilômetros
de barco distante da capital, Manaus — neste caso,
a viagem demora, pelo menos, 10 horas.
Apenas
duas ações não entraram em Juizados
Especiais. Uma é movida exclusivamente pela Universal.
E existe uma queixa-crime contra a jornalista pelo crime
de difamação.
Desde
o mês de janeiro, o departamento jurídico da
Folha tem se desdobrado para atender todas as intimações
e comparecer as audiências. Tarefa impossível,
claro. A advogada Taís Gasparian, responsável
pela defesa do jornal e jornalista, disse para a Consultor
Jurídico que na segunda-feira (18/2), por exemplo,
seis audiências foram marcadas. Todas exigem a presença
de advogado, preposto e parte. Gasta-se com passagem de
avião, honorários e hora de trabalho. Nos
lugares mais distantes, a Folha manda representantes.
"O
que espanta é que o Juizado Especial foi criado para
possibilitar o acesso dos cidadãos ao Judiciário,
mas não para ser usado para atolar e inibir a cobertura
da imprensa", afirma Taís.
Ataque
generalizado
Além
da Folha, respondem ações de indenizações
por danos morais o jornal Extra, e seu diretor de redação,
Bruno Thys, do Rio de Janeiro; e A Tarde e o jornalista
Valmar Hupsel Filho, de Salvador. O jornal Extra e Bruno
Thys são réus em cinco ações
movidas por pastores nas cidades de Barra Mansa, Campos,
Miracema, Bom Jesus de Itabapoana e Santo Antônio
de Pádua — todas do interior fluminense.
O
jornal relatou o caso em que um fiel da igreja, Marcos Vinícius
Catarino, danificou imagem de madeira de São Benedito
em uma igreja de Salvador. Catarino foi detido pela polícia
e liberado no mesmo dia. Os cinco pastores alegaram que
se sentiram ofendidos com a divulgação da
notícia. Afirmaram no pedido inicial estar "correndo
o risco diário de sofrer agressões físicas
e sofrendo discriminações até por parte
de membros da Iurd, uma vez que eles também têm
sido alvo de perseguição religiosa".
O
jornal A Tarde publicou reportagem sobre o mesmo episódio,
assinada pelo repórter Valmar Hupsel Filho. Até
o fim da semana passada, já haviam sido ajuizadas
35 ações contra a empresa e o jornalista em
vários estados, nenhuma em Salvador, sede do jornal.
Uma das ações foi extinta.
O
próximo alvo é o jornal O Globo, também
do Rio. Fiéis prometem processar o jornal por causa
da reportagem Igreja Universal tenta intimidar jornalistas,
em que a Universal é tratada como "seita".
As ameaças de acionar a Justiça contra O Globo
foram feitas em uma reportagem exibida no Domingo Espetacular,
o programa dominical da Rede Record do bispo Macedo. Na
reportagem, de longos 14 minutos, fiéis se dizem
ofendidos e prometem recorrer à Justiça contra
o jornal. Um dos fiéis ouvidos pela repotagem cotna
que procurou o departamento jurídico da igreja, que
o orientou a ingressar com a ação.
O
Domingo Espetacular ainda destacou um texto do jornal Correio
do Povo, pertencente à Rede Record, no Rio Grande
do Sul, intitulado Justiça impõe derrota à
Folha de S. Paulo em ações de fiéis
da Igreja Universal, sobre o pedido rejeitado feito pela
Folha para que todas as ações fossem concentradas
em uma só cidade. A reportagem não faz nenhuma
menção às decisões judiciais
desfavoráveis a Igreja já proferidas.
A
mesma dor
Nos
processos contra a Folha, os fiéis sustentam que
a jornalista Elvira Lobato "insinuou" que os membros
da Universal são inidôneos e que o dízimo
pago por eles é produto de crime. Disseram ainda
que ouviram gozações de conhecidos. As petições
são iguais, com parágrafos e citações
bíblicas idênticas.
O
dano narrado pelas partes também é idêntico:
"O autor [da ação] passou a ser apontado
por seus semelhantes com adjetivos desqualificantes e de
baixo calão, além de ser abordado com dizeres
do tipo: 'Viu só! Você que é trouxa
de dar dinheiro para essa igreja!' 'Esse é o povo
da sua igreja! Tudo safado!' 'Como é que você
continua nessa igreja? Você não lê jornal,
não?' 'É. Crente é tudo tonto, mesmo'."
Dois
juízes condenaram fiéis autores de ações
por litigância de má-fé. "O Judiciário
não pode admitir que seja usado, por quem quer que
seja, para atingir objetivo ilegal, devendo repelir com
veemência tais práticas", sentenciou a
juíza Zenair Ferreira Bueno Vasques Arantes, titular
da comarca de Xapuri (AC). O fiel Maurício Muxió
dos Santos foi condenado a pagar custas processuais e honorários
advocatícios no valor de R$ 1,2 mil, além
de multa de 1% sobre o valor da causa por má-fé.
"É
evidente que a propositura das ações indenizatórias
constituem retaliação orquestrada às
matérias jornalísticas publicadas no jornal",
afirmou Zenair. Segundo ela, o fiel não foi mencionado
no texto publicado pela Folha. Por isso não tem razão
para pedir indenização. "Mesmo com muito
esforço é impossível acreditar que
fiéis, nos mais distantes rincões do país,
tenham sido abordados como os mesmos dizeres", afirmou.
O
juiz Alessandro Leite Pereira, de Bataguaçu (MS),
foi outro que condenou um fiel por má-fé.
"O Poder Judiciário está sendo utilizado
pelo autor para o fim espúrio de prejudicar os demandados,
tendo em vista que diversas demandas, com a mesma causa
de pedir e pedido, foram distribuídas pelos variados
rincões do país, em localidades de difícil
acesso, sendo nítida a intenção do
autor, como também dos demais demandantes nas ações
mencionadas, de dificultar a defesa dos réus",
escreveu Pereira na sentença. O juiz condenou Carlos
Alberto Lima a pagar custas, despesas e honorários,
que arbitrou em R$ 800 (1% do valor da causa).
O
juiz Luís Henrique Lins Galvão de Lima, da
comarca de Porangatu (GO), julgou improcedente a ação
de indenização proposta por Aleksander Ferreira
dos Santos. Em sua decisão, o juiz afirmou que sentenciava
antes da audiência de conciliação "a
fim de evitar que esta aventura jurídica vá
avante e consuma o tempo e os recursos necessários
aos processos de alta relevância para a sociedade".
O
juiz Edinaldo Muniz dos Santos, titular da comarca de Epitaciolândia
(AC), extinguiu o processo em que Edson Duarte Silva pretendia
obter indenização. O juiz entendeu que há
um "assédio judicial", ou seja, "uma
atuação judicial massificada e difusa da Igreja
Universal contra o jornal". Outro pedido foi negado
pelo juizado de Catolé do Rocha (PB).
Procurada
pela reportagem, a Igreja Universal não se manifestou.
Revista
Consultor Jurídico, 19 de fevereiro de 2008
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