| País
da escuta
Justiça autorizou 409 mil grampos telefônicos
em 2007
No ano passado, 409 mil interceptações telefônicas
foram feitas no país, com ordem da Justiça,
pelas operadoras Oi, TIM, Brasil Telecom, Telefônica,
Vivo e Claro. O número é das próprias
empresas que o repassaram para a CPI dos Grampos em audiência
na quinta-feira (6/3).
As
empresas confirmaram um crescimento de 10% no número
de pedidos entre 2006 e 2007. Mas o número de pessoas
grampeadas pode ser maior. O secretário-geral da
Telefônica, Gustavo Fleichman, disse que a empresa
detectou 26 escutas clandestinas em 2007.
Fleichman
informou que a Telefônica fez 2.632 interceptações
por ordem judicial. Ele explicou que a comunicação
com a Polícia não é feita por cabos,
mas por um sistema eletrônico, com a ajuda de um software.
Já
segundo o gerente de Relacionamento e Apoio aos Órgãos
Públicos da TIM, Delmar Nicoletti, a empresa executou
no ano passado 235 mil interceptações telefônicas
por ordem judicial. Ele disse que a TIM usa o mesmo sistema
da Claro, o Vigia.
O
diretor de Patrimônio e Segurança da Oi, Paulo
Edson Pioner, disse que a empresa fez 20 mil interceptações.
Segundo Pioner, a Oi checa os dados da ordem de execução,
entrando em contato diretamente com o juiz para confirmar
o nome e o número da pessoa.
A
diretora jurídica da Claro, Tula Peters, disse que
a companhia executou 33 mil quebras de sigilo em 2007. Segundo
ela, a equipe do setor trabalha em uma sala exclusiva, num
esquema de segurança que inclui câmeras de
vigilância.
O
gerente de Segurança da Vivo, Diogo Rio Neves, informou
que a empresa fez, em 2007, 72.677 interceptações.
Segundo ele, a Vivo não aceita ordens por e-mail,
pois não há como verificar a autenticidade.
Para
o presidente da CPI, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), com esses
números, fica a impressão de que primeiro
a Polícia manda grampear o telefone, para depois
começar as investigações. Já
o relator da CPI, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), considera
que um país com tantas ligações interceptadas
não consegue garantir o direito à privacidade.
Para
Itagiba, os depoimentos de quarta-feira (5/3) do presidente
da Associação dos Magistrados Brasileiros
(AMB), Mozart Valadares Pires, e do presidente da Associação
de Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Walter Nunes
da Silva Júnior, demonstraram que o poder de fiscalizar
não está sendo exercido pelos juízes
que expedem os mandados de interceptação telefônica.
Pires
afirmou que a AMB é favorável à escuta.
O magistrado lembrou que a Lei 9.296/96, que regulamenta
a interceptação telefônica, deixou bem
claro que esse mecanismo deve ser exceção.
Já Silva Júnior declarou que a escuta telefônica
é "um modo inteligente de investigação,
e muito útil no combate às grandes organizações
criminosas". Mas, em sua opinião, é necessário
um aperfeiçoamento da legislação sobre
o tema.
Os
presidentes da Associação Nacional dos Procuradores
da República (ANPR), Antônio Carlos Alpino
Bigonha; e da Associação Nacional dos Membros
do Ministério Público (Conamp), José
Carlos Cosenzo, também serão ouvidos pela
CPI.
A
CPI ouve ainda, na próxima semana, o depoimento do
ministro aposentado Sepúlveda Pertence. A comissão
vai colher, por escrito, o depoimento do ministro Gilmar
Mendes, vice-presidente do STF.
Telefone
do ministro
Na
mesma CPI dos Grampos, o representante de Relações
Institucionais da Oi Fixo (antiga Telemar), Arthur Madureira
de Pinho, confirmou que o ministro do Supremo Tribunal Federal,
Marco Aurélio, foi grampeado quando visitou o Rio
de Janeiro. "O grampo ocorreu depois de novembro de
2005, quando saí da Gerência de Operações
Especiais da empresa. Por isso, não sei detalhes
dos desdobramentos do caso nem os rumos que a investigação
tomou", afirmou o técnico, que trabalha há
28 anos na companhia telefônica.
Ao
saber da informação, o ministro disse que
estava "perplexo" e "inconformado" com
as afirmações do executivo da Oi Fixo. "A
situação é surrealista. Para haver
grampo, teria de ter ordem de um juiz. Em relação
a ministro do Supremo, a competência para deferir
este tipo de autorização é do próprio
STF. Será que um colega meu deu uma ordem como essa?
A resposta é negativa. Então, foi um grampo
clandestino como tantos outros. Se ousam a ponto de grampear
o telefone de um ministro do Supremo, o que pode ocorrer
com o cidadão comum?", questionou Marco Aurélio.
E
disse mais: "Sou um homem público e que está
sujeito a isso. Não tenho nada a esconder. O grampo
foi feito em 2006, ano eleitoral. Por que será que
estariam me bisbilhotando?", indagou. Marco Aurélio
afirmou que não desconfia da Polícia Federal
neste caso.
A
suspeita de grampo ilegal de ministros do STF foi divulgada
pela revista Veja em agosto de 2007. Na ocasião,
cinco ministros (Marco Aurélio, Gilmar Mendes, Sepúlveda
Pertence — aposentado, Celso de Mello e Cezar Peluso)
admitiram publicamente a suspeita. E mais: a suspeita do
autor do grampo ilegal recaiu sobre a Polícia Federal.
Um
dos ministros mais incisivos foi Gilmar Mendes. Ele contou
que teve certeza de que estava sendo vítima de escutas
clandestinas desde o mês de junho de 2007, quando
decidiu soltar detidos na Operação Navalha.
Instantes
depois de avisar ao procurador-geral da República
que mandaria soltar alguns presos, o ministro recebeu um
telefonema de uma jornalista. Ela queria saber se o ministro
iria mesmo soltar os presos. O ministro perguntou ao procurador
se ele havia comentado o assunto com alguém. A resposta
foi negativa.
Em
setembro do ano passado, em encontro com um grupo de cinco
deputados, a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra
Ellen Gracie, contou que uma empresa especializada detectou
na casa dela um grampo telefônico clandestino. Limitou-se
a relatar o fato, que teria ocorrido em 2001, antes, portanto,
que ela se tornasse presidente do STF.
A
CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas começou
o trabalho no mês de dezembro de 2007. A comissão
tem 120 dias para apresentar o relatório final, mas
acredita-se que esse prazo será prorrogado para que
a CPI possa ter acesso às informações
relevantes sobre o tema.
Revista
Consultor Jurídico, 7 de março de 2008
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