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vigiado
Quase 70% dos prefeitos paulistas são investigados
por Fernando Porfírio
O
estado de São Paulo, com 645 municípios, tem
443 prefeitos investigados ou respondendo a ação
penal pública. O número corresponde a 68,7%
dos chefes dos municípios paulistas. O levantamento
foi feito pela revista Consultor Jurídico junto ao
Ministério Público Estadual e ao Tribunal
de Justiça de São Paulo.
Apenas
no Setor Especial de Crimes de Prefeitos (Secrim) —
braço do Ministério Público com atribuição
para investigar prefeitos e ex-prefeitos — há
1.560 procedimentos envolvendo acusações contra
estes agentes públicos. Ou seja, o número
de investigações em curso junto ao Ministério
Público é mais do que o dobro do número
de municípios do estado.
Para
dar conta da montanha de acusações envolvendo
agentes públicos que têm prerrogativa de foro,
a Procuradoria-Geral de Justiça montou uma tropa
de choque. Ela é coordenada pelo procurador de Justiça
Luiz Roque Lombardo Barbosa e formada por outros cinco promotores
e cinco funcionários. A equipe apura denúncias,
requisita sindicâncias ou a abertura de inquéritos
ao Tribunal de Justiça, recebe o resultado e oferece
denúncias ou pede o arquivamento dos casos.
Na
outra ponta da linha, onde o estado tem o poder de aplicar
justiça, está a 15ª Câmara Criminal
do Tribunal paulista, turma especializada com competência
para julgar prefeitos, ex-prefeitos, servidores e crimes
contra a administração pública. A Câmara
cuidava, até o final de fevereiro, de 1.400 procedimentos
(ações penais, recursos, denúncias,
inquéritos policiais, inquéritos civis e sindicâncias)
envolvendo chefes ou ex-chefes de Executivo Municipal.
Entre
outubro do ano passado, quando ela foi criada, e fevereiro
deste ano, a 15ª Câmara Criminal recebeu 49 e
rejeitou 41 das 149 denúncias apresentadas pelo Ministério
Público. Outras 59 denúncias estão
na fila aguardando julgamento. Entre os crimes investigados
estão fraudes em licitação, contratação
irregular de servidores, peculato, desvio de verba pública,
uso de documento falso e até furto de energia elétrica
pela prefeitura. Há acusações também
de formação de quadrilha ou bando, extorsão,
lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e até
pedofilia.
Os
processos de crimes mais graves supostamente cometidos por
prefeitos correm em segredo de justiça. Quando esses
casos vão a julgamento no TJ paulista, a sala é
esvaziada, só ficando no local os juízes,
promotores e a defesa. Foi o que aconteceu no julgamento
do prefeito de Lorena ou na terça-feira (4/4), quando
foi apreciada uma apelação criminal de Campinas.
Só
para prefeitos
A
turma exclusiva para julgar crimes atribuídos a prefeitos,
ex-prefeitos, funcionários públicos, abuso
de autoridade e delitos contra a administração
pública no TJ paulista foi criada pela Resolução
393, em outubro do ano passado. Com a criação
da câmara, os julgamentos ficaram mais rápidos.
A
câmara especial é presidida pelo desembargador
Ribeiro dos Santos, ex-presidente da Seção
de Direito Criminal do TJ e ex-presidente do extinto Tribunal
de Alçada Criminal (Tacrim). Tem uma composição
pluralista do ponto de vista do Direito Criminal. É
formada pelos desembargadores Aloísio de Toledo César,
Walter Guilherme, Ribeiro dos Santos, Pedro Gagliardi, Roberto
Mortari, Gilberto Passos de Freitas e Marco Antonio.
A
maior parte dos crimes cujo julgamento é de competência
da turma está prevista no Decreto-Lei 201/67, que
disciplina a conduta de prefeitos e ex-prefeitos. Ela é
complementada pela Lei 8.666/93, que estabelece as normas
para licitações e contratos no serviço
público. De acordo com a legislação,
todos os crimes cometidos durante o exercício do
cargo serão julgados pelo Tribunal de Justiça.
Na
última terça-feira (4/4), o prefeito de Novais,
município localizado na região de Catanduva,
escapou de ser afastado do cargo pelo Tribunal de Justiça.
Silvio Arruda (PL) foi salvo pela tese defendida pelo desembargador
Walter Guilherme e acompanhada pelo 3º juiz, Pedro
Gagliardi, de que para ser afastado, sem o trânsito
em julgado da sentença, teria de haver prova fundamentada
da necessidade do afastamento.
No
mesmo dia, a turma acolheu denúncia contra o prefeito
de Mauá, Leonel Damo dos Santos (PV), que agora responde
a ação penal pública por dispensa indevida
de licitação. Damo é acusado pelo Ministério
Público de contratar irregularmente uma empresa para
entrega de merenda escolar.
De
acordo com a denúncia, em setembro de 2006, a prefeitura
assinou, por três meses, contrato de emergência
para a entrega de merenda escolar. Segundo o MP, o contrato
foi firmado com valor três vezes maior que o convênio
anterior. No caso de ser condenado, Damo estará sujeito
à perda do mandato, a ficar inelegível pelo
prazo de cinco anos ou ser obrigado a devolver aos cofres
públicos todo o valor do suposto desvio, acrescido
de juros e correção monetária. A legislação
prevê, ainda, pena de detenção de três
a cinco anos, acrescida de multa.
Prefeitos
presos
Antes
da criação da Câmara Especial, dois
prefeitos foram presos por conta do trabalho conjunto do
Ministério Público e do Tribunal de Justiça,
com apoio da Policial Civil. Algumas dezenas foram condenadas
e aguardam o julgamento de recursos em liberdade. Há
também diversos casos de crimes que prescreveram.
O
primeiro a ser preso Antonio Izzo Filho, de Bauru. O tribunal
paulista mandou o ex-prefeito cumprir em regime fechado
a pena de seis anos e nove meses de cadeia por ter mandado
incendiar a casa de vereadores no início de 1999.
Izzo aguardou em liberdade o julgamento do recurso contra
a sentença que o condenou a nove anos de prisão
quando foi julgado na Justiça de Bauru. Hoje, está
em liberdade condicional.
O
segundo, preso em agosto de 2002, foi o ex-prefeito de Ribeirão
Bonito, Antônio Sérgio Mello Buzzá.
Ele foi preso em Chupinguaia (RO). Buzzá foi acusado
de comandar um esquema de corrupção na prefeitura
de Ribeirão Bonito, entre janeiro de 2001 e início
de 2002, que teria desviado até R$ 1,7 milhão.
Buzzá foi localizado pela Polícia em Rondônia
depois de reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, sobre
as investigações na cidade.
Ranking
dos processos
O
prefeito de Itaquaquecetuba, Armando Tavares Filho (PL),
é o prefeito que responde ao maior número
de procedimentos no Tribunal de Justiça de São
Paulo. São 16 inquéritos, duas denúncias,
além de queixa-crime, sindicância e 16 processos
em segredo de Justiça. O segundo colocado, Juan Manoel
de Pons Garcia (PPS), prefeito de São Sebastião,
no litoral norte do estado, tem de se defender em 15 expedientes
que estão na 15ª Câmara Criminal: quatro
inquéritos, 10 sindicâncias e um processo que
corre em segredo de Justiça.
O
prefeito de Águas de Lindóia, Eduardo Nicolau
Âmbar (PP), é acusado em 10 casos, dos quais
três correm em segredo. O prefeito foi afastado do
cargo na semana passada pelo Tribunal de Justiça.
Ele responde as acusações de furto de energia
elétrica pela prefeitura, a contratação
de empresa com suposto superfaturamento, uso do símbolo
de campanha eleitoral nas obras da prefeitura, desvio de
verbas públicas e fraude em licitação
no contrato de empresas de escolta, de transporte escolar
e de prestação de serviços médicos.
A
lista ainda inclui os prefeitos de grandes cidades como
Welson Gasparini (PSDB), de Ribeirão Preto, que aparece
com quatro processos em segredo de justiça. O Tribunal
de Justiça também apura eventuais irregularidades
cometidas pelo prefeito de Campinas, Hélio de Oliveira
Santos (PDT), acusado de contratação irregular
de servidores, de compra de votos e da venda de terreno
público. Hélio Santos ainda tem quatro processos
que correm sob sigilo.
O
prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), responde
a uma sindicância que apura eventual irregularidade
no pagamento de verba para a execução do projeto
de capacitação profissional de jovens, conhecido
como Programa Capacita Sampa. No ano passado, a imprensa
noticiou que a ONG Reação Positiva recebeu
R$ 390 mil do programa e teria apresentado atestado fraudado
de capacitação em nome da Prodam (Companhia
de Processamento de Dados do Município de São
Paulo).
O
tribunal também apura possíveis crimes praticados
pelo prefeito de Guarulhos, Elói Pietá (PT).
Os inquéritos investigam suposta fraude em licitação
para compra de equipamentos de computação
e irregularidades na aquisição de veículos
e apólices de seguro com verbas da Secretaria Municipal
de Saúde.
As
investigações também recaem sobre prefeitos
como o de Americana, Erich Hetzl Júnior (PDT), que
responde a processo em segredo de Justiça; de Andradina,
Ernesto Antonio da Silva (PPS), acusado de desvio de recursos
públicos e de crime de peculato; e de Caraguatatuba,
José Pereira de Aguilar (PPS).
Fonte:
Revista Consultor Jurídico, 10 de março de
2008
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