| Retrato
da advocacia
Advogado de escritório paulista é jovem
e pós-graduado
por Lilian Matsuura
Jovem,
branco, pós-graduado, que atua em mais de uma área
do Direito e tem como principal preocupação
manter um bom relacionamento com o cliente. Este é
o retrato do profissional que trabalha nas sociedades de
advogados de São Paulo. Não foi fácil
convencê-los a responder um questionário que
possibilitasse traçar um perfil da advocacia, mas
a professora e pesquisadora da Faculdade de Direito da Fundação
Getúlio Vargas Luciana Gross Cunha conseguiu e, em
entrevista à revista Consultor Jurídico, falou
sobre os resultados da pesquisa.
Luciana
tem certa experiência em pesquisas na área
jurídica: já fez levantamentos com os delegados
de Polícia Civil e os membros do Ministério
Público. A curiosidade e a percepção
de que os escritórios e advogados estavam se profissionalizando
e especializando cada vez mais fizeram com que Luciana fosse
atrás de dados sobre a advocacia. Para confirmar
as suas impressões ou desfazê-las.
Ao
todo, 239 advogados juniores, seniores e sócios concordaram
em responder ao questionário, que perguntava desde
a cor da pele do entrevistado ao salário. Escritórios
de todos os portes foram pesquisados. Luciana conta que
encontrou "enorme resistência" de muitos
advogados e bancas em participar da pesquisa. E também
da Ordem dos Advogados do Brasil, que não forneceu
a lista de escritórios cadastrados. As bancas pesquisadas
fazem parte do banco de dados do Cesa (Centro de Estudos
das Sociedades de Advogados).
A
pesquisa constatou, em relação aos escritórios,
que há um mercado estratificado de acordo com o tamanho
da banca. As grandes sociedades concentram grandes empresas
em sua clientela. As pequenas, clientes individuais. A estratificação
também pode ser percebida na contratação
dos profissionais, de acordo com a pesquisadora. Formados
em faculdades públicas estão mais concentrados
nos grandes escritórios. Mas, como sócios,
a concentração é maior nos pequenos
escritórios.
Entre
os advogados que têm até 30 anos, 67% atuam
como advogados juniores e seniores e 33% são sócios.
Os dados, na interpretação de Luciana, revelam
que há uma rápida mobilidade na carreira.
Para subir, é preciso estudar. Por isso, 68% dos
entrevistados têm pós-graduação.
Entre eles, 72% fizeram especialização e 15%
possuem mestrado.
Luciana
Gross Cunha tem 35 anos e se enquadraria muito bem no perfil
que traçou dos advogados, mas preferiu seguir a linha
acadêmica. Estudou Direito na PUC e Ciências
Sociais na USP, ao mesmo tempo. Logo em seguida fez doutorado
em Ciências Políticas na USP. "Decidi
estudar o Judiciário com o olhar da ciência
política", revela. A tese de doutorado foi transformada
no livro Juizado Especial — Criação,
Instalação, Funcionamento e a Democratização
do Acesso à Justiça, que acaba de ser lançado
pela editora Saraiva.
Na
GVLaw, dá aulas na graduação, pós-graduação
e mestrado. Luciana foi uma das primeiras a ser convidada
para compor a equipe que criou o curso de Direito na fundação.
Antes, trabalhou com a professora da USP e especialista
em pesquisas sobre o Judiciário, Maria Thereza Sadek.
Os
alunos do primeiro semestre têm aulas de Política
e Instituições brasileiras com Luciana. "Uma
das minhas preocupações é estudar a
política brasileira. E não há como
fazer isso sem estudar o Judiciário, que também
é um poder político." Outra disciplina
que ministra chama-se Organização da Justiça
e do processo. Ela explica que nesta aula leva os alunos
a olharem para a administração da Justiça,
como está organizada e qual é a função
do processo dentro desse sistema. Os jornalistas Daniel
Roncaglia e a Rodrigo Haidar também participaram
da entrevista.
Leia
a entrevista
ConJur
— Qual o perfil do advogado das sociedades de São
Paulo?
Luciana
Gross Cunha — É um advogado jovem, com curso
de pós-graduação. Para ele, a formação
é um dos critérios mais importantes para o
sucesso. Os advogados formados na USP ocupam cargos mais
altos em escritórios menores. Alunos de escolas particulares,
como Mackenzie e PUC, ocupam o mesmo posto em sociedades
maiores. Também pudemos verificar que as mulheres
ocupam cargos mais baixos dentro das sociedades. E isso
não acontece por discriminação. É
clara a opção pessoal da mulher. Em posições
mais altas, elas não conseguem conciliar a família
com a vida profissional. São poucas as que ocupam
posto de sócias. As que chegaram lá, normalmente
não têm filhos. Entre os homens, 57% são
solteiros.
ConJur
— Em quais faculdades eles são formados?
Luciana
— A maioria, 30%, formou-se pela PUC. Em segundo lugar
vem a USP com 22%. Em seguida, aparece o Mackenzie com 16%.
E, empatadas, FMU e Unip, com 13%. As escolas tradicionais
ainda ocupam o maior espaço nos escritórios.
O interessante é que, em 2002, participei de uma
pesquisa com delegados de Polícia Civil e o resultado
foi inverso. A maioria é formada pela Unip e FMU.
É importante observar que os advogados vêm
de famílias com alto grau de instrução.
ConJur
— Em outras carreiras jurídicas não
é assim?
Luciana
— Não. Entre juízes é comum a
mãe, por exemplo, não ter feito faculdade.
No caso das sociedades de advogados é diferente:
54% das mães e 73% dos pais dos advogados têm
superior completo. Muitos indicam que o pai fez pós-graduação,
o que é uma novidade dessa geração.
Também é comum terem ao menos um familiar
ligado à área jurídica.
ConJur
— Pode-se dizer, então, que esses advogados
fazem parte da elite econômica.
Luciana
— Em São Paulo, sim. Grande parte da mostra
de advogados entrevistados saiu da lista do Cesa (Centro
de Estudos das Sociedades de Advogados). Cerca de 60% dos
escritórios paulistas estão filiados à
entidade. Os advogados entrevistados, mesmo os de escritórios
menores, fazem parte da elite econômica que tem formação
endógena. Isto é, vieram de família
com boa formação.
ConJur
— Para eles, fazer parte de uma sociedade de advogados
é chegar ao topo da carreira?
Luciana
— Sim, esse é o perfil. Eles gostam do que
fazem. Querem ser sócios de grandes escritórios
ou ter a sua própria grande sociedade.
ConJur
— Eles pensam em adquirir experiência nas grandes
sociedades para depois abrir um escritório especializado
na área que mais gostam?
Luciana
— Hoje, os grandes escritórios são cada
vez menos especializados em uma ou poucas áreas.
Os principais clientes são grandes corporações
e aí as bancas passam a ter a função
de atender em todas as áreas. Na pesquisa, antes
da aplicação de questionários, fizemos
longas entrevistas qualitativas com sócios de escritórios.
Eles observaram que desde o início da década
de 90, com as privatizações, o mercado está
muito competitivo. Se a banca não oferece serviço
em todas as áreas, perde o cliente para outro que
ofereça.
ConJur
— Na época, a quantidade de negócios
aumentou substancialmente.
Luciana
— Sim. Muitos clientes vieram do exterior e não
conheciam a realidade brasileira na área do Direito.
Eles queriam um escritório que atendesse desde o
processo de aquisição até o problema
trabalhista. Isso fez com que os grandes escritórios
deixassem de ser conhecidos pela atuação em
uma área específica. Grandes bancas são
aquelas com mais de 50 advogados.
ConJur
— E os profissionais? Estão mais especializados?
Luciana
— Também não. Quando perguntávamos
aos advogados a área de atuação, pouquíssimos
indicavam uma única área. Hoje em dia é
difícil encontrar advogados muito especializados.
Eles têm de ser flexíveis.
ConJur
— A pesquisa identificou a área de maior interesse
dos entrevistados?
Luciana
— É a área consultiva de negócios.
Essa classificação nós tivemos que
criar. Ela engloba atividades ligadas aos negócios
de grandes corporações e especialidades como
Direito Comercial, Direito Societário, Direito Penal
Econômico. O contencioso também foi citado
pelos entrevistados. Em segundo lugar, áreas tradicionais
como penal, cível, família, trabalhista e
tributário. Elas ainda aparecem como setores promissores.
O Direito Público vem em seguida, muito por conta
do crescimento de parcerias público-privadas, que
demandam conhecimento bem específico.
ConJur
— Qual tipo de especialização os advogados
fazem mais: lato sensu ou stricto sensu?
Luciana
— Lato sensu, porque permite estudar e trabalhar ao
mesmo tempo. Eles fazem pós-graduação
para crescer na carreira. Os escritórios estão
se profissionalizando. Em muitos, a área administrativa
não é mais tocada por um advogado, o que é
uma novidade. Especialistas em administração
de empresas preparam um plano de carreira. Um dos requisitos
para o advogado subir de cargo é ter curso de especialização.
É uma exigência dos escritórios.
ConJur
— O escritório paga o curso para o advogado?
Luciana
— Não. Apesar de cobrar um curso de especialização,
quem paga é o próprio advogado.
ConJur
— E eles ganham bem?
Luciana
— A maior parte dos 239 entrevistados não
respondeu à pergunta sobre os rendimentos. O que
conseguimos constatar foi que, hoje, eles são advogados
contratados. E não mais associados, sem direitos
trabalhistas. Com fiscalização mais intensa
da Receita Federal, os escritórios passaram a contratar.
ConJur
— Qual a porcentagem de advogados contratados?
Luciana
— Os dois terços que não são
sócios são contratados. É difícil
encontrar advogados que não são funcionários
do escritório.
ConJur
— Qual a idade média dos advogados?
Luciana
— 65% deles tem até 30 anos.
ConJur
— As sociedades de advogados estão sendo tomadas
por jovens?
Luciana
— Essa não é uma característica
só das sociedades de advogados. Nos últimos
anos, em todas as carreiras jurídicas houve diminuição
da idade de entrada no mercado de trabalho. No entanto,
com as restrições implementadas com a Reforma
do Judiciário, como a necessidade de tempo de atividade
como advogado para prestar concurso, a advocacia passou
a ser uma opção. E muitas das sociedades de
advogados têm ano limite de aposentadoria. A idade
varia entre 60 e 65 anos, que é cedo para parar de
trabalhar.
ConJur
— Há ainda o fato de ter aumentado o número
de cursos de Direito, o que coloca mais gente no mercado.
Luciana
— Sim. Aumentou o número de cursos, o mercado
cresceu e, obrigatoriamente, houve uma absorção
por essas sociedades. Criaram uma nova categoria. Depois
do estagiário, o advogado júnior.
ConJur
— Como eles vêem a advocacia? Eles têm
uma visão de negócios? Ou mantém aquela
visão romântica da advocacia, de defesa das
liberdades, da justiça?
Luciana
— A visão é de negócio. Quando
perguntamos quais as principais características de
uma boa sociedade de advogados, 90% responderam que tem
de ter boa comunicação com o cliente, conquistá-lo.
Essa é uma resposta nova, que aparece inclusive em
entrevista com sócio. Um sócio disse que o
maior problema de hoje é que o advogado que entra
no mercado não sabe lidar com o cliente. Não
basta só saber a lei e o direito. O mercado é
de alta concorrência. Saber lidar com o cliente pode
ser o diferencial em relação a outras bancas.
Conhecer a lei aparece em segundo lugar. O nome do sócio
aparece como a última resposta para que a sociedade
tenha sucesso.
ConJur
— Quais eram as possibilidades de resposta?
Luciana
Gross Cunha — Comunicação com o cliente,
conhecer a lei, conhecer a realidade brasileira ou o nome
do sócio. O entrevistado podia escolher todas, se
quisesse. O conhecimento sobre a realidade brasileira ficou
em terceiro lugar. Os advogados observaram ainda que a linguagem
usada com o cliente não pode ser técnica.
A necessidade de informações sobre o mercado
e a realidade brasileira aparece aí. É essencial
que o advogado esteja bem informado, que saiba o que está
acontecendo na economia, na área social, na política.
Nos jornais, a cobertura da área jurídica
vem aumentando. As decisões do Supremo Tribunal Federal
todos os dias estão estampadas nos jornais.
ConJur
— O ingresso em uma sociedade é por mérito?
Luciana
— Não pesquisei a forma de ingresso, mas a
promoção na carreira é por mérito.
ConJur
— O filho do sócio não tem mais a primazia
de chegar a determinado posto sem passar por todos os estágios.
Luciana
— Não dá para afirmar isso de forma
categórica. Mas com a profissionalização,
a administração interna funciona independentemente
da família. O mais importante é que esse administrador
é um administrador, não um advogado que cumpre
a função de olhar a carreira. Isso era normal
nas sociedades de advogados.
ConJur
— A pesquisa identificou outras diferenças
entre homens e mulheres, além do cargo?
Luciana
— As mulheres normalmente são menos especializadas
nas áreas de atuação. Elas continuam
nas áreas tradicionais: cível, penal, trabalhista,
família e tributário. O homem aparece mais
nas áreas de telecomunicação, patentes,
energia. As especialidades são marcadamente masculinas.
ConJur
— Por quê?
Luciana
— Talvez pela própria organização
interna da sociedade de advogados. Atuando em uma área
menos especializada, ela consegue conciliar melhor as tarefas
que tem.
ConJur
— O que leva um advogado a se associar a uma banca?
Luciana
— Normalmente não é uma escolha pessoal.
Todos eles pretendem se associar a uma banca ou se tornarem
sócios de escritórios. Mas não é
uma escolha pessoal. É uma trajetória de carreira.
Virar sócio é uma questão de status.
ConJur
— Isso importa bastante?
Luciana
— Importa. É uma questão tão
importante como no mundo empresarial. Podemos tratar as
sociedades de advogados como mais um negócio. Um
grande negócio, com todas as suas características.
Eles têm de saber concorrer no mercado e ganhar.
ConJur
— O trabalho é artesanal?
Luciana
— Não. Eles funcionam como mais um funcionário
da empresa atendendo o cliente.
ConJur
— Nem nas grandes causas?
Luciana
— Nas grandes causas, o sócio tem de se envolver
pessoalmente. Só nesses casos o tratamento é
artesanal. O envolvimento do sócio se dá,
principalmente, para cuidar da relação e atendimento
ao cliente. E o atendimento é um fator tão
importante que muitos escritórios criaram áreas
que não existiam para atender às necessidades
dos clientes. Antes, havia escritórios que só
faziam Direito do Trabalho e, outros, só Direito
Penal. Hoje, essas áreas entraram nos grandes escritórios.
O setor de Direito Penal Econômico vem recebendo atenção
das bancas.
ConJur
— Os escritórios estão organizados como
se fossem pequenos escritórios dentro de um grande
guarda-chuva?
Luciana
— Não. Há interligação
entre as áreas. Por isso, os advogados dizem que
trabalham em mais de uma área. Eles têm de
se comunicar entre si. O cliente exige isso.
ConJur
— Se um escritório não tem a área
trabalhista e precisa dela, se associa a outro ou costuma
terceirizar o serviço?
Luciana
— O que eles têm feito é trazer a área
para dentro do escritório. Há uma expansão
forte neste sentido. Por isso, hoje em dia há um
número maior de sociedades grandes.
ConJur
— O que significa tratar bem o cliente?
Luciana
— Ter um canal aberto com ele. Facilitar a forma de
pagamento também conta. Hoje, os escritórios
oferecem um pacote fechado de remuneração,
o que influencia na concorrência pelo preço.
ConJur
— Há muita concorrência em relação
ao preço?
Luciana
— Alguns sócios tocaram nesta questão
durante a pesquisa. Para ser atrativa, a sociedade de advogados
tem de personalizar a forma de prestação do
serviço. Essa é uma questão importante.
A profissionalização dos escritórios
também é um indicativo de concorrência.
A necessidade de criar carreira e apontar para o advogado
a possibilidade de ascensão dentro do escritório.
O plano de carreira ajuda a não desperdiçar
os talentos. Eles não querem correr o risco de formar
o advogado e depois ele ser contratado por outra banca.
ConJur
— O investimento em material humano é grande?
Luciana
— Na pesquisa, os advogados, principalmente os juniores,
achavam que as sociedades deveriam investir mais na mão-de-obra.
Já que eles mesmos pagam a pós-graduação.
ConJur
— Quantas línguas os advogados falam?
Luciana
Gross Cunha — A maior parte deles fala inglês.
Muitos falaram sobre a possibilidade de estudar em outro
país. A maior parte pensa em ir para os Estados Unidos.
A Itália também aparece, na área de
Direito Civil.
ConJur
— A entrada de alguns escritórios estrangeiros
no país causou receio entre os sócios?
Luciana
— A maior parte não vê isso como um problema.
Pelo contrário, eles acham que vão ganhar,
porque serão consultados por esses escritórios.
E também acham que terão vantagem porque conhecem
como funciona o mercado nacional.
ConJur
— Na pesquisa, houve algum resultado que você
tinha previsto e se confirmou? Ou algum que surpreendeu?
Luciana
— O resultado que se confirmou foi a idéia
de que os escritórios estão se profissionalizando.
A maior surpresa é que as áreas tradicionais
ainda são muito procuradas na especialização
e continuam sendo apontadas como promissoras. A profissionalização
da sociedade de advogados não acabou com o tradicionalismo
da atuação do profissional. Uma idéia
criada e que caiu por terra foi a de que os advogados seriam
altamente especializados. Eles não são.
ConJur
— Há diferença entre escritórios
e grandes empresas?
Luciana
— As diferenças diminuíram bastante.
Hoje, os advogados têm de cumprir metas. Eles não
podem perder o cliente e têm de cumprir um determinado
número de atendimentos por mês. Internamente,
também é um mercado competitivo.
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Revista
Consultor Jurídico, 16 de março de 2008
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