A
semana foi plena de acontecimentos. Em São Paulo,
foi decretada a prisão preventiva do casal Alexandre
Nardoni e Anna Carolina Jatobá, denunciados pela
morte da menina Isabella. Moradores de rua foram assassinados
em Vitória. Índios e arrozeiros continuam
em conflito em Roraima. No Pará, o fazendeiro acusado
de ser o mandante da morte da religiosa Dorothy Stang
foi absolvido. Não é pouca coisa.
No
entanto, um caso merece um olhar mais atento. Refiro-me
à prisão de um investigador da Polícia
paulista, acusado de extorsão e seqüestro
de familiares de integrantes de organização
criminosa. Os fatos chegaram ao conhecimento do Ministério
Público através de denúncia da ex-mulher
do policial. Teriam sido a causa dos atentados de maio
de 2006, com muitas mortes e paralização
do estado. Ao secretário adjunto da Segurança
Pública atribuiu-se favorecimento ao policial,
fato que resultou no seu pedido de afastamento do cargo.
Aqui
não se analisarão as pessoas. E nem se discutirá
sobre a verdade ou não das acusações.
Ao juiz de Direito, no momento próprio, caberá
dizer com quem está a verdade. O foco será
outro. Limita-se à existência de uma acusação
surpreendente: policiais extorquindo presos, através
de seus familiares. É algo que supera qualquer
obra de ficção. É que o simples supor
? seja ou não realidade ? é, por si só,
estarrecedor. Como nos crimes de perigo abstrato, a gravidade
da conduta dispensa a existência do dano. Por isso
a ocorrência é importante. É preciso
parar e pensar: como se chegou a tal estado de coisas?
A quem se deve atribuir a culpa?
É
difícil identificar a responsabilidade. Ela se
fraciona, se dilui, entre instituições e
pessoas. Certamente, muitos colaboraram para que se chegasse
a tal ponto. A começar pelos desiludidos, acomodados,
medrosos, todos os que, por qualquer espécie de
sentimento, optaram por não se envolver com nada.
Também os que se valeram ou se valem do cargo para
receber vantagens, ou seja, os corruptos. Idem, as chefias
acomodadas, que, fingindo não ver, optaram apenas
por cuidar de suas vidas.
Governantes
que deixaram a Polícia Civil, pouco a pouco, deteriorar-se
por falta de uma estrutura moderna e com recursos tecnológicos
adequados, respondem por um quinhão. Também
os que, seja lá qual for o motivo, deixaram os
vencimentos dos policiais situarem-se em padrão
baixo e aquém da responsabilidade e riscos das
funções. Ainda, os que, por ação
(não respeitando) ou por omissão (não
elogiando as boas práticas), contribuíram
para a perda da motivação e da auto-estima
dos policiais. Da mesma forma, os que prestigiaram, às
vezes apenas com sua presença, os policiais envolvidos
no crime e que ostentam padrão de vida incompatível.
Estes e outros tantos, deram a sua parcela de contribuição.
Neste
caldo confuso e indefinido, diluída a responsabilidade
entre tantos, resta saber o que se pode fazer. Há
saída? A solução não é
fácil. Com certeza, ela não se limita à
prisão deste ou daquele acusado. O problema vai
além. Exige uma nova política institucional.
É
tarefa para equipe multidisciplinar, unindo experts em
segurança pública a sociólogos, psicólogos
e outros profissionais. Reestruturação das
carreiras policiais aliada a rigor extremo na apuração
de desvios funcionais. Um plano de longo alcance deve
ser implementado. Com 38% da renda nacional, São
Paulo tem condições de fazê-lo.
É
preciso que as melhores lideranças sentem à
mesa para traçar metas. E que, com o apoio da cúpula
da administração estadual e obstinação
doentia, convertam planos em realidade. O grande desafio
é a efetividade. É fazer ou fazer. Não
há outra opção. Nova York e Bogotá
conseguiram. Antes que seja ? e talvez já seja
? tarde demais.
Fonte:
Revista Consultor Jurídico, 11 de maio de 2008