Inovações
e concorrência
Propriedade intelectual está em evidência
na advocacia
por
Lilian Matsuura
Entre
os escritórios especializados, os de propriedade
intelectual são os mais admirados pelas empresas
no Brasil. No ranking anual da advocacia da revista Análise
Advocacia, os três primeiros escritórios
especializados da lista são desse setor: Dannemann
Siemsem Advogados, Gusmão & Labrunei e Momsen,
Leonardos & Cia. Os três aparecem na quinta
posição dos mais admirados, superados apenas
por escritórios do tipo full-service. Em 2006,
Gusmão e Momsen estavam na nona posição.
Dannemann, na sétima.
A
pesquisa foi feita com diretores dos departamentos jurídicos
das mil maiores empresas no país. Cada um deles
indicou os três escritórios e os três
advogados que mais admiram em 12 áreas de atuação.
O Análise Advocacia — Os mais admirados 2008
que acaba de ser lançado, já está
em sua terceira edição.
Além
de advogados especializados, essas sociedades se caracterizam
por contar com profissionais de diferentes áreas,
como engenharia, medicina, química, biologia e
física. Essa equipe, indispensável para
dar conta dos pedidos de patentes vindos de empresas de
todos os segmentos da economia, é uma entre tantas
outras singularidades do setor.
Apesar
de ser uma área tradicional do Direito —
dois dos escritórios mais pontuados estão
no mercado há mais de 80 anos — a demanda
disparou nos últimos anos. "A propriedade
intelectual ganhou importância na moderna sociedade
da informação, com a percepção
das empresas de que as fábricas não são
os seus maiores ativos. A marca, as patentes e o direito
autoral são os ativos mais relevantes", declarou
à Consultor Jurídico o advogado Rodrigo
Borges Carneiro, sócio do Dannemann Siemsem Advogados.
Depois
do período de monopólio estatal sobre os
principais setores da economia brasileira, no início
da década de 90, a área de propriedade intelectual
teve um forte crescimento. Num ambiente de concorrência
acirrada, as empresas encontraram nesse setor da advocacia
uma ferramenta estratégica para ganhar espaço
no mercado e para proteção de suas criações,
inovações, investimentos em pesquisa e desenvolvimento
e segredos industriais.
O
boom do setor começou no ano de 1996 e terminou
em 2001, na análise do advogado Gabriel Leonardos,
sócio do Momsen, Leonardos & Cia. Em 96 o presidente
Fernando Henrique Cardoso sancionou a nova lei de patentes
(Lei 9.279), o que deu impulso ao segmento e chamou atenção
das empresas para o assunto. Até 2001, o crescimento
foi exponencial.
Leonardos
diz que nesse período o escritório dobrou
de tamanho: tinha 120 profissionais e passou a contar
com 240. De lá pra cá, o crescimento foi
menor, mas não deixa de ser expressivo. Sessenta
novos profissionais foram contratados desde então.
"O grande boom passou e estamos esperando o próximo.
Estávamos otimistas com 2008 e 2009, mas a crise
financeira tornou tudo muito incerto", diz Leonardos.
Segundo ele, uma leve diminuição na demanda
já pode ser sentida.
A
área de propriedade intelectual é fortemente
ligada à economia. Baixo consumo significa menos
investimentos em pesquisas, inovações, marketing
e novos produtos.
Setores
de litígio
O
contencioso ainda é o setor mais demandado nos
escritórios especializados em propriedade intelectual.
Os processos na área administrativa ocupam grande
parte do tempo dos advogados do Momsen, Leonardos &
Cia. A banca cuida de 90 mil processos no INPI (Instituto
Nacional de Propriedade Intelectual): 60 mil marcas e
30 mil patentes. No mesmo escritório, a demanda
de consultoria é flutuante. Mas, segundo o sócio
entrevistado, é preciso manter uma equipe com experiência,
mestrado e doutorado, para as horas em que houver procura.
O
número de ações por concorrência
desleal é alto. "Acabou a fase de acordo de
cavalheiros", diz o advogado José Roberto
D'Affonseca Gusmão, sócio do Gusmão
& Labrunie. Ele conta que concorrentes que conviviam
muito bem hoje mantém vários litígios
no Judiciário. Danone e Nestlé, por exemplo,
brigam em seis processos por direitos de propriedade intelectual.
A
rivalidade entre as empresas no setor de bens de consumo
— alimentos e cosméticos, principalmente
— é grande. Mas perde para a área
farmacêutica. "Este setor tem dado muito trabalho.
São muitas patentes", diz Gusmão. Segundo
ele, o governo forçou uma concorrência maior
ao liberar a entrada de genéricos e similares no
mercado.
Rodrigo
Carneiro, do Dannemann, diz que a concorrência desleal
avança com o desenvolvimento tecnológico.
A tentativa de usurpar domínios na internet é
cada vez maior. O advogado conta que os casos em que concorrentes
criam sites com grafia semelhante são inúmeros.
A cópia de embalagens na indústria alimentícias
e do aspecto visual de lojas também gera muitos
processos. "Todos os setores são afetados.
A concorrência desleal não tem limites."
Segundo
ele, a tendência no Dannemann é contratar
profissionais para reforçar o contencioso. "O
setor está crescendo bastante. O Judiciário
faz valer a proteção às empresas",
diz.
A
fase atual é de mudança de cultura entre
as empresas pequenas e médias. As grandes já
sabem da importância estratégica da defesa
da propriedade intelectual nos seus negócios. Agora,
as menores começam a enxergar a proteção
como um instrumento para concorrer no mercado.
Uma
área que nasceu há pouco tempo e que tem
demandado os escritórios é a chamada cultivares,
denominação que se dá às variedades
vegetais de qualquer espécie superior desenvolvidas
para uso agroflorestal.
Fonte:
Revista Consultor Jurídico, 31 de outubro de 2008