“Crianças
em abrigo são um horror”
Em
entrevista ao Jornal da Asfunrio, o secretário
Fernando William fez um breve balanço das ações
da SMAS em 2009, citou os desafios para 2010, fez críticas
aos abrigos da Proteção Especial, anunciou
propostas, falou do Orçamento para o ano que vem
e também fez uma rápida retrospectiva dos
30 anos da SMAS. Além disso, ele foi enfático,
ao afirmar que se esforçará para desinstitucionalizar
as crianças.
“Crianças em abrigo são um horror.
Minha meta é, até o final de fevereiro,
no máximo, ter um número mínimo de
crianças nas ruas. Pretendemos ficar apenas com
um abrigo para referência. No mais, quero as crianças
em suas famílias. O objetivo é criar meios
para forçar aos pais criarem os seus filhos. Criança
criada em instituição pensa diferente. Além
do mais, quando completa 18 anos, perde o espaço,
o que significa que ela tem que se virar. Família
é fundamental”.
JORNAL
ASFUNRIO - A SMAS atingiu 30 anos. Embora o senhor esteja
somente há um ano à frente da secretaria,
qual é a sua análise do papel da SMAS?
FERNANDO WILLIAM –
Acho que esses 30 anos, de certa forma, coincidiram com
um período que o país avançou na
conquista democrática, na consolidação
de instituições políticas, republicanas
e democráticas. Assim também aconteceu com
a assistência social. Se a gente observar o que
era a assistência social há 10 anos... Aliás,
a própria legislação que a criou
era uma coisa muito vaga, muito superficial. Na verdade,
a secretaria era voltada para atender a necessidade dos
pobres, sem dizer exatamente o que isso significava. Foi
um trabalho louvável dos assistentes sociais, dos
usuários e de segmentos organizados da sociedade.
Na Constituição de 88, no artigo 223, ficou
configurado que a assistência social deveria ser
um direito do cidadão e um dever do Estado. Então,
pela primeira vez na história, a assistência
social deixa de ser benemerência, um favor, prestação
de serviços vagos e passa a ser uma garantia, um
direito do indivíduo e uma obrigação
do Poder Público. E, a partir daí, ela começa
a se organizar institucionalmente. Então, surge
o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em
1990, que define as formas como o Estado precisa agir
para dar proteção aos direitos das crianças
e adolescentes.
Claro que, se nós lermos o ECA em comparação
à realidade das nossas crianças, percebemos
que precisamos avançar muito. Mas, do ponto de
vista social e legal, foi um enorme avanço. Tanto
que o nosso Estatuto serviu de modelo para vários
países do mundo. Em 1993, surge a Lei Orgânica
da Assistência, que também foi um passo fundamental
para definir o que é a assistência e como
ela se caracteriza. Na Lei Orgânica de Assistência,
foi criado o benefício de prestação
continuada, que é o salário mínimo
que deve ser pago a todo portador de deficiência
ou idoso acima de 65 anos com renda per capita familiar
abaixo de um quarto do salário mínimo. Todo
esse arcabouço político não existia
e hoje existe. O que falta é uma maior valorização
da assistência social.
Durante
o evento dos 30 anos da SMAS, o senhor anunciou que haverá
revisão da Proteção Especial, por
quê?
Na verdade, observamos que a Proteção Especial
não havia uma política clara para o seu
funcionamento. Observamos que os abrigos estavam precários,
insuficientes e que as unidades de triagens, além
de serem poucas, não têm acessibilidade.
Por exemplo, o Stella Maris é uma casa de horror.
O Stella Maris vaza goteira no local, onde as assistentes
sociais trabalham. Estamos propondo uma reforma importante.
Primeiro, reorganizar as unidades de triagem. Acabar com
a característica de triagem que existe hoje; a
ideia é que o cidadão acolhido fique apenas
um tempo na unidade, até que se possa identificar
qual é o verdadeiro problema dele. Um dos motivos
que enfrentamos de imediato é encontrar lugares
para criar novos abrigos. É difícil porque
as pessoas ao redor resistem, há manifestações.
Então, até para encontrar os locais para
construir centro de triagem leva um certo tempo.
Em
relação ao Orçamento. Em pouco tempo,
a secretaria conseguiu desenvolver várias ações.
Como foi a organização desse Orçamento?
Nosso próximo Orçamento foi um pouco menor
do que tivemos no ano passado. Este ano fizemos uma enorme
ginástica, através de convênios, recursos
do governo federal, buscando várias parcerias e
outros. Trabalhamos com muita racionalidade para utilizar
o Orçamento dedicado a nós. O Orçamento
de 2010 foi mantido no mesmo valor de 2009. Na verdade,
estamos fazendo um acordo de gestão, que acho muito
importante. Nesse acordo, temos algumas metas a atingir.
Se atingirmos, nosso Orçamento é gradativamente
aumentado, de acordo com aquilo que realizarmos. Eu quero
isso pra mim. Quero atingir as metas, quero ir além...
E mostrar ao prefeito que a gente pode avançar
nas nossas metas.
Entre
tantas ações, funções e projetos
da SMAS, qual é a que o senhor considera a mais
importante?
Tem uma coisa que me toca muito que é criança.
Diariamente, passo pela cracolândia do Jacarezinho.
As crianças daquela comunidade, como as de tantas
outras, são violentadas pela vida, pela família,
perderam completamente a sua referência. Se perguntar
a um menino dali o que ele pretende ser no futuro, muito
provavelmente ele vai dizer que quer morrer. Elas não
têm sonho, não têm perspectiva de vida.
Isso é uma coisa terrível. Tenho feito um
esforço enorme para desinstitucionalizar crianças.
Crianças em abrigo são um horror. Minha
meta é, até final de fevereiro, no máximo,
ter um número mínimo de crianças
nas ruas. Pretendemos ficar apenas com um abrigo para
referência. No mais, quero as crianças em
suas famílias. O objetivo é criar meios
para forçar aos pais criarem os seus filhos. Criança
criada em instituição pensa diferente. Além
do mais, quando completa 18 anos, perde o espaço,
o que significa que ela tem que se virar. Família
é fundamental.
O
senhor iniciou a gestão, dizendo que um dos seus
sonhos é erradicar a existência de moradores
de rua, sobretudo as crianças. Nessa caminhada,
qual é o seu sentimento? O senhor percebe que é
muito mais difícil do que se pensava?
Disse que era um sonho. Mas eles nem sempre são
realizáveis. É fundamental sonhar. Digo
que, neste ano, conseguimos reintegrar 221 crianças
às famílias. Claro que há crianças
que voltaram para as ruas. Mas esse número, pra
mim, é significativo. Para 2010, nossa meta é
reintegrar 390 crianças. Vou trabalhar muito para
isso. Tenho a absoluta convicção de que
não vamos terminar o mandato sem nenhuma criança
nas ruas, mas vamos avançar muito nesse sentido.
Durante
a solenidade comemorativa do 30º aniversário
da secretaria, o senhor foi muito elogiado...
Por uma questão de princípio de vida, sou
uma pessoa estudiosa e, modéstia à parte
culta... Gosto de cuidar das pessoas, gosto de conversar,
ajudar. Todos que trabalham comigo são tratados
com carinho e respeito. Quando há necessário
de ser duro, vou ser duro. Mesmo na dureza, faço
com respeito. Acho que isso facilita que sejamos pessoas
queridas.
Esse
retorno dá mais coragem e força para continuar?
Sem dúvida. A energia, que a gente transfere para
as pessoas, retorna. Imagina trabalhar num lugar que as
pessoas não se gostam. É um ambiente inviável.
Quando vejo um funcionário tratar mal outro, digo
logo que não quero isso.
Quais
são os desafios para 2010?
O ano de 2009 foi um ano de muitas experiências,
muitos esforços e ajustes. Em 2010, vamos ter um
foco grande na Proteção Especial –
reformar os abrigos e melhorar a qualidade dos mesmos.
Acabar com o Centro de Triagem da Praça da Bandeira
e levá-lo para um local mais adequado. Vamos fazer
um amplo trabalho na área da Proteção
Especial. Vamos dar continuidade ao tratamento para os
usuários do crack. Quero que o Rio de Janeiro se
mantenha como referência nacional no enfrentamento
da questão do crack. E vamos também ampliar
muito a Proteção Básica. Os assistentes
sociais vão sair da lógica do atendimento
nas unidades e vão ampliar as visitas familiares.
Quero trabalhar sempre com metas. Se a gente trabalha
com uma população, temos que descobrir com
os moradores daquela comunidade os seus verdadeiros problemas.
Uma vez feitas as descobertas, vamos buscar união
para atingir as metas, sobretudo com os moradores. A ideia
é transformar a população em protagonista
para a solução de seus próprios problemas.
Hoje
a SMAS inaugura a Embaixada da Liberdade, quais mecanismo
de ação?
A Embaixada é uma unidade voltada para meninos
e meninas que têm uma imensa resistência ao
tratamento para superar o vício do crack. Então,
eles se encontram num envolvimento tão grande,
que se recusam a buscar atendimento. Essa Embaixada será
dentro de Manguinhos. O foco é fazer com eles participem
de um tratamento sem que se sintam aprisionados. É
um espaço intermediário, cujo objetivo não
é deixar entrar e sair a qualquer hora. Vamos convencer
esses meninos de que precisam se tratar. Inclusive vamos
ter um espelho, para motivá-los a se observarem
antes e depois do tratamento. Isso é uma terapia
importante, para perceber que não deve continuar
usando a droga.
Qual mensagem o senhor deixa aos funcionários?
Esses 30 anos foram de conquistas. Os funcionários
da SMAS são elementos transformadores da sociedade.
Espero que eles se vejam dessa forma. Esse é um
momento da gente refletir e ver que estamos num momento
de inúmeras oportunidades. O Brasil hoje é
considerado o país da moda. Se a gente quiser transformar
o país da moda num país do futuro, precisamos
ter muita responsabilidade, aumentar muito o grau da escolaridade
e cidadania. A degradação da natureza é
uma realidade. Então, temos que incluir na nossa
agenda a colaboração para preservar a vida
do planeta.