A
sociedade também pode fazer a sua parte
O
crack invadiu a vida de crianças e adolescentes,
invadiu a cidade e aproximou jovens da prostituição.
O que pode ser feito para ajudar a combater essa triste
realidade?
A
evidência cada vez maior de crianças e adolescentes
envolvidos com o crack e com a prostituição
causa pavor a todos. Por todos os lados, é possível
ver crianças abandonadas, sem ter a menor dignidade
de vida. Sem o que comer, usam drogas baratas como o crack
que é vendido a R$ 1 e cometem pequenos crimes. Diariamente,
pedem dinheiro – desesperadamente – na tentativa
de continuar alimentando o vício do crack, possivelmente
para esconder a triste realidade de suas vidas. Quando não
conseguem, roubam.
Uma dessas crianças já chegou a matar durante
um assalto frustrado, quando uma adolescente resistiu entregar
a mochila. O caso foi muito bem noticiado. O que deixa claro
que a condição de vida desses jovens influencia
o cotidiano de muitos que tem onde morar, o que comer, como
se vestir, que trabalham e pagam impostos, e que talvez
jamais vieram a se preocupar com a vida ultrajante que esses
adolescentes levam nas ruas, jogados à própria
sorte.
Aliás, que sorte? Não há. Para eles,
infelizmente, o que há é o descaso. Muitos
preferem tampar os olhos, trocar de calçada ou de
caminho, para não sentir a dor dessas crianças.
A consciência da sociedade precisa mudar. Não
há mais tempo para achar que o problema é
só do poder público. O problema é de
todos, porque todos – de uma maneira ou de outra –
sofrem. Como dizia o pacifista indiano Mahatma Gandhi “Não
existe caminho para a paz. A paz é o caminho”.
Todos precisam trilhar juntos esse mesmo caminho, abrindo
e rompendo fronteiras na falsa e medíocre cegueira
humana.
Mas como a sociedade pode se envolver para impedir o crescimento
dessa situação? Cruzando os braços,
criticando, ou somente apontando o que pode ou não
ser feito? Tais práticas já vêm sendo
feitas há décadas e nunca alcançaram
o menor êxito. É preciso envolver um número
maior de pessoas, de órgãos públicos,
de setores privados, nessa luta. A sociedade pode e deve
fazer a sua parte. Em primeiro lugar, respeitando a condição
de vida dessas crianças e adolescentes. Depois, envolvendo-se
em movimentos sociais, apoiando instituições
sérias que cuidam desses jovens, doando. E doando
principalmente atenção, carinho. Leia abaixo
a entrevista do secretário municipal de Assistência
Social, Fernando William, e conheça algumas das sugestões
feitas por ele para ajudar a combater o crescimento do crack
e da prostituição infanto-juvenil na cidade.
JORNAL
ASFUNRIO - Qual a avaliação que o
senhor faz desses primeiros meses de governo?
FERNANDO
WILLIAM – Essa é uma nova gestão
depois de muitos anos. Houve algumas mudanças. Claro,
leva-se algum tempo até que as coisas ocorram dentro
da nova visão política, de uma nova visão
epistemológica. Nesses primeiros meses de governo,
nós conseguimos ampliar o número de equipe
de abordagens nas ruas (de uma para 14 equipes), ampliamos
o número de vagas nos hotéis populares (de
200 para 400 vagas), iniciamos obras para instalação
de dois novos abrigos para adolescentes com 20 vagas (Estácio)
e outro para adultos e famílias com 100 vagas (Jacarepaguá).
Nesse período, também, assinamos um termo
de compromisso com a secretaria de Habitação
para que nos auxiliasse no atendimento à família
abrigada que já tem condição de viverem
autonomia fora da instituição, criamos um
sistema de transparência na aplicação
absoluta no sistema de arrecadação e aplicação
no Fundo Municipal da Infância e Adolescência.
E iniciamos um trabalho – que talvez seja o que mais
tem nos encontrado – que é o enfrentamento
dessa epidemia do uso do craque associado à exploração
e violência sexual infantil na cidade.
Fruto da parceria que se estabeleceu entre o município,
o Estado e a União, assinamos um convênio de
co-financiamento da rede de proteção básica
e especial, para que o Estado repasse os recursos previstos
na legislação ao município. Isso é
inédito.
Como
o senhor avalia a existência das cracolândias
na cidade?
Na
verdade, havia uma lógica que é compreensível,
mas nem tão admissível, que era a de se investir
muito na proteção básica – uma
grande ação preventiva para evitar que as
famílias tivessem um rompimento de seus laços
familiares. Trabalhou-se muito pouco na proteção
especial, quando as famílias já iniciam processo
de ruptura de vínculos familiares, que e é
o caso da rede de abrigamento, dos lares, das casas de passagem,
da situação de abandono nas ruas. O que a
gente observa que a rede de proteção especial
foi muito largada em governos anteriores. Quase não
teve investimentos. Nesse momento, sem deixar a rede de
proteção básica, devemos chegar a 60
CRAs (Conselho Regional de Administração)
até o final do ano (aumentar em 50%). E ainda recuperar
os abrigos e aumentar o número de vagas, para atender
de forma adequada os meninos envolvidos com drogas e recuperá-los,
para reintegra-los à família. Nossa preocupação
será com essa rede de proteção especial.
O
que o senhor acha que levou esses jovens a consumirem tanto
crack?
O
crack é uma droga barata, que vicia muito rápido
e dá uma grande sensação de êxtase.
Mas ela tem duração curta, o que faz que o
viciado se desespere para consumi-la repetidamente. Os meninos
de rua apelam de todas as formas, para conseguir R$ 1 e
comprar a pedra do crack. Nos relatórios de atendimento
nos abrigos, notamos que eles não comem, passam quatro,
cinco dias sem se alimentar. E aí morrem. Adquirem
doenças sexualmente transmissíveis, tuberculoses.
Pretendemos aumentar a capacitação de nossos
profissionais para lidar com jovens viciados em crack. Queremos
conquistar recursos para que encontrem a cura para essa
dependência devastadora. O custo de tratamento internado
de um menino hoje é da ordem de R$ 1.500 por mês.
Acredita-se que mais de mil crianças estejam envolvidas
com o crack. Eu quero mostrar que é possível
reduzir e muito essa situação no Rio de Janeiro.
Eu quero provar isso. Por exemplo, uma menina que estava
grávida e disse que ia usar crack até morrer,
hoje está num abrigo e muito preocupada com a criança
que vai nascer. Não está mais focada na morte.
Os meninos do crack, infelizmente, dormem na lixeira. Quando
encontramos eles dormindo na lixeira, temos a sensação
de que estão mortos. Mas não. Quando eles
apagam, depois de alguns dias sem dormir, eles caem e dormem
em qualquer lugar.
Além
das ações da secretaria, o que mais precisa
ser feito para dignificar a vida dessas crianças?
O
prefeito, sensibilizado com essa questão, convocou
uma reunião com vários órgãos
dos três poderes. Apresentamos também a ele
várias medidas (veja Box) para o plano de ação
ao combate ao uso do crack e da prostituição
infantil. Essas articulações todas estão
sendo feitas, buscadas para mudar esse quadro alarmante.
O
Estatuto da Criança e do Adolescente... se fosse
implementado de fato, na íntegra, essa situação
poderia mudar?
A
ação no governo tem se dado no Brasil e no
mundo inteiro muito em função das demandas
que são consideradas prioritárias pela sociedade.
Aí aparecem saúde, educação,
segurança pública no primeiro patamar de prioridades.
Na verdade, temos ainda políticas muito setorizadas.
O prefeito Eduardo Paes tem a consciência muito clara,
e temos trabalhado na perspectiva de resolver. Temos um
programa – Escola da Manhã - que prevê
escola integral em 150 escolas, exatamente em áreas
mais vulneráveis. Acho que é um caminho maior
para implantar o Estatuto da Criança e do Adolescente.
O estatuto diz proteger a criança integralmente e
isso depende de um conjunto de fatores, que, às vezes,
vai se postergando em função da implementação
de outras políticas para atender as demandas da sociedade.
O
senhor é a favor da redução da maioridade
penal?
Sou
contra. Hoje até aconteceu um fato interessante nesse
sentido. É muito comum, o menino maior pegar a identidade
do irmão menor, para sair e praticar crime. Se baixar
a idade penal, daqui a pouco vai estar chegando a que idade?
No fundo, estamos há anos luz de pôr em prática
o Estatuto (da Criança e do Adolescente) que protege
efetivamente a criança e, no entanto, já está
se pensando o outro lado do Estatuto, que pune a criança.
Aí vai mudar o Estatuto num lado desfavorável.
Eu fiz várias cortes no orçamento da secretaria,
para termos recursos e garantir a implementação
de programas que possam garantir uma vida mais digna a esses
jovens.
Como
a sociedade pode ajudar?
Existe
o Fundo da Infância e do Adolescente (FIA). Por exemplo,
todo cidadão que desconta imposto de renda, pode
tirar 6% do que ele paga e depositar no FIA. Temos à
disposição no site da secretaria, no link
do Conselho da Criança e do Adolescente, uma absoluta
transparência de como é que o dinheiro entra,
de quanto existe de recurso e como vai ser gasto. Nota a
nota fiscal, para que as pessoas tenham garantia de que
o dinheiro aplicado está sendo gasto com a maior
transparência. As empresas também podem fazer
essa aplicação. Pessoa jurídica desconta
1% do imposto de renda, e pode repassar esse recurso para
o FIA.
Os
servidores também podem ajudar?
Imagina
se todos os servidores que descontam imposto de renda pudessem
aplicar nesse fundo. Certamente, teríamos recursos
suficientes para reformar abrigos, para ter mais gente fazendo
abordagens nas ruas. Estou com uma ideia. Por exemplo, o
juiz encaminha adultos que estão em semiliberdade,
ou em liberdade assistida, e que são obrigados a
cumprir um dia de trabalho gratuitamente para a sociedade.
Então, estamos elaborando uma proposta de que esses
adultos cumpram essa medida na secretaria como agentes educadores.
Isso pode ajuda-los a perceber aonde pode chegar um ser
humano.
As
pessoas podem visitar os abrigos?
Sim,
claro. Vamos tentar estimular o seguinte. Que uma pessoa
vá ao abrigo para observar o menino que queira ajudar.
Aí começa um processo de namoro como acontece
com as famílias que querem adotar. Um negócio
que funciona muito – e eu tenho feito isso –
que é cuidar desses meninos como se fossem uma espécie
de filhos a distancia. Vou lá e se estiver precisando
de alguma coisa, ajudo. Aliás, o mais importante,
é doar carinho. E eles se apegam demais a gente.
A carência afetiva deles é enorme. Todos os
sábados eu vou aos abrigos e fico das 10h às
15h. Se eu for numa ala e não for na outra, crio
um problema enorme. O educador até pede para que
eu visite todos. Eles se preparam para receber as visitas,
ficam felizes. E isso é muito interessante.
Qual
pedido o senhor faria a sociedade nesse momento?
Aplicar
no fundo é fundamental. Sugiro que as pessoas visitem
esses abrigos para ver o que podem ajudar. Os abrigos podem
receber doação de todos os tipos. Há
abrigos que precisam de móveis como o sofá,
por exemplo. Brinquedos, roupas em bom estado de conservação.
Roupas também para bebês, pois há meninas
grávidas. Doações são sempre
bem-vindas.
BOX
Veja algumas das ações para combater o crescimento
do uso
do crack e da prostituição infantil na cidade
do Rio de Janeiro:
-
Mapeamento das áreas de concentração
de crianças e adolescentes em situação
de violência sexual e em uso de crack;
- Identificação das unidades de saúde
de referência que irão dialogar com os equipamentos
de Assistência Social e demais serviços de
atendimento;
- Levantamento dos recursos disponíveis e necessários
para a operacionalização das ações;
- Identificação de parcerias públicas
e privadas;
- Promoção de campanhas educativas;
- Sensibilização e capacitação
dos profissionais;
- Fortalecimento da articulação entre os abrigos
e os Centros de Atendimento Psicossocial – CAPS AD
(álcool e droga);
- Previsão orçamentária para a implantação
de serviços e treinamentos das novas equipes e entre
outras. |