Redução
da maioridade penal, solução ou problema?
Em recente matéria publicada em jornal de grande
circulação no país, Fernando Capez,
diretor acadêmico do curso de Direito da UNIBAN, desenterrou
um assunto polêmico no país há tempos:
redução da maioridade penal. Será essa
uma solução para tentar coibir que jovens
se envolvam em crimes bárbaros, ou será mesmo
que o lugar para resolver o problema está em trancá-los
em cadeias? O assunto divide opiniões de vários
especialistas.
Capez é favorável a redução,
e trata o assunto como uma questão indiscutível.
E ainda diz que o Brasil está “atrasadíssimo”
em relação aos países europeus. “Estamos
atrasadíssimos em relação aos países
europeus. Imaginar que um jovem de 16 anos não sabe
que é errado sequestrar, matar, estuprar, é
viver num mundo de fantasia. O Estado está dando
uma carta branca para ele fazer tudo isso”, acredita.
O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, em entrevista ao Jornal
Asfunrio, enfatizou que a Ordem dos Advogados rejeita a
redução, por acreditar que não ajudaria
a diminuir a criminalidade. “... não acresceria
nada para a melhora de nossa cidade. É sabido que
a imensa maioria carcerária é formada de pobres
e pretos, de gente que foi marginalizada desde o nascimento...”,
explica. Damous também dá sua opinião
a respeito das cracolâncias e da prostituição
de menores. E diz que a sociedade também pode ajudar
a melhorar a condição de vidas de crianças
e adolescentes abandonadas à própria sorte.
JORNAL
ASFUNRIO – Como o senhor avalia a existência
das cracolândias e da prostituição de
crianças e adolescentes no Rio?
WADIH
DAMOUS – São produtos abomináveis,
profundamente tristes, da ausência do poder público
ao longo de sucessivos governos. É resultado da falta
de investimentos em educação, saúde
e de políticas sociais de inclusão. Essas
crianças, viciadas e prostituídas, precisam
ser resgatadas para a sociedade para que mais gerações
não se percam na marginalidade e no abandono.
O senhor aprova a decisão da Prefeitura,
através da operação de choque de ordem,
para tentar impedir o avanço dessa situação?
Wadih
Damous – Todos nós que moramos no
Rio, ricos ou pobres, queremos andar pelas ruas com tranquilidade,
queremos a ordem pública respeitada. Queremos não
ter medo de meninos e meninas de 10 anos de idade que se
drogam diante de nossos olhos envergonhados. A questão
é: choque de ordem não pode significar criminalização
da pobreza, como tem sido usual.
A simples retirada das pessoas viciadas ou de prostitutas
dos locais onde costumam atuar não significa que
o problema acabou. Significa que se mudarão para
outros locais, ou que morrerão em alguma sarjeta.
Então, o choque de ordem é bem-vindo desde
que acompanhado de medidas sociais. É preciso que
haja tratamento médico, centros de recuperação
e políticas de re-inserção para essas
pessoas.
O Estado tem sua parcela de omissão quanto
ao crescimento de meninos e meninas se envolvendo com drogas
e prostituição?
Wadih
Damous – Claro, à medida em que deixou
de investir em políticas sociais, à medida
que não foi capaz de oferecer alternativas e oportunidades
de trabalho e de educação a tantas famílias
que se desintegraram.
Para o senhor, os recursos públicos voltados à
infância e à juventude deveriam ser investidos
em educação, para desta forma reduzir a violência
na vida desses jovens?
Wadih
Damous – Evidentemente que sim; já
se perdeu tempo demais, gerações inteiras
que tiveram seus direitos de cidadania mais básicos
negados.
A
seu ver, o que precisa ser feito hoje para que essas crianças
tenham uma vida mais digna, longe da miséria, da
prostituição e das drogas?
Wadih
Damous – Essas crianças precisam da
proteção do Estado, de políticas e
programas consistentes e eficazes para o seu resgate à
sociedade.
A sociedade pode fazer algo para ajudar na mudança
de vida desses jovens?
Wadih
Damous – Pode e deve. Em vez de apenas desviar
o olhar do que a choca, pode articular-se com movimentos,
entidades e o próprio poder público para promover
a recuperação e a inclusão dessas crianças.
Pode também cobrar dos parlamentares que elege ações
em benefício delas. Enfim, pode exercer a cidadania
no sentido mais amplo, do entendimento de que todos os cidadãos
têm direitos, e não pode haver uma parcela
tratada como se fosse uma categoria inferior.
O
senhor acredita que, se o Estatuto da Criança e Adolescente
(ECA) for implementado e respeitado – de fato –
poderá erradicar o quadro de violência, drogas
e prostituição na vida das crianças
e adolescentes?
Wadih
Damous – O Estatuto trouxe avanços
importantes, mas nenhuma lei, por si, é capaz de
garantir a erradicação total de um quadro
tão grave como o que vivemos hoje. É preciso,
repetimos, uma conjugação de esforços,
urgente.
O senhor é a favor da redução da maioridade
penal?
Wadih Damous – A Ordem dos Advogados
do Brasil rejeita a redução da maioridade
penal. Na nossa opinião, isso não ajudaria
em nada a diminuir a criminalidade, não acresceria
nada para a melhora de nossa sociedade. É sabido
que a imensa maioria carcerária é formada
de pobres e pretos, de gente que foi marginalizada desde
o nascimento.
O senhor já tem alguma resposta do Ministério
Público e da Polícia a respeito da exploração
sexual de crianças e adolescentes por traficantes
de drogas, denunciada em uma série de reportagens
publicadas em jornal de grande repercussão, em abril
deste ano?
Wadih Damous – Cobramos, e vamos
continuar a cobrar, providências das autoridades de
segurança pública, embora não tenhamos,
até hoje, obtido respostas. É nosso papel
e vocação sermos porta-vozes e agentes dos
direitos da cidadania. Nos numerosos processos acompanhados
pela nossa Comissão de Direitos Humanos, os advogados
designados para defender os direitos das vítimas
encontram nenhuma cooperação e total silêncio
dos órgãos estaduais de segurança quanto
às denúncias que nos chegam. |