O
MURO E OS SIGNIFICADOS DA SEGREGAÇÃO
A
construção de um muro de três metros
de altura para impedir o crescimento de favelas basicamente
na zona sul do Rio de Janeiro não apenas causou polêmica
e despertou a atenção internacional. O muro,
pela poderosa metáfora embutida no seu significado
político, provocou as mais diversas discussões
a respeito das políticas para habitações
populares.
Se
formos ver a questão pelo lado histórico -
e exatamente assim que estamos querendo proceder apreciar
neste texto - podemos garantir que as elites cariocas sempre
se fascinaram por uma “cultura de segregação”
no espaço urbano da cidade. E essa “cultura
de segregação” teve e tem muitos ritmos
ideológicos , mas sempre com o sentido de separação.
Talvez
tudo tenha começado no início do século
XX com o famoso prefeito Pereira Passos, que ex-prefeito
César Maia se inspirou em seus governos. Naquela
época, para modernizar a cidade, em nome da higiene
e do progresso, Pereira Passos desalojou mais de três
mil moradores pobres do Centro do Rio, que foram levados
para a Baixada Fluminense.
Nesta
época, difundia-se a ideologia do chamado “Rio
civiliza-se”, onde as elites queriam fazer desaparecer
da vida urbana os aspectos mais clássicos da “cidade
negra” ou “ cidade africana”, que tanta
marcaram a paisagem da cidade, principalmente se a gente
consultar as aquarelas de Debret mostrando a presença
escrava nas ruas do Rio século XIX.
A
ação de Pereira Passos teve seguidores de
peso. Nos anos 1960, surgiu o episódio segundo o
qual o então governador Carlos Lacerda teria autorizado
o recolhimento de mendigos das ruas e os atirado no Rio
Guandu, fato nada comprovado, mas que ficou como um signo
ocre das políticas urbanas segregacionistas.
Na
mesma época, os moradores da favela do Vidigal resistiram
bravamente quando o governo estadual tentou removê-los
do local, que tem uma das vistas mais encantadoras para
o mar, em São Conrado. Naquele momento, algumas favelas
da zona sul e Centro já tinha se removidas e seus
moradores largados na zona oeste, principalmente na Vila
Kennedy.
Mais
á frente, nos anos 1980/1990, a cultura de segregação
acrescenta um novo alvo: os meninos de rua. Assim, nesta
época, proliferam os chamados grupos de extermínio
no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense, que a soldo dos
comerciantes, queriam limpar das ruas os meninos sob o argumento
de os mesmos estarem ameaçando a ordem pública
com furtos, roubos e assaltos. O simbólico deste
segregacionismo foram três chacinas que se tornaram
emblemáticas a partir dali: Acari ( 11 mortos, 1990),
Vigário Geral(21 mortos, 1993) e Candelária
(8mortos, 1993).
É
bom notar que nos próprios anos 1990, a classe média
e a burguesia da Barra da Tijuca começam um movimento
que não esconde a presença da cultura de segregação:
queriam transformar o bairro num município, independente
do Rio, devido ao clima de violência e insegurança
que toma conta da cidade. Assim, seria colocado um portal
de triagem, na entrada do bairro, para peneirar os “desejáveis”
e “indesejáveis”.
Este
movimento separatista não estava sozinho. Isto porque
, nesta época mesmo, os cidadãos mais abastados
começam a desafiar à autoridade pública
e realizam eles mesmos as políticas segregacionistas,
pois, muitas ruas da zona se tornam “ fechadas”,
isto é, recebem grades e porteiro. Assim, por ela,
só podiam transitar os moradores do próprio
local, o que era ilegal, pois, a rua é um bem público.
Em
1992, antes receber as maiores autoridades mundiais do planeta
para a Conferência Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento,
a Rio-92, o Centro e adjacências por onde iriam passar
os visitantes, foram “varridos”, isto é,
retirou-se mendigos, pedintes, ambulantes, desempregados
e todos aqueles julgados “perigosos”.das ruas.
Durante
as “Operações Rio I e II”, sob
o comando das Forças Armadas, em 1994, nos lembramos
das imagens espetaculares dos tanques do Exército
apontando suas armas para as favelas como se aquele local
fosse “ a doença” e os soldados representando
“ a cura”. Quer dizer, a cultura de segregação
também muda de posicionamento , mas sua operacionalidade
é a mesma.
Com
o Rio de Janeiro na disputa para sediar as Olimpíadas
2016, volta-se ao velho problema: os favelados como categoria
de risco e anomalia no espaço urbano. Ou seja, como
conter as favelas para que estas não contaminem o
restante da cidade ? Durante o primeiro ano do governo Sergio
Cabral se privilegiou o combate ao crime nas favelas, mas
agora, depois de tanto desperdiço, as autoridades
percebem que a velha linha repressiva não detém
o crime. Pelo contrário, o torna muito mais forte
do que é.
Na
visita organizada à favela de Dona Marta para os
peritos do Comitê Olímpico Internacional, cuja
comitiva avaliava in loco a candidatura do Rio de Janeiro,
entre o final de abril e início de maio passado,
constatou-se que os estrangeiros ficaram deslumbrados da
relação entre moradores e a polícia
militar, que ali realizava uma ocupação. Ora,
a mudança de tática da segurança pública
que agora considerava o favelado como cidadão fez
com que houvesse mudanças na natureza das relações
entre a polícia e os moradores.
No
entanto, nos debates sobre o muro que ora está sendo
construído, pouco se falou das inexistentes políticas
habitacionais destinadas às camadas populares. Ninguém
mora em favelas porque quer, mas por causa do valor elevado
solo urbano, que é apropriado por interesses especulativos,
e faz com que ninguém tenha condições
comprar ou construir um imóvel dentro das reais condições
do salário, historicamente, sempre humilhante para
o trabalhador. Além disso, o capitalismo financeiro
no Brasil transformou os aluguéis em lucros poderosos,
devido à demanda do brasileiro por residência.
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