| SMAS
nas mãos de um médico do bem
Secretário da pasta social, Fernando William
diz que falta de interação entre as secretarias
impede avaliação rigorosa do impacto de desenvolvimento
da qualidade de vida da população
 |
Formado
em cardiologia e clínica médica há
30 anos, o atual secretário municipal de Assistência
Social Fernando William é uma pessoa que se
encaixa bem ao estilo tudo pelo social. Desde o início
de sua carreira, preferiu conduzir seu ofício
de médico às pessoas menos favorecidas
– dentro de comunidades de baixa renda –
a ter que ficar atendendo apenas em hospitais públicos
ou em consultórios particulares.O cuidado especial
com essas pessoas, que, muitas das vezes, não
tinham recursos para adquirir remédios, possibilitou
pequenas revoluções locais. |
Sem se dar conta, seguindo apenas o desejo de gerar condições
mais saudáveis, suas iniciativas conduziram de vez
sua vida para as questões sociais. São lembranças
guardadas, que, segundo William, poderão se transformar
num livro futuramente.
Os estudos e a dedicação à área
foram encarados de forma tão séria e intensa
que Fernando William, em 2004, foi convidado a participar,
em Brasília, de um grupo seleto de nove profissionais,
para compor a comissão que elaborou as normas operacionais,
que deram vida ao Sistema Único de Assistência
Social. À frente da secretaria municipal, hoje, depois
de vasta experiência acumulada nas esferas federal
e estadual, ele se diz à vontade diante da oportunidade
e já tomou algumas providências importantes.
Entre elas, William sugeriu ao prefeito Eduardo Paes, através
de um decreto, a criação do Território
de Integração Gerencial, que pretende integrar
todas as políticas, secretarias e órgãos
que tratam da questão social nos 10 principais territórios
do Rio. “O prefeito gostou da idéia e está
vendo como pode viabilizar. Todas as secretarias têm
que trabalhar integrado, senão qualquer governo está
errado. Hoje isso é zero, não há nenhuma
integração”, afirma. Até o final
da gestão, Fernando William quer transformar uma
triste realidade. “(...) sonho terminar a minha gestão
sem crianças e adolescentes em condições
de abandono nas ruas”. Fernando William recebeu o
Jornal da Asfunrio. Leia abaixo a entrevista na íntegra.
JORNAL
ASFUNRIO – Como foi a experiência de coordenar
a campanha eleitoral do Eduardo Paes, que culminou numa
vitória?
FERNANDO WILLIAM – Não é a primeira
vez que eu vivo essa experiência de participar do
processo de coordenação de campanha. Tenho
experiência – fui vereador em três mandatos
– e também deputado federal num período.
Conheço bem a vida política do nosso Estado
e, especialmente da nossa cidade, devido às experiências
como vereador. Mas o desafio de coordenar a campanha do
Eduardo Paes foi muito interessante, porque foi um processo
acirrado desde o início. Foi uma campanha que teve
candidatos influentes. O segundo turno foi ainda mais complicado,
porque a disputa foi entre dois candidatos de bom nível,
que tinham uma boa imagem na população, que
utilizaram muito bem a mídia.
Enfim, foi muito trabalho, muito esforço, dedicação
exclusiva de cada um dos militantes. Fazíamos pesquisas
diárias. Os debates foram importantes no processo.
O nosso candidato tem uma virtude enorme: Eduardo tem uma
capacidade de trabalho impressionante. Às 7h já
estava na rua e trabalhava até meia-noite ou mais.
Ele é um verdadeiro workaholic. Então, isso
foi um diferencial importante. O que importa é que
a nossa proposta para o Rio de Janeiro foi vitoriosa.
Hoje, no dia-a-dia, percebemos com clareza – sobretudo
na nossa secretaria – que a parceria com o governo
do Estado e com a União é muito importante.
Por exemplo, aqui, na secretaria, o Município não
tinha assinado o convênio com o Pronasci (Programa
Nacional de Segurança Pública com Cidadania).
Nós já apresentamos projetos no valor de R$
18 milhões, os quais muito provavelmente serão
aprovados. A prefeitura perdeu o valor substancial de recursos
para implantar em programas voltados para atividades de
assistência social, ligados à segurança,
a regressos do sistema penitenciário, aos jovens
com riscos de envolvimento com o tráfico. A prefeitura
acaba que perdeu recursos por conta desses conflitos. Então,
a harmonia entre os governos é muito importante.
JA
– Secretário, o senhor já comandou a
pasta social no Estado em 2003. Qual o paralelo que o senhor
pode traçar entre a gestão no estado e agora
no Município?
FW – O Estado tem uma estrutura bem diferente do município.
Na secretaria de Assistência Social do Estado, todos
os cargos são comissionados ou contratados. No Município,
a grande maioria é de concursados, efetivos, portanto,
pessoas que estão buscando uma carreira. Com isso,
a qualidade da atividade técnica é muito mais
profissional do que no Estado. Por serem cargos comissionados,
o entra e sai no estado é muito grande e a memória
acaba se perdendo. Aqui (no Município), isso não
ocorre, porque tem profissionais muito qualificados. Você
vai aos abrigos, por exemplo, e fica muito impressionado,
não apenas com a qualidade dos serviços, mas
com a dedicação das pessoas ao trabalho que
realiza. Isso é um fator extremamente positivo na
prefeitura. O grande diferencial que a gente tem nos abrigos
é a qualidade dos servidores. À estrutura
funcional dos abrigos e dos equipamentos, dou nota seis
ou sete. Aos profissionais, dou nota 10, porque são
pessoas vocacionadas.
JA
- O senhor tem ouvido as demandas dos servidores da SMAS?
FW – Pelo meu histórico de vida parlamentar,
tenho uma pré-disposição ao diálogo,
a ouvir, que acho que pouca gente é capaz de ter.
Tenho a percepção clara que, mesmo quando
temos divergências, temos de ouvir. A vida me ensinou
que aprendo tanto quanto com os que discordam e com os que
concordam, às vezes, até mais com os que discordam.
Já recebi todos os segmentos, de conselhos, dos juizados,
das varas, das promotorias. Estamos buscando solução,
consenso, acordo com todos esses órgãos. No
Conselho da Criança e do Adolescente havia um problema
enorme. A promotora tinha uma visão de trabalho,
o secretário outra, os conselheiros outras. Com isso,
o conselho não funcionava e nem captava recursos.
Eu garanto que vamos resolver isso, tivemos uma excelente
conversa. Tenho certeza de que vamos conciliar tudo. E assim
vamos captar recursos para o Fundo da Infância e da
Adolescência. E, é claro, que estou sempre
aberto aos servidores que quiserem vir para conversar e
apresentar suas propostas.
JA
– E o fato de ser um médico na assistência
social, o que isso contribui?
FW – Completei 30 anos de formado esse ano. Nunca
cobrei uma consulta. Sempre trabalhei no serviço
público e sempre voltado para a área social.
Quando me formei, fui trabalhar em três comunidades
pobres e gratuitamente: Nova Holanda, Vigário Geral
e na Chatuba. Tanto na Nova Holanda quanto na Chatuba, criamos
unidades de saúde, buscando apoio em pastorais. O
Reinaldo (presidente da Asfunrio) acompanhou uma parte disso;
ele viveu essa realidade. Nós ajudamos a fundar vários
postos de saúde nas comunidades. Pedimos muita ajuda
a quem tinha interesse em nos ajudar, e também à
Igreja Católica. Era um trabalho tipicamente social.
Quando comecei atender na Nova Holanda, no final na década
de 70, não tinha água. E uma senhora resolveu
ajudar, comprando uma bomba para puxar ázgua e facilitar
o atendimento médico na região. Ela aproveitou
até para vender. Nessa época, Nova Holanda
não tinha pavimentação; tinha muito
barro. Depois, fui trabalhar numa unidade da Fundação
Leão XII. Cheguei nesta unidade e disse para a diretora
que era médico recém-formado e que estava
disposto a trabalhar a serviço da população
pobre, de graça. Então me deram um espaço.
Toda vez que eu chegava, tinha uma pessoa que pegava o autofalante
e gritava “venham que o doutor chegou!”. Eu
chegava às 16h para trabalhar e só saia às
2h. Era um trabalho tipicamente social. Um dia eu ainda
escrevo um livro sobre essas histórias.
JA - Mas o que de fato o motivou a inclinar-se para
o lado social?
FW - Eu também atendia em ambulatórios, não
era apenas nas comunidades. Porém, toda vez que atendia
os moradores de comunidades de baixa renda nos ambulatórios
– que voltavam sempre com os mesmos sintomas –
percebia claramente que não havia a cura para o problema
deles, porque, entre outros fatores, faltava a eles dinheiro
para comprar remédio. Então, me questionava
sempre o que adiantava ser médico numa realidade
onde as pessoas não conseguem melhorar a condição
de suas vidas. Fui me voltando muito para essa questão
social; de como se resolvem as questões no macro.
Eu fiz epidemiologia e nesse curso vi uma coisa interessante.
O Lacerda (Carlos Lacerda, governador), quando fez o sistema
de água potável do Guandu, o índice
de mortalidade infantil por diarréia era de 60 por
1000. Depois do sistema implantado, a mortalidade infantil
por diarreia caiu para 30, 25, depois foi diminuindo muito
mais. Então, quando se monta um sistema de saneamento
adequado, isso provoca uma queda brutal no sistema das doenças
infecto-contagiosas por conta dessa natureza.
Quando fui convidado para ser secretário da pasta
social no Estado, claro que eu não tinha a linguagem,
porque não era um assistente social. Mas eu sempre
estudei muito, a ponto de ter sido um dos nove integrantes
de uma comissão que elaborou normas operacionais
básicas, que regulamentou em 2004 o Sistema Único
de Assistência Social. Me tornei um especialista na
área de assistência social por conta de tudo
que estudei a respeito, por conta da experiência de
vida e pela experiência de ter sido secretário
do Estado na área. Eu me sinto muito à vontade
aqui.
JA
- Quais são os desafios para esta gestão?
FW - Tem uma coisa que o prefeito já deixou muito
evidente para a gestão dessa secretaria, que, na
verdade, eu diria que é a ponta do iceberg, que nos
mostra o que tem por baixo. É a população
em situação de abandono nas ruas. Claro que
a secretaria não existe para dar conta desse problema,
existe fundamentalmente para fazer o diagnóstico
da pobreza, da vulnerabilidade social, e assim interagir
com outras secretarias e órgãos do Município
e do Estado para reduzir o problema social dessas famílias
vulneráveis. Isso exige que a gente amplie as equipes
de atendimento, capacitando-as para entender quais são
as problemáticas daqueles que estão nas ruas,
melhorar os abrigos e ampliar o número de vagas.
Hoje são 61 abrigos com capacidade para 2.146 vagas.
Precisamos trabalhar com uma lógica de entender o
porquê que elas estão nas ruas, e o que fazer
para que elas entendam que as ruas não são
os melhores lugares para elas ficarem. Por pior que sejam
os abrigos é sempre melhor do que ficar nas ruas.
Eu pretendo passar um dia inteiro num abrigo, comer a comida
deles, ver como funciona. Com isso, quero provar que é
possível viver num abrigo. Hoje temos dificuldades
para encontrar lugares para colocar os que sofrem de surto-psicótico.
Estamos discutindo esse problema com a secretaria de Saúde
para nos ajudar a encontrar uma solução. Estamos
propondo que fiquem num lugar decente, onde possam ser tratados
dignamente até buscar suas famílias. Recontratamos
250 vagas de hotel no Centro para beneficiar as pessoas
que dormem nas ruas porque não têm dinheiro
para voltar para casa. Há também o caso da
drogadição. Estamos também conversando
com a Saúde para ampliar vagas para cuidar disso.
Entendemos perfeitamente que crianças e adolescentes
não têm que ficar nas ruas, sobretudo se drogando.
JA
- Até o final da gestão, já planejou
metas para solucionar todos esses desafios?
FW - Não sei trabalhar sem metas, sem objetivos bem
definidos. Hoje, sinceramente, ainda não tenho como
mencioná-las. Só posso resumir que sonho terminar
a minha gestão sem crianças e adolescentes
em condições de abandono nas ruas. Claro que
tenho a meta de aumentar a rede de atendimento, aumentar
significativamente o número de famílias beneficiadas
nos programas de transferência de renda, e ainda que
essas famílias entrem nos programas de capacitação
profissional para que possam se auto-sustentar e muito mais.
Agora estamos começando a definir as metas de cada
projeto-programa que tem na secretaria.
JA
- Abandono escolar, a secretaria pode ajudar a resolver
essa questão?
FW – O fato de ter voltado à política
de avaliação anual, certamente deverá
pressionar a aumentar o índice de evasão.
Então, a nossa rede de atendimento assistencial,
que é constituída hoje de 42 centros de referência
de assistência, vai ter de trabalhar com um olhar
redobrado para essa questão da evasão escolar.
Hoje há um assistente social para quatro escolas.
É a maior rede do Brasil. Mesmo assim, vão
precisar ter um cuidado mais atento.
JA
- Quais são as secretarias que trabalham em parceria
com a Social?
FW – Na verdade, atualmente, não há
isso. Sugerimos ao prefeito, através de um decreto,
a criação de uma integração,
onde todas as políticas, secretarias e órgãos
que tratam da questão social estariam trabalhando
harmoniosamente. Trata-se da criação do Território
de Integração Gerencial. O prefeito gostou
da idéia e está vendo como viabiliza. Todas
as secretarias têm que trabalhar integrado, senão
qualquer governo está errado. Hoje isso é
zero, não há nenhuma integração.
Por exemplo, identificamos várias famílias
nos abrigos que estão prontas para irem embora. Mas
como tirar se não sabemos para onde mandar? Outro
ponto é a construção das casas destinadas
à população pobre. As primeiras indicações
dessas teriam que partir da secretaria de Assistência
Social. Não quero saber para quem está sendo
indicado. É fundamental que a Assistência Social
esteja interagindo com a Secretaria de Habitação
para ter um olhar mais apurado sobre isso.
O Rio tem 10 Áreas de Planejamento, as APs. São
áreas geográficas definidas pelo Iplan-Rio.
São áreas que têm características
geográficas e populacionais distintas. Hoje temos
10 CAS, que não correspondem a esses territórios.
As CREs também não atendem a esses territórios.
Os únicos que atendem são as coordenadorias
de saúde. Toda política deveria ser regionalizada
nesses 10 territórios.
Qual é o grande complicador que isso traz? Por exemplo,
se você quiser identificar o impacto das políticas
publicas na melhoria da qualidade de vida da população,
hoje não tem como fazer. Como melhorou a saúde
na população a partir das políticas
desenvolvidas na educação? Não se sabe.
Como ninguém fala com ninguém (as secretarias
não se interagem), não há como produzir
um indicador de qualidade de vida da população.
Sem comunicação, não há como
prever o impacto dos impostos gastos nessas áreas,
por exemplo. Como não trabalha indicadores de desenvolvimento,
a política se fragmenta e se politiza às vezes
no mau sentido da palavra. O estado gasta hoje 10% do seu
orçamento em segurança pública. Se
há 20 anos estivesse gasto mais em saúde,
educação e habitação, com certeza,
não estaria gastando mais hoje com segurança.
JA
- A seu ver, o IDH é um bom índice?
FW - O IDH é um indicador, pra mim, insuficiente.
Queremos trabalhar com o Índice de Desenvolvimento
da Família, que vai medir o quanto às famílias
estão se desenvolvendo em termo de qualidade de vida.
Antes não tinha como codificar isso, porque não
havia interação entre as secretarias. As pesquisas
de opinião pública tentam achar respostas
para esses desenvolvimentos, mas, na verdade, estão
sempre enxugando gelo.
JA
– Secretário, de uma forma geral, pode-se dizer
então que todos os investimentos públicos
ao longo dos últimos anos foram possivelmente desordenados
e não conseguiram resultados mais sólidos,
mais concretos?
FW – Sem dúvida. Eu acho que mesmo com boa
vontade temos de ter uma visão mais republicana,
mais ampla de que os investimentos públicos devem
atender a um objetivo maior de melhorar a qualidade de vida
da população a curto, médio e longo
prazo. Não temos que estar correndo atrás
de respostas imediatas, que as pesquisas nos dizem o que
devemos fazer.
JA
– Qual é sua avaliação sobre
o choque de ordem?
FW – Na minha opinião, o Rio de Janeiro chegou
a uma situação que a arrumação
geral era mais do que necessária. Chegamos bem perto
do fundo do poço em relação à
desordem pública que estávamos vivendo no
Rio. Em lugar nenhum, nem nas nossas casas vivemos sem regras.
E hoje se faz importante o choque de ordem.
JA
- Em relação aos servidores, haverá
capacitação?
FW – Acho que, por melhor que seja o profissional,
ele precisa sempre melhorar sua capacitação,
precisa se atualizar. Capacitação, sim, será
direcionado aos funcionários.
melhorar
os abrigos e ampliar o número de vagas.
Hoje são 61 abrigos com capacidade para 2.146 vagas.
Precisamos trabalhar com uma lógica de entender o
porquê que elas estão nas ruas, e o que fazer
para que elas entendam que as ruas não são
os melhores lugares para elas ficarem. Por pior que sejam
os abrigos é sempre melhor do que ficar nas ruas.
Eu pretendo passar um dia inteiro num abrigo, comer a comida
deles, ver como funciona. Com isso, quero provar que é
possível viver num abrigo. Hoje temos dificuldades
para encontrar lugares para colocar os que sofrem de surto-psicótico.
Estamos discutindo esse problema com a secretaria de Saúde
para nos ajudar a encontrar uma solução. Estamos
propondo que fiquem num lugar decente, onde possam ser tratados
dignamente até buscar suas famílias. Recontratamos
250 vagas de hotel no Centro para beneficiar as pessoas
que dormem nas ruas porque não têm dinheiro
para voltar para casa. Há também o caso da
drogadição. Estamos também conversando
com a Saúde para ampliar vagas para cuidar disso.
Entendemos perfeitamente que crianças e adolescentes
não têm que ficar nas ruas, sobretudo se drogando.
JA
- Até o final da gestão, já planejou
metas para solucionar todos esses desafios?
FW - Não sei trabalhar sem metas, sem objetivos bem
definidos. Hoje, sinceramente, ainda não tenho como
mencioná-las. Só posso resumir que sonho terminar
a minha gestão sem crianças e adolescentes
em condições de abandono nas ruas. Claro que
tenho a meta de aumentar a rede de atendimento, aumentar
significativamente o número de famílias beneficiadas
nos programas de transferência de renda, e ainda que
essas famílias entrem nos programas de capacitação
profissional para que possam se auto-sustentar e muito mais.
Agora estamos começando a definir as metas de cada
projeto-programa que tem na secretaria.
JA
- Abandono escolar, a secretaria pode ajudar a resolver
essa questão?
FW – O fato de ter voltado à política
de avaliação anual, certamente deverá
pressionar a aumentar o índice de evasão.
Então, a nossa rede de atendimento assistencial,
que é constituída hoje de 42 centros de referência
de assistência, vai ter de trabalhar com um olhar
redobrado para essa questão da evasão escolar.
Hoje há um assistente social para quatro escolas.
É a maior rede do Brasil. Mesmo assim, vão
precisar ter um cuidado mais atento.
JA
- Quais são as secretarias que trabalham em parceria
com a Social?
FW – Na verdade, atualmente, não há
isso. Sugerimos ao prefeito, através de um decreto,
a criação de uma integração,
onde todas as políticas, secretarias e órgãos
que tratam da questão social estariam trabalhando
harmoniosamente. Trata-se da criação do Território
de Integração Gerencial. O prefeito gostou
da idéia e está vendo como viabiliza. Todas
as secretarias têm
que trabalhar integrado, senão qualquer governo está
errado. Hoje isso é zero, não há nenhuma
integração. Por exemplo, identificamos várias
famílias nos abrigos que estão prontas para
irem embora. Mas como tirar se não sabemos para onde
mandar? Outro ponto é a construção
das casas destinadas à população pobre.
As primeiras indicações dessas teriam que
partir da secretaria de Assistência Social. Não
quero saber para quem está sendo indicado. É
fundamental que a Assistência Social esteja interagindo
com a Secretaria de Habitação para ter um
olhar mais apurado sobre isso.
O Rio tem 10 Áreas de Planejamento, as APs. São
áreas geográficas definidas pelo Iplan-Rio.
São áreas que têm características
geográficas e populacionais distintas. Hoje temos
10 CAS, que não correspondem a esses territórios.
As CREs também não atendem a esses territórios.
Os únicos que atendem são as coordenadorias
de saúde. Toda política deveria ser regionalizada
nesses 10 territórios.
Qual é o grande complicador que isso traz? Por exemplo,
se você quiser identificar o impacto das políticas
publicas na melhoria da qualidade de vida da população,
hoje não tem como fazer. Como melhorou a saúde
na população a partir das políticas
desenvolvidas na educação? Não se sabe.
Como ninguém fala com ninguém (as secretarias
não se interagem), não há como produzir
um indicador de qualidade de vida da população.
Sem comunicação, não há como
prever o impacto dos impostos gastos nessas áreas,
por exemplo. Como não trabalha indicadores de desenvolvimento,
a política se fragmenta e se politiza às vezes
no mau sentido da palavra. O estado gasta hoje 10% do seu
orçamento em segurança pública. Se
há 20 anos estivesse gasto mais em saúde,
educação e habitação, com certeza,
não estaria gastando mais hoje com segurança.
JA
- A seu ver, o IDH é um bom índice?
FW - O IDH é um indicador, pra mim, insuficiente.
Queremos trabalhar com o Índice de Desenvolvimento
da Família, que vai medir o quanto às famílias
estão se desenvolvendo em termo de qualidade de vida.
Antes não tinha como codificar isso, porque não
havia interação entre as secretarias. As pesquisas
de opinião pública tentam achar respostas
para esses desenvolvimentos, mas, na verdade, estão
sempre enxugando gelo.
JA
– Secretário, de uma forma geral, pode-se dizer
então que todos os investimentos públicos
ao longo dos últimos anos foram possivelmente desordenados
e não conseguiram resultados mais sólidos,
mais concretos?
FW – Sem dúvida. Eu acho que mesmo com boa
vontade temos de ter uma visão mais republicana,
mais ampla de que os investimentos públicos devem
atender a um objetivo maior de melhorar a qualidade de vida
da população a curto, médio e longo
prazo. Não temos que estar correndo atrás
de respostas imediatas, que as pesquisas nos dizem o que
devemos fazer.
JA
– Qual é sua avaliação sobre
o choque de ordem?
FW – Na minha opinião, o Rio de Janeiro chegou
a uma situação que a arrumação
geral era mais do que necessária. Chegamos bem perto
do fundo do poço em relação à
desordem pública que estávamos vivendo no
Rio. Em lugar nenhum, nem nas nossas casas vivemos sem regras.
E hoje se faz importante o choque de ordem.
JA
- Em relação aos servidores, haverá
capacitação?
FW – Acho que, por melhor que seja o profissional,
ele precisa sempre melhorar sua capacitação,
precisa se atualizar. Capacitação, sim, será
direcionado aos funcionários.
|