Asfunrio,
AULA, NgeraAção e Staumbor apoiam UFRJ e instituições
privadas em projeto social na Maré
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Ter
direito a um local digno para morar, com saneamento
básico, com água enca-nada, luz
instalada, parece bem simples, para quem reside
nos grandes centros urbanos, concentradores de
fonte de renda e poder de consumo.
Na
realidade, um cidadão para conquistar um
local decente para morar passa por alguns percalços,
entre ter ou não condição
financeira para a aquisição e encontrar
boas formas de financiamento e longe de juros
astronômicos.
Distantes
dessa possibilidade – a de residir num local
com infraestrutura mínima que seja –
estão milhares de brasileiros, padecendo
nas ruas, ao relento, vivendo sem a mínima
dignidade.
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A
constitucionalização do direito à
moradia convalida a indisponibilidade da habitação
ao estado de bem-estar do ser humano, seguindo expressão
já consagrada pelo artigo 25 da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Do mesmo modo,
acolhe proposição da 2ª Conferência
sobre Assentamentos Urbanos (Habitat II) promovida em
1996 pela Organização das Nações
Unidas (ONU), em Istambul, na Turquia, que recomendou
a todos os países participantes, entre eles, o
Brasil, o destaque normativo do direito à moradia
em suas constituições.No entanto, as autoridades
deste país ainda demonstram insensibilidade e parecem
ignorar a questão.
Estimativas
fornecidas pelo IBGE informam que o déficit habitacional
brasileiro alcança hoje mais de 5,1 milhões
de moradias. Como os dados oficiais não incluem
os moradores de palafitas, barracos e outras habitações
desprovidas de mínima segurança e infraestrutura
básica, pode-se supor, agregando-os aos números
originais, que o déficit nacional de habitação
pode atingir a 15 milhões de moradias ou, cerca
de 55 milhões de brasileiros.
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Em
consequência desse crescimento, houve diversos
problemas: privatização da terra,
emergência do trabalho livre, reformas urbanas,
industrialização, êxodo rural,
crescimento e expansão de favelas, remoção
de famílias, urbanização, saneamento,
entre outros. Infelizmente, nas favelas, encontra-se
o maior número de pessoas com baixa renda,
que acabam sublimando o sonho da casa própria,
por não ver esperança de mudança
nesse quadro. |
Mas na luta diária para conseguir dar o mínimo
de dignidade aos seus entes, algumas famílias não
conseguem admitir esta injustiça e conseguem romper
com esta sequela social, na tentativa de alcançar
um lugar decente para sobreviver, e passam a ocupar imóveis
desapropriados ou abandonados. Este é o caso das
inúmeras famílias que vivem hoje nas instalações
da antiga fábrica de cimento Quartzolit, localizada
no número 260 da Rua Capitão Carlos, no
Timbau, na Maré.
A moradia na antiga fábrica ficou conhecida como
Conjunto da Portelinha. A Maré é hoje uma
das maiores favelas da América Latina, segunda
maior no Rio de Janeiro, após a Rocinha, e conseguiu
expandir após a construção da Avenida
Brasil, na década de 40. O único e maior
problema para os moradores da Portelinha é que,
pelo fato de ocuparem um prédio abandonado, sem
permissão de propriedade, a condição
de moradia é insegura. Pois, de uma hora para outra,
o dono do imóvel, ou, mesmo os órgãos
públicos, podem requerer a posse, e, assim, as
famílias voltariam a viver nas ruas.
Preocupados
com essa possibilidade, a Escola de Serviço
Social da UFRJ, através de um projeto de
extensão, coordenado pela professora Gabriela
Lema Icasuriaga, com o apoio da Faculdade Nacionnal
de Direito da mesma instituição, vem
exercendo um importante papel na localidade. Passou
a ministrar aulas para os moradores, a fim de esclarecer
sobre a necessidade de tomar uma atitude conjunta,
que permita que eles continuem vivendo ali dentro
da legalidade. |
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Esta iniciativa da universidade atraiu outras instituições
educacionais e privadas e também associações
e ONGs. A Asfunrio e a Aula são algumas das associações
que resolveram apoiar a causa.
Há mais de três meses, tem acontecido inúmeros
encontros, entre moradores e profissionais das organizações,
com o objetivo de avaliar a situação de
cada morador e buscar a melhor forma de legalizar a moradia
daquelas famílias que passaram a residir nas instalações
da antiga fábrica da Quartzolit. Além de
alunos e algumas universidades, a iniciativa também
recebe apoio da NgeraAção, Instituto Staumbor,
Grupo Ipiranga de Capoeira de Angola e Pastinha, organizações
que atuam dentro da Maré, com atividades sociais,
culturais e esportivas.
Nos
encontros, os moradores têm recebido também
noções jurídicas básicas,
o que vem contribuindo para a instrução
dos mesmos e os incentivam a buscar os seus direitos.
O conhecimento adquirido tem proporcionado aos moradores
descobrir qual é a relação entre
direito, sociedade e poder estatal. E puderam descobrir
o que é posse, propriedade, como regularizar loteamentos,
usucapião coletivo, composse de condomínios,
solução para áreas de propriedade
pública, entre outros.
A maioria dos moradores e organizações que
participa tem considerado as reuniões enriquecedoras
e úteis para a promoção da cidadania.
“A urbanização sempre precária
- abrir uma rua, embelezar o entorno - sempre foi a maquiagem
dos governantes. Já tivemos o programa Favela Bairro.
Mesmo com forte investimento, percebemos deterioração
de um investimento permanente naquilo que teve forte investimento
de gasto público. A palavra remoção
ganha força dependendo do momento político.
Em função das obras para a concretização
da Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, espaços
nobres abrem apetite da especulação imobiliária
que desejam o lucro”, afirmou Reinaldo Cunha, presidente
da Asfunrio.
Ele continua: “A Maré é um produto
de forte investimento. Onde era palafita hoje é
aterro, surgiu habitações, saneamento. Hoje
a Maré tem um museu, casas, vias de acessos, como
linha vermelha linha amarela, tem perto o aeroporto internacional.
Mas as pessoas devem buscar meios para viver dentro da
legalidade. É necessário resolver a questão
da propriedade, principalmente no Condômino da Portelinha,
para que ninguém perca o direito à moradia”,
defendeu Reinaldo.
De acordo com as investigações dos professores
e alunos de Direito da UFRJ, que estão dispostos
a ajudar os moradores da Portelinha, o imóvel não
apresenta obstáculo em seus documentos arquivados
na Prefeitura do Rio. Segundo eles, a antiga fábrica
da Quartzolit está em nome de particular e não
tem nenhuma ação, seja por parte do governo
ou do proprietário.
“Essa notícia é muito boa. Mas é
fundamental que os moradores se unam para que possamos
trabalhar a uniformidade da causa em prol da legalização
jurídica da posse. É muito importante que,
a cada encontro, tenhamos um número maior de moradores
da Portelinha envolvidos”, destacou a professora
de Direito da UFRJ, Cristiane Catarina.
A etapa, em andamento, consiste no preenchimento de uma
ficha econômica social, para identificar as famílias
que moram no imóvel. E também envolve a
organização da divisão da estrutura
do prédio.
A Asfunrio e a Aula, como incentivadoras dessa iniciativa
pelo bem dos moradores da Portelinha, aproveita para agradecer
o empenho dos professores e alunos da UFRJ, bem como das
demais organizações e instituições.
“Vamos continuar apoiando esta causa. Espero que
tão logo seja resolvida essa questão. As
pessoas que moram na Portelinha são humildes, porém
honestas, trabalhadoras, e querem o que for melhor para
todos”, concluiu Reinaldo.