Justiça
abre processo após denúncia de superfaturamento
na Saúde do RJ
Três ex-funcionários da Secretaria estadual
de Saúde foram indiciados.
Segundo MP, empresa teria vendido gaze superfaturada para
o órgão.
Do
RJTV
A Justiça abriu um novo processo, desta vez na
esfera criminal, contra empresários envolvidos
em irregularidades na saúde pública do Rio
de Janeiro. A empresa Barrier Comércio e Serviços
é acusada pelo Ministério Público
do Rio (MP-RJ) de lavagem de dinheiro e superfaturamento
do preço de remédios em contratos com a
Secretaria estadual de Saúde.
Três
ex-servidores da Secretaria já respondem a uma
ação de improbidade administrativa por fraudes
envolvendo outra empresa - a Toesa Service.
Nesta
quinta-feira (11), funcionários do Ministério
Público apreenderam documentos e computadores na
sede da Barrier, e no apartamento do casal apontado como
dono da empresa, no condomínio de alto luxo Golden
Green, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste. Além
do casal, o MP denunciou outras duas pessoas apontadas
como "laranjas" no esquema.
A
investigação começou em julho, quando
foi divulgado que a Secretaria estadual de Saúde
dispensou licitação em compras, que somaram
R$ 81 milhões, apenas em 2009. Na maioria das vezes,
a Secretaria alegou que as compras eram casos de emergência
e, por isso, foram pagos preços bem acima do que
é cobrado no mercado.
A
empresa campeã de vendas sem concorrência
pública foi a Barrier Comércio e Serviços.
Um dos exemplos de prejuízo para o estado nos contratos
entre a Barrier e a Secretaria ocorreu na compra de gaze.
Desde então, o MP passou a investigar os donos
da empresa.
Superfaturamento
na compra de gaze
Na aquisição de 22, 4 milhões de
unidades de gaze, a Secretaria pagou à Barrier
R$ 0,59 por pacote. Segundo o MP, o Instituto Fernandes
Figueira, da Fiocruz, comprou o mesmo ítem ao preço
unitário de R$ 0,32 no mesmo período. Para
os promotores "constatam-se indícios de superfaturamento
e favorecimento na compra".
A
diferença entre os preços praticados pela
Secretaria e por outros órgão públicos
passou de R$ 7,5 milhões. Segundo o Ministério
Público, um superfaturamento de 84 %. Apesar dos
indícios, a empresa Barrier alegou que a venda
de gaze foi feita a um preço compatível
com os de mercado. A empresa disse ainda que na época
da venda houve um aumento no preço do algodão
por causa da queda da safra do produto.
“Se
num insumo tão corriqueiro para o serviço
médico como gaze, é possível ter
ambiente para uma fraude de R$ 7 milhões, que dirá
nos outros 694 outros procedimentos de compra que a própria
Secretaria de Saúde diz que tem com a Barrier”,
disse o promotor Mateus Pinaud.
MP
investiga donos de empresa
Ainda em julho, foi descoberto que o principal acionista
da Barrier era outra empresa, a Sommar Investments. Segundo
os registros oficiais, a Sommar funcionaria em Delaware,
nos Estados Unidos, considerado um paraíso fiscal.
Repórteres do RJTV foram até lá,
mas não encontraram ninguém.
No
Brasil, apenas um acionista minoritário e um procurador
se apresentaram como responsáveis pela empresa.
Os verdadeiros donos preferiram não aparecer. Para
os promotores, os dois são 'laranjas' no esquema.
Segundo
os promotores, os verdadeiros responsáveis pelos
negócios da Barrier são Maurício
Cerginer e a mulher dele, Tânia Minoga Cerginer.
O casal já fez parte da lista de proprietários
da empresa, mas formalmente, deixaram a sociedade. Maurício
e Tânia não foram encontrados pela equipe
do RJTV para responder as acusações do MP.
Consultoria
de fachada
O MP diz que o casal criou uma consultoria, a Rio Avante,
para simular a prestação de serviços.
De acordo com a denúncia, a consultoria serviria
de fachada para Maurício e Tânia tirarem
8 % do faturamento bruto da Barrier.
O
Ministério Público destaca que as condutas
demonstram a índole delinquente dos denunciados,
fraudando o estado do Rio de Janeiro, num de seus recursos
mais escassos e relevantes - a saúde pública.
Todas
as compras foram autorizadas pelo ex-subsecretário
de Saúde César Romero. Na quarta-feira (10),
ele se tornou réu por improbidade administrativa
em outra investigação de superfaturamento.
Procurado pelo RJTV, o ex-subsecretário de Saúde
César Romero Viana não quis se pronunciar.
“Há
indícios de participação de servidores
e autoridades. Essa participação se dá
na condução de um processo de compra com
dispensa de licitação, onde essa justificativa,
ela não corresponde com a realidade dos fatos”,
declarou Mateus Pinaud.
Sobre
o possível envolvimento de servidores, a Secretaria
informou que vai se pronunciar quando houver alguma acusação
formal.
Sequestro
dos bens
O Ministério Público pediu e a Justiça
já concedeu também o sequestro dos bens
dos acusados, não apenas das pessoas envolvidas,
como de tudo que estiver em nome da Barrier e de outras
duas empresas dos mesmos donos, a consultoria Rio Avante
e a Kademed, que também vende medicamentos para
órgãos públicos.
A
Secretaria estadual de Saúde informou que está
à disposição do Ministério
Público, e se solicitada pelo órgão,
poderá fornecer documentação necessária
para a investigação. O Ministério
Público, no entanto, afirma que pediu documentos
à Secretaria que até hoje não foram
enviados sobre o possível envolvimento de servidores.