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Um ‘consórcio’ criminoso

Cerca de cinqüenta bandidos de várias favelas se reuniram para o ataque ao Morro da Mineira


Rio - O bando que invadiu o Morro da Mineira foi recrutado em várias favelas dominadas pelo Comando Vermelho (CV), entre elas Formiga (Tijuca), Mangueira, Providência (Centro) e Complexo do Alemão, além de áreas na Baixada Fluminense. Com roupas vermelhas, como uniformes, os invasores se reuniram no Morro do Fallet e iniciaram o ataque por volta das 2h.

A invasão começou pela parte alta. Às 6h, foi a vez de outro grupo agir, mas pela parte baixa: 20 homens em cinco carros fecharam a Rua Cristo, acesso à Mineira, e pegaram como reféns moradores que desciam para trabalhar. “Me agarraram pelo pescoço, avançaram morro adentro atirando, sem saber se atingiam algum inocente, e gritando que estavam tomando conta da situação. Eu e duas pessoas ficamos como escudos, mas graças a Deus não fomos baleados”, contou o mecânico F., 20 anos.

Segundo a polícia, apesar do arsenal e do número de bandidos, os invasores não conseguiram assumir o controle da favela. O Serviço Reservado do 1º BPM (Estácio) informou que traficantes do CV chegaram a expulsar os rivais da ADA. Mas com a operação da PM, tiveram que deixar a comunidade, que estaria temporariamente sem o domínio de facções.

TATUAGENS DE FUZIS

Alguns bandidos procuraram abrigo no Morro da Coroa. Foi o caso de Rafael Alves Ferreira, 23 anos, apontado como chefe do tráfico da Formiga. Ferido, ele foi perseguido desde o Cemitério do Catumbi e, com um fuzil, atravessou as pistas do Elevado 31 de Março. Depois, acabou preso. Também foram capturados Thiago de Melo Castro, 23, que havia sido expulso da Mineira, e Francisco de Assis Pereira, 27, que passou de mochila pelos PMs, mas chamou a atenção por ter duas tatuagens de fuzis no antebraço.

No início da manhã, a informação era de que havia 10 mortos na mata próxima ao Cemitério do Catumbi. Policiais do Bope foram ao local e o Caveirão, usado para atuar em confrontos, se transformou em rabecão. De uma só vez, levou sete corpos ao Hospital Souza Aguiar — no fim do dia, já eram 13 mortos.

O prefeito Cesar Maia ficou indignado com a remoção dos corpos para o hospital. Ele telefonou para o governador Sérgio Cabral, pedindo que os mortos não fossem levados para lá. O secretário José Mariano Beltrame concordou com o prefeito: “É lamentável. A população não tem que ver esse tipo de cena chocante”.

CAPTURADO

Uma cena simbolizou o dia de pânico no Catumbi. Depois de trocar tiros com policiais no cemitério, Rafael Alves Ferreira, 23 anos, pulou o muro para a Rua Itapiru e novamente houve confronto. Baleado nas costas, o bandido conseguiu atravessar correndo o Elevado 31 de Março, carregando um fuzil. A arma foi abandonada numa escadaria do Morro da Coroa.

Rafael se escondeu na casa de um tio, que chamou a polícia para que ele se entregasse. Os policiais quebraram as janelas e invadiram o imóvel, mas ninguém foi encontrado. Pouco depois, Rafael tentou sair da favela e foi capturado.

BANDIDO INVADE VELÓRIO DE IDOSA

“A violência chegou a tal ponto que não se pode mais nem velar em paz um ente querido”. Esse foi o desabafo de A., 52 anos, que impediu traficante de se esconder da polícia na capela onde sua mãe, Sebastiana Araújo Silva, 93 anos, era velada. Fugindo do Morro da Mineira, o bandido entrou na capela D e pediu aos parentes da senhora que o abrigassem.

“Ele estava sujo de lama, sem camisa, com um carregador de fuzil debaixo do braço. Disse para ele respeitar minha família e ir se esconder na capela ao lado, onde só havia um corpo. Quando a polícia chegou, eu e três irmãs ficamos escondidos no banheiro por quase 10 minutos”, contou A..

Os velórios e enterros foram suspensos. Parentes de Mário Ferraz, 89 anos, e Irani Tomaz Vieira, 70, deixaram as capelas e buscaram abrigo na administração do cemitério. Neto de Mário, Demerson Silva, 37, disse que, além do sentimento de perda, ele precisou controlar o nervosismo diante da situação.

“Sem exageros, foi uma chuva de tiros. Teve rajadas de metralhadora e até granadas. Passamos a madrugada ouvindo o confronto, tristes pela morte do meu avô e tensos pelo conflito. Em diversos momentos, tivemos que nos abaixar”, lembrou.

Por causa do risco, Janice Araújo de Lima Santos, 60 anos, preferiu não velar o corpo de seu marido, Irani, durante a madrugada. De manhã, refugiou-se em igreja próxima. “As flores do caixão estavam reviradas e muitas pétalas caíram no chão. Se eu estivesse aqui, teria sido refém. Me sinto muito vulnerável e não vejo solução. Os bandidos tomaram as rédeas da nossa cidade. Trabalho em Santa Teresa, com crianças que moram em comunidades, e sempre ouço tiros e histórias de guerra, mas isso foi demais”, lamentou.

Policiais ocuparam as capelas do segundo andar para ter melhor visão dos pontos de confronto. O corpo de Mariza Martins Soares, que seria velado na capela F, precisou ser transferido para outra sala, já que as paredes e vidraças da janela ficaram com marcas do tiroteio. À tarde, os enterros aconteceram ainda em clima de tensão. O primeiro foi realizado com meia hora de atraso. Apenas parentes mais próximos participaram da cerimônia e muitas pessoas deixaram o cemitério com medo.

 

Fonte: www.odia.com.br

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