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Coalizão só se for para mudar de verdade

 

"Precisamente porque as coisas estão como estão, elas assim não permanecerão." (Bertolt Brecht, dramaturgo - 1898/1956)

Agora que as luzes da emoção se apagaram, sinto-me melhor para conversar com você sobre o governo de coalizão montado por Lula, sua natureza e a participação do PDT. E começo por declarar com todas as letras: não há nada de novo no front. Os velhos métodos das priscas eras monitoraram a divisão do governo entre alguns partidos que já não podem ser identificados ideologicamente.

Portanto, não se pode falar em um governo de centro-esquerda. Ou de partidos de esquerda. Ou de centro. Ou de direita. A coalizão montada não chega a ser sequer uma coalizão, como se poderia entender no sentido da aliança de oponentes, como ocorre hoje na Alemanha.

É fato que o PT perdeu espaço, mas ainda continua hegemônico. Não pelos seus méritos fortuitos, que se evaporaram na torrente dos escândalos recentes. Mas pelo seu poder de pressão, ainda forte, sobre o seu presidente de honra. É fato, igualmente, que a essência das políticas governamentais permanece intocada. A equipe econômica é a mesma, de onde a lógica de ser a mesma também a política econômica.

Mitos intocáveis

Quando estive em Brasília, na quinta-feira, ouvi de quem convive com as forças do poder alguns "dogmas":
1. Mexer na política macroeconômica, pautada pela coação monetária, é um risco que nenhum governo hoje toparia correr, principalmente se considerarmos as vantagens de manter a inflação sob controle. Para os formuladores da estratégia de governo, não há outra saída senão preservar o arrocho salarial, inibir o consumo e limitar o papel do Estado, deixando que o "mercado" defina os caminhos da economia.

2. O Brasil não pode pensar em crescimento porque não tem capacidade energética para sustentá-lo. Toda e qualquer pretensão nesse sentido esbarraria nessa limitação de infra-estrutura.

3. O País está inserido numa realidade global diferente da Argentina e Venezuela, tanto por seu perfil econômico como pelos laços históricos com os Estados Unidos, a cuja esfera de influência está irreversivelmente preso.
Isso quer dizer que o governo do presidente Luiz Inácio não tem a menor intenção de alterar a política neoliberal cristalizada nos oito anos de Fernando Henrique e da aliança PSDB-PFL. Esse é o pomo da discórdia.

Por enquanto, um arranjo

A coalizão instalada é, portanto, um arranjo para garantir uma folgada maioria parlamentar e impedir que forças não conservadoras cresçam no espaço ainda dominado pelo PT e suas organizações satélites.

Para isso, Lula não teve pejo em ceder a pressões por maior presença no poder de partidos como o PSB, que tinha o Ministério da Ciência e Tecnologia, ganhou o das Cidades quando Ciro Gomes mudou de partido e agora fincou o pé por uma segunda pasta. Neste caso, foi retirada uma fatia do Ministério dos Transportes e criada uma Secretaria de Portos, subordinada diretamente ao presidente da República.

A novidade desse segundo ministério foi a volta do PDT, que ganhou a pasta do Trabalho, quando até a véspera se falava na Previdência Social. Como pano de fundo, certa valorização dos políticos em relação aos representantes de segmentos econômicos, como no caso do Ministério da Agricultura, que acidentalmente não será ocupado por um puro-sangue do agro-negócio.

Dilema dos brizolistas

A presença dos brizolistas no governo, criticada em muitas de suas bases, não acrescenta muito do ponto de vista da maioria parlamentar. Mas é um referencial político do qual Lula pode dispor para vários fins, inclusive para conter a voracidade negativa do seu próprio partido.

O Ministério do Trabalho, como já disse, não é mais o mesmo; nem dos tempos de Juscelino, em que absorvia a Indústria e Comércio e a Previdência, e nem dos tempos do regime militar, em que controlava repressivamente a vida sindical, vetando suspeitos e intervindo em entidades que estivessem incomodando.

É hoje uma espécie de grande agência de programas sociais, com interferências laterais nos eventuais conflitos de classe. Através desses programas, que se disseminam através dos sindicatos e suas centrais, oferece recursos compensatórios e cumpre um papel estratégico ao atrelar e desfigurar, numa versão moderna do Estado Novo.

Foi isso que levou a direção da CUT ao Palácio do Planalto para protestar contra a saída do seu ex-presidente, mesmo depois que Lula havia formalizado o anúncio da troca. A atitude da central ligada ao PT acabou por justificar a presença de Carlos Lupi, do PDT, à frente do ministério, com todo o risco que isso representa.

Na pior das hipóteses, enquanto estiver lá, o representante do PDT e sua equipe terão condições políticas de desfazer o "aparelhamento" pernicioso do ministério pela CUT, coisa que vinha causando mal-estar para todo mundo, inclusive para Lula.

Não ao neoliberalismo

Isso, contudo, não pode ser a única justificativa para um partido que se acha comprometido com sua história e com um líder legendário integrar um governo que, até prova em contrário, ainda parece prisioneiro do neoliberalismo econômico.

Com um representante no primeiro escalão, o PDT não pode abrir mão da possibilidade de interferir na formulação de uma proposta de coalizão política que avance no sentido de mudanças reais, que transforme em realidade velhos discursos e novas retóricas quanto à necessidade de enfrentar com coragem o quadro de injustiças sociais e concentração de renda.

Não há, portanto, como entender o governo à imagem de uma colcha de retalhos. Há um ambiente internacional novo, sobretudo na vizinhança, e há pendências internas inadiáveis, que obrigam à reavaliação de políticas públicas. Essa coalizão será frutífera se for possível processá-la como síntese de um conjunto de propostas capazes de reacender esperanças e construir alternativas focadas, prioritariamente, no enfrentamento dos gravíssimos impasses sociais. Do contrário, de nada servirá e ainda contribuirá para desgastar seus protagonistas.

 

Pedro Porfírio
www.perdoporfirio.com

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