Pelo
direito de a mulher decidir sobre a concepção
"É
uma piração defender a vida desconsiderando
vidas plenas, as das mulheres, e relegá-las a plano
nenhum, sacralizando uma potencialidade de vida, a do
embrião." (Fátima de Oliveira,
médica, no site da União Brasileira de Mulheres)
Um
fantasma ronda o País - o fantasma da "despenalização"
do aborto. Todas as forças da hipocrisia e do obscurantismo,
da cumplicidade e da corrupção unem-se numa
santa aliança para conjurá-la: o discreto
cardeal do Rio interrompeu uma representação
teatral da Paixão de Cristo para pronunciar-se
contra; os donos das clínicas ilegais que faturam
milhões e os agentes corruptos que nada fazem contra
a matança de mulheres nesses "açougues"
estão indóceis.
As
fiscalizações e as falsas vestais da fé
e da tradição, que fecham os olhos para
um milhão e meio de abortos anuais inseguros e
clandestinos no Brasil, bradam velhos chavões para
aterrorizar a sociedade, queimando como assassinos na
fogueira da intolerância os que querem o fim da
gravidez indesejada, com uma Lei que elimine os riscos
vividos por mulheres desesperadas, muitas adolescentes,
que recorrem a métodos primários para evitar
o filho que não poderão criar.
Ambiente
de hipocrisia
Enquanto
o mundo civilizado consagra o direito da mulher decidir
sobre a interrupção da gravidez, como aconteceu
em 11 de fevereiro num plebiscito em Portugal dos nossos
ascendentes, aqui, onde a explosão demográfica
é uma das causas da violência urbana, nem
programas de prevenção e educação
sexual são tolerados, em conseqüência
de que 67% das mulheres desconhecem algum método
anticoncepcional, segundo a Fundação Getúlio
Vargas.
Falar
de pílulas, camisinhas, laqueaduras e vasectomias
é pecado sujeito à excomunhão do
direito canônico medieval. Pensar em orientar nossas
jovens sobre a vida sexual é sujeitar-se a todo
tipo de censura e punição. Segundo os dogmas
que nada têm com a vida, as mães que cuidem
de crianças sem cérebros, que já
nascem com dias contados. Duas conclusões nos levam
a tomar uma atitude frontal, desafiando as incompreensões
que possam nos acarretar todo tipo de represálias
e perseguições inquisitoriais:
1ª) não há mais como deixar
que a interrupção da gravidez indesejada
seja "reserva de mercado" de aborteiros e médicos
inescrupulosos, que movimentam anualmente mais de 1 bilhão
de reais, parte em propinas para autoridades e afins que
de tudo sabem e nada fazem.
2ª)
É tempo de expor a verdade nua e crua, opondo ao
jogo dissimulado de uma prática conhecida e tolerada
os rigores de uma lei que, assimilando formalmente a interrupção
da gravidez indesejada, produza as necessárias
exigências, orientações e condições
de segurança para a sua prática, segundo
o primado da saúde pública.
É
a hora da verdade, em nome da vida digna, com base nos
princípios da liberdade, da saúde pública,
da bioética e da própria teologia, tal como
entenderam Aristóteles na velha Grécia,
São Thomaz de Aquino, Santo Antonino de Florença
e hoje entendem as "Católica pelo Direito
de Decidir", que não vêem conflito entre
a interrupção voluntária da gravidez
e a fé em Deus.
Manter
esse ambiente de hipocrisia, onde clínicas, aborteiras
e profissionais ambiciosos se aproveitam da proibição
legal para fazerem fortunas é contribuir deliberadamente
para o caos social.
Não
diga que você não sabe
Quem
não sabe onde fazer um aborto ilegal? Quem não
conhece alguém na própria família
que já se submeteu a essas práticas de risco,
sem qualquer fiscalização da saúde
pública?
Os
que falam em defesa da vida quando se pretende dignificá-la
sabem muito bem onde e como são feitos os abortos
no Brasil. Onde morrem 10 mil mulheres por ano em conseqüência
de abortos mal-sucedidos e nada fazem. Sabem que 250 mil
delas recorrem anualmente à rede pública
para realizar curetagens depois de saírem com seqüelas
graves desses "açougues" e nada dizem.
Por quê?
Por
que preferem garantir esse inescrupuloso negócio
que não obedece a nenhum parâmetro vital
e fazem terrorismo quando se propugna pelo fim da interferência
do Estado na vida dos casais? A que interesses espúrios
servem, consciente ou inconscientemente?
Num
dos mais sérios trabalhos sobre a queda da criminalidade
em Nova York, os professores norte-americanos Steven Levitt,
da Universidade de Chicago, John Donuhue III, de Stanford,
que nunca foram a favor do aborto, descobriram que a sua
legalização em 1973 produziu os efeitos
positivos na década de noventa.
"Estudando-se
as condições sociais das jovens que abortaram,
resulta que seus filhos viriam a um mundo no qual 60%
estariam numa casa sem pai ou sem mãe. Metade viveria
na pobreza. Estudando-se as planilhas das penitenciárias,
sabe-se que 14% dos presos cresceram sem pai nem mãe,
e 43% sem um ou outro (contra porcentagens de 3% e 24%
para o conjunto da população)", escreveram
em artigo para o "Quarterly Journal of Economics",
a mais antiga publicação do gênero
em língua inglesa, editada pela Universidade Harvard.
Suas contas mostram que a queda do crime aumentou na mesma
proporção em que caiu a fertilidade.
Antes
de concluir sobre a influência positiva da legalização
do aborto na queda da criminalidade, Levitt já
havia examinado outras possibilidades como mudança
na estratégia da polícia, diminuição
do negócio da cocaína e crack, aumento da
força policial, aumento do número de pessoas
na prisão, aumento da precaução contra
assaltos como sistemas de alarme e economia forte.
Assegurar
à mulher o direito de decidir tem muito com a própria
liberdade como fonte de felicidade, com as possibilidades
de oferecer à criança o amor e a atenção
indispensáveis. Se deixarmos as mulheres escolherem
quando querem ter filhos, elas certamente serão
mais sábias do que os governos com suas leis repressivas
que afetam diretamente os direitos individuais.
É
por isso, que estamos convocando a todos para um debate
franco no plenário da Câmara Municipal do
Rio de Janeiro (na Cinelândia) nesta quinta-feira,
às dez da manhã.
Pedro
Porfírio
www.pedroporfirio.com