"Tem-se,
aí, a repressão ideologizada, à feição
do colonialismo classista, que atinge diretamente as camadas
desfavorecidas da população. Sobretudo a
gente das favelas, dos morros e da periferia urbana passa
a ser vista sob permanente suspeição, tornando-se
clientela preferencial da cotidiana violência policial".Siqueira
Castro, doutor em Direito, professor da Uerj e conselheiro
federal da OAB
A
pesquisa CNT/Sensus que revela a opinião da grande
maioria dos cidadãos a favor da redução
da maioridade penal não me surpreende:
infelizmente, criou-se um ambiente social de insegurança
generalizada e um bode expiatório para encobrir
a impunidade, a incompetência e a cumplicidade.
Não se fala no apodrecimento do tecido policial,
na falta de uma política de segurança e
muito menos na ausência absoluta dos poderes públicos
nas áreas de onde sai a maioria dos criminosos.
É
preciso encontrar algo que satisfaça a turba indignada,
tal como aconteceu nos tempos bíblicos em que,
consultada por Pilatos, a multidão preferiu crucificar
Jesus Cristo e libertar Barrabás, o ladrão.
Em
todos os tempos foi sempre assim. Hitler fez sua perversa
carreira na Alemanha, perseguindo judeus, os quais foram
sacrificados barbaramente para a "salvação
da pátria". E a massa acreditava piamente
de que eles eram os grandes vilões dos seus males.
Foi preciso a débâcle do III Reich para que
o mundo e os próprios alemães se dessem
conta do nível de atrocidades praticadas.
Aqui,
onde o creme dental preferido é o que tem mais
anúncios na televisão, nestes tempos modernos
de sacerdotes da eletrônica, não é
difícil jogar com a indignação e
o medo de uma sociedade desprotegida.
Tudo
está na lei, a lei é fraca e tolerante -
bradam os escribas da superfície. Peguem a meninada
a quem negaram educação e a cujos pais abandonaram
à própria sorte, deixando formarem proles
sem lastro futuro e pronto. Para o povo os legisladores
só lhes lavarão a alma quando os pirralhos
sofrerem ameaças de apodrecerem por trás
das grades, no cárcere reservado a criminosos mais
vividos e com vocação de professores do
crime.
As
entranhas dos guetos
Vai
ser assim e pronto. Quem fala, quem influi não
sabe o que é viver sem esperanças numa favela
onde a maioria dos pais está desempregada, vive
de biscates e da renda da mulher, que pode ser uma diarista,
mão-de-obra que ainda consegue emprego.
Quem
escreve libelos, pedindo a cabeça da meninada incursa
em atos inomináveis de imatura perversidade, desconhece
as entranhas dos guetos em que se criam - muitos filhos
de mães solteiras e de famílias já
dilaceradas, onde a gravidez acontece sem qualquer assistência
que a evite, sem a atenção amiga de assistentes
sociais ou até mesmo de prelados que passem o alerta
sobre o amanhã incerto.
Não
sabem esses escribas que desde cedo esses garotos aprendem
a viver na contravenção e na burla. A luz,
a água e até a TV a cabo podem ser mantidas
pelos "gatos" que se exibem em fios entrelaçados
e ostensivos. É como se os valores compensatórios
gerados nesses bolsões de pobreza fossem a resposta
palpável ante a evidência da concentração
de renda, da apropriação sem limites do
trabalho alheio por uma elite desalmada, que faz questão
de ostentar suas pérolas, ante o fracasso do sistema
educacional público e a baixa oferta de empregos
com o mínimo de remuneração razoável.
Bem
disse o mestre Siqueira Castro, uma das maiores autoridades
em direito dos nossos dias:
"Há
que descartar, desde logo, a idéia de que um golpe
de caneta do legislador venha ser a panacéia para
todos os males da criminalidade urbana. É necessário
não se sublimar a visão maniqueísta
acerca dos jovens delinqüentes em detrimento da análise
percuciente das condições psíquico-sócio-econômicas
que conduzem tantas crianças e adolescentes das
favelas e dos guetos urbanos aos descaminhos do crime
e à prática de atrocidades.
A
esmagadora maioria desses jovens nasce e cresce no seio
de famílias desestruturadas e com afetividade esfacelada
pela falta de suprimento de toda sorte de necessidades
vitais. Não por coincidência, são
negros e despossuídos, e oriundos de comunidades
onde a tônica é a completa ausência
do Estado e de serviços públicos confiáveis,
notadamente nas áreas da educação,
da saúde e do lazer.
A
autoridade que conhecem já na tenra idade é
a das gangues do narcotráfico, que os submetem,
os aliciam e os deseducam para o crime e a violência.
O apelo ao ganho fácil e à sensação
momentânea de poder que a arma de fogo lhes oferece
concluem o processo prematuro de marginalização".
Na
onda dos outros
O
que mais me revolta é a facilidade com que as pessoas
se deixam manipular, e isso me leva a supor que já
perderam o juízo crítico próprio.
Não há vontade de tentar tirar as próprias
conclusões. Nem de olhar o mundo com a devida clareza,
a sério, e procurar fazer uma avaliação
do real, friamente, de forma a encontrar respostas verdadeiras.
Há uma crise institucional e a própria legislação
é interpretada do ponto de vista de classe. Como
se pode exigir cárcere rigoroso para os imberbes
bárbaros quando um jornalista conhecedor das leis
e do direito é mantido em liberdade, apesar de
condenado a 19 anos pelo assassinato covarde e premeditado
de sua noiva indefesa?
E
o que dizer das pesadas acusações contra
o chefe de polícia, feito deputado com mais de
100 mil votos? Sua entourage foi presa, ele, não.
Ainda mais agora, que tem imunidade parlamentar. E você
não fez nenhuma passeata contra a sua impunidade
- ele que deveria dar o exemplo.
Eu não estou aqui para dizer que essa meninada
sem rumo é coitadinha. Não. Mas tenho o
direito de perguntar em que condições vieram
ao mundo, que tipo de educação receberam,
qual atenção do poder público mereceram.
E
mais: estou pagando para ver. Estabeleçam idade
penal de 10 anos, como em alguns países, ponham
as Forças Armadas nas ruas, chamem policiais de
outros rincões, façam o que fizerem no campo
isolado da repressão e só terão mais
violência.
Por
isso, pelo amor de Deus, antes de aderir ao primeiro grito
de revanche, pense duas vezes. As leis existem: falta
escopo moral em boa parte dos seus executores.