"Podem
me chamar de antiquado, de atrasado, dizer que estou fora
do mundo atual. Mas não vou defender reformas que
tiram os direitos do trabalhador." (Carlos
Lupi, ministro do Trabalho e presidente do PDT)
Pelo
andar da carruagem, o próximo passo das elites
é exigir a restauração da escravatura.
Não estou exagerando. Mas a torrente de fúria
com que uma certa mídia investiu contra o novo
ministro do Trabalho, por ser brizolista e do PDT, demonstra
que já há uma conspiração
urdida para confiná-lo, acuá-lo e até
derrubá-lo, numa ofensiva sem a menor cerimônia.
Para
justificar a amputação de direitos históricos,
manipulam os números de maneira tão indecente
que até parece que a nossa mão-de-obra é
a mais cara do mundo. Fazem contas para inglês ver,
mas como nosso leitor é descuidado mesmo, é
aqui que enganam. Dizem que um trabalhador custa o dobro
do salário. E somam tudo, como se todo ano dessem
aviso prévio, além de outros enxertos contábeis.
E
fogem do principal: o Brasil paga um dos mais baixos salários
do mundo. Segundo dados recentes, apesar da desvalorização
do dólar, ainda estamos na rabeira em matéria
de salário-mínimo, junto ali da Serra Leoa
e do Haiti. E olha que, para ser justo, o governo Lula
tem dado aumentos no piso acima da inflação.
Salários
mais baixos
Já
os salários médios, não há
comparação. Ganham mal os profissionais
qualificados, garis, professores, médicos, funcionários,
militares, isso falando apenas de algumas categorias cuja
defasagem é mais gritante, em comparação
com outros países, inclusive de economias semelhantes
às nossas.
E quando querem citar exemplos externos, os porta-vozes
das elites mentem na maior. Chegam ao cúmulo de
dizer que há um verdadeiro regime escravo na China
em função dos valores em dólar de
uma moeda deliberadamente desvalorizada.
E
esquecem de dizer que o chinês tem educação
de verdade, assistência médica e cuidados
sociais do Estado desde o parto e não pode gastar
com habitação mais de 10% do salário.
Omitem os custos baixos dos alimentos e escondem toda
uma atenção ao homem, inclusive aos idosos,
sem prejuízo (ou até por isso) do crescimento
da economia.
Os
poderes públicos não se sentem nem um pouco
comprometidos com ninguém - cada um que se vire
de acordo com suas possibilidades pessoais. E para facilitar
o lado dos poderosos, oferece-lhes uma boa massa de desempregados,
a tal reserva já prevista por Marx no Século
XIX.
Nos
dias de hoje, aliás, assistimos à curva
descendente da remuneração do trabalho.
Uma empresa demite um determinado técnico e põe
outro em seu lugar, ganhando menos. O demitido vai procurar
emprego e já sabe que também vai ter uma
menor renda.
Dizer
que a redução dos direitos trabalhistas
será a panacéia para o caos social é
uma falácia muito cínica. No entanto, é
isso que propalam e repetem como doutores da manipulação
dos números.
Informais
ganham mais
Há
dois tipos de trabalhadores: os que gozam da proteção
da legislação trabalhista e os que vivem
na informalidade. A única receita que propõem
para estes últimos é o sacrifício
dos primeiros, como se, surrupiando os direitos, fossem
aparecer 40 milhões de empregos para quem está
vivendo "por conta própria".
Ora,
quem tem carteira assinada e ganha alguma coisa, se a
mulher também trabalha, é obrigado a fazer
despesas que não existiam há trinta anos,
como pagar escolas particulares em todos os níveis
e alimentar caríssimos planos de saúde,
contingência decorrente do sucateamento proposital
dos serviços públicos que são direitos
constitucionais e obrigações do Estado.
Como
têm o controle da mídia, dizem que só
"reduzindo o custo da folha de pagamento" o
mercado poderá absorver quem não tem carteira
assinada. Só não dizem que quem está
vivendo como camelô, por exemplo, ganha o triplo
do que ganharia batendo o cartão numa empresa,
conforme seu nível de instrução.
Se
o governo quiser encarar a situação dos
informais, não precisa fazer mais do que reconhecer
a condição de autônomos, estabelecendo
uma alíquota previdenciária compatível.
Da mesma forma, como os municípios adotam tabelas
de ISS para profissionais liberais, poderia estabelecer
algum tributo segundo as leis de microempresas já
em vigor.
Quando
Carlos Lupi foi ser ministro do Trabalho, o presidente
da República sabia muito bem que suas convicções
não resultam de encenações eleitoreiras.
Os trabalhistas demonstraram que o País só
tem a crescer com o fortalecimento do trabalhador desde
o tempo de Getúlio Vargas, do governo JK (de que
participaram) e de João Goulart.
O
grande problema é a influência dos formadores
de opinião, jornalistas ou não, acordes
com as distorções econômicas, em função
das quais o sistema financeiro dá as cartas e espolia
a atividade produtiva.
Se
o governo quiser enfrentar a questão social, não
vai ser nivelando por baixo que responderá aos
desafios de uma sociedade que precisa crescer. Ao contrário,
não há maior alimentador da economia do
que uma massa assalariada com remuneração
que permita viver sua condição de consumidor
sem pôr a forca no pescoço.
Disso
sabem muito bem os economistas decentes e o próprio
PT. Antes de Lupi, passaram pelo Ministério do
Trabalho os petistas Jacques Wagner, Ricardo Berzoini
e Luiz Marinho. O primeiro ainda quis pôr a mão
numa grande ferida, mas foi convencido a não mexer
no vespeiro.
Ele
chegou a questionar o sistema de terceirização
de mão-de-obra através de "cooperativas"
que operam a burla dos direitos trabalhistas, transformando
cada trabalhador em "cooperado", portanto sem
direito a férias, décimo-terceiro e indenizações.
Essa
praga se espalhou rapidamente e hoje até os poderes
públicos trabalham com tais "cooperativas",
que já são na prática o retrato sem
retoque da "reforma trabalhista" cobrada pelas
elites.
De
onde se pode inferir que o que se pretende mesmo é
legitimar uma espécie de "trabalho escravo
do Século XXI", coisa que, se instalada, jamais
poderá ter a chancela de um brizolista.