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A/C Sra. Marlise Ferreira de Souza
Diretora do Abrigo Cristo Redentor

Sra. Marlise.

Meu nome é Aline de Freitas, sou ativistas de direitos humanos, com ênfase nas questões de gênero e concomitantemente também em relação às pessoas trans (transexuais e travestis).

Me foi encaminhada uma mensagem incluindo o teor de uma matéria publicada no jornal do Sindicato dos Servidores Federais do Rio de Janeiro. Nesta matéria há denúncias de supostas irregularidades no Abrigo Cristo Redentor, entre as quais sobre "o uso do banheiro e vestiário feminino por indivíduos do 'sexo masculino' ". Os tais indivíduos do "sexo masculino" na verdade seriam mulheres transexuais e travestis, estagiárias do projeto Damas, projeto este que visa encaminhar as trans para o mercado formal de trabalho.

Fico muito feliz em saber que a Sra. como diretora do Abrigo, têm muito defendido os direitos das trans, dos quais o direito à identidade feminina, ao defende-las pelo direito de utilizar os banheiros femininos, tal qual suas identidades. Vivendo nós em uma sociedade extremamente sexista e genitalista, saber que há pessoas corajosas e parceiras como a Sra. me faz acreditar que podemos sim, mudar esta sociedade, que podemos sim almejar um horizonte onde transexuais e travestis possam ter seus direitos e suas identidades não apenas respeitadas mas reconhecidas. Me faz acreditar que uma sociedade livre e igualitária não é mera utopia rebelde.

Receba, Sra. Marlise, meus sinceros agradecimentos.

Gostaria de compartilhar também o texto de um manifesto para uma campanha construida no ano passado, contra banheiros alternativos para transexuais e travestis. Na época, a Câmara Municipal de Nova Iguaçú havia aprovado um projeto que estabelecia a criação de banheiros alternativos em lugares públicos para pessoas trans. Com a campanha, o prefeito de Nova Iguaçú, Lindenberg Farias vetou o projeto.

Forte abraço,
Aline de Freitas


MANIFESTO CONTRA BANHEIROS ALTERNATIVOS

Banheiros foram históricamente um lugar no qual pessoas com poder, autoridade ou riqueza negavam acesso a outras pessoas. Há uma centena de anos atrás apenas pessoas com posses poderiam se dar ao luxo de terem banheiros em suas casas. Os pobres eram forçadas a usar sujos e fétidos banheiros públicos.

Nos Estados Unidos, até não muito tempo atrás, banheiros públicos eram divididos entre "brancos" e "pessas de cor". Os banheiros reservados a "pessoas de cor" assim como os espaços reservados para tais pessoas em restautantes e transportes públicos eram muito mais inconvenientes e não-higienizados que as mesmas facilidades reservadas às pessoas brancas.

A eliminação destes espaços se deu sob a insígnia de que separar significa no mais das vezes segregar.

Vivemos numa sociedade moldada a beneficiar alguns poucos. E a manutenção deste poder se dá atravéz da exclusão de muitos. O ódio transfóbico é o sentimento de rechaço contra todas as pessoas que não seguem os padrões de gênero determinados para o corpo biológico que possuem. Muitas pessoas trans se encontram no fim do espectro da aceitação social, fruto de uma cadeia de mecanismos de repressão que impossibilitam muitas vezes que tenham os requisitos mínimos de sobrevivência social.Incontável o número de homens e mulheres trans que sofrem rejeição e repressão familiar violenta quando começam a manifestar tendências para o gênero oposto. As escolas oferecem ambiente absolutamente repressivo quando professores e diretores desinformados sobre as questões comportamentais humanas reproduzem esquemas repressivos socialmente existentes. Sem falar nas barreiras para obtenção de empregos levando muitas pessoas trans para a marginalizaçao, e muitas vezes prostituição.

As questões que envolvem transexuais e travestis dizem respeito a identidade de gênero. Diz respeito a nossa constituição enquanto pessoas, como vemos a nós mesmos, seja como mulheres ou como homens. A principal demanda das pessoas trans é o reconhecimento de suas identidades. O livre acesso a qualquer facilidade deve ser de acordo com a identidade de gênero da pessoa.

Uma pessoa que vê a si mesma como uma mulher deve ser reconhecida como MULHER e deve ter garantido seu acesso ao banheiro feminino. Da mesma forma, uma pessoa que vê a si mesmo como um homem é antes de tudo um HOMEM e deve ter garantido seu acesso ao banheiro masculino. A GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS DAS PESSOAS TRANSEXUAIS E TRAVESTIS NÃO SE DÁ COM A CRIAÇÃO DE BANHEIROS DIFERENCIADOS, MAS SIM NA INCLUSÃO DESTAS PESSOAS NOS BANHEIROS JÁ EXISTENTES. Só desta forma as pessoas trans estarão incluídas socialmente, e não segregadas.Não somos seres anômalos, mas sim humanos, que merecem RESPEITO.

O incômoda da presença trans nos banheiros convencionais é o incômodo racista ante a presença negra, é o incômodo xenofóbico contra o estrangeiro, o nordestino, o outro, este estranho. INCÔMODO. O ódio irracional, a rejeição, a repulsa ante @ diferente. É o incômodo nazista que fez dizimar milhões o milhões de seres humanos nos fornos de Auschwitz, é o incômodo dos invasores europeus ante os habitantes originais da Pachamama, o grande massacre que se sucedeu e o oceano de sangue jorrado dos seus corpos inocentes, despedaçados pelo escárnio do invasor. É o incômodo da criança faminta na esquina, ignorada pelo olhar esnobe. O incomodo ante os inúteis, ante os doentes, os velhos, os inválidos, antes aqueles que de nada valem.

NÃO QUEREMOS BANHEIROS ALTERNATIVOS, QUEREMOS QUE TRANSEXUAIS E TRAVESTIS POSSAM USAR OS BANHEIROS JÁ EXISTENTES SEM DISCRIMINAÇÃO!

Aline de Freitas

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