"Os
chacais estão sempre presentes, espreitando nas
sombras. Quando eles aparecem, os chefes de Estado são
derrubados ou mortos em violentos `acidentes'". (John
Perkins, ex-agente da CIA, em seu livro "Confissões
de um assassino econômico".)
Em
sua riquíssima coletânea sobre o folclore
político brasileiro, Sebastião Nery fala
de um "diálogo" entre o presidente Vargas
e o general Góes Monteiro, seu ministro da Guerra
na época. Getúlio estava preocupado com
a crise econômica e queria uma sugestão do
seu ministro:
-
É simples. A gente declara guerra aos Estados Unidos.
Os americanos ganham e vão ter que resolver nossos
problemas.
O presidente pensou por algum tempo e indagou:
- E se a gente ganhar a guerra?
Lembro
dessa historinha a propósito do resultado do referendo
da Venezuela, que deixou literalmente todo mundo sem saber
o que dizer ou, como sempre, revestindo das suas idiossincrasias
a interpretação de um "empate técnico"
(diferença de 1.4% ou 124.962 votos num total de
8.883.746 válidos) que, como admitiu o general
dissidente Raul Baduel, o ex-ministro da Defesa que, prevendo
a derrota do não, já prepara uma denúncia
de "fraude constituinte", não teve vencedores.
A
primeira pergunta que me veio à cabeça quando
o presidente Chávez reconheceu a vitória
do "não" com 82% dos votos contados foi:
e se o sim tivesse vencido por essa margem mínima
de votos?
Com
toda certeza, a grande mídia e a embaixada norte-americana
em Caracas, que foi ativíssima em todo o processo
(articulada dentro da "Operação Tenaza"
da CIA), estariam batendo em todas as portas e em todas
as teclas para questionar o resultado.
Vitória
de pirro
A
apertada maioria do "não", definida por
Chávez como "uma vitória de pirro",
só aparece na grande imprensa como a rejeição
da intenção do "ditador venezuelano
de perpetuar-se no poder" através do fim da
restrição ao direito à reeleição.
Não
ocorreu a nenhum órgão informar a proposta
com toda a abrangência, o que lembra a máxima
do escritor John Peers: "A informação
que temos não é a que desejamos. A informação
que desejamos não é a que precisamos. A
informação que precisamos não está
disponível".
Não
se disse sequer que se faziam duas perguntas aos eleitores:
uma, com as 33 mudanças propostas pelo presidente,
e outra com as 36 emendas surgidas dentro da Assembléia
unicameral (outro avanço em relação
ao poder legislativo).
Empenhada
em dizer que o direito à reeleição
perpetuaria Chávez no Poder, essa imprensa sequer
se referiu a uma das poucas impropriedades da reforma:
a prorrogação do mandato do presidente e
governadores de 6 para 7 anos.
Enquanto
a coligação temporária pelo "não"
optou por propagar na Venezuela que não estava
em jogo a figura de Chávez, que ganhou todas as
eleições de que participou, para fora do
país se disseminou a idéia de que os adversários
do "sim" eram os paladinos da democracia e os
estudantes da Universidade Católica Andrés
Bello, liderados por Yon Goicoechea, morador do bairro
rico de San Antonio, eram meros defensores do estado de
direito ameaçado.
De
fato, a reforma proposta tinha a essência da audácia
messiânica de um jovem tenente-coronel de 53 anos,
que já lia obras revolucionárias quando,
como tenente, integrava tropas que combatiam a guerrilha
da FALN nos estados de Falcón e Mérida.
Não
tendo sido aluno da Escola das Américas, na qual
o Exército norte-americano fazia a lavagem cerebral
dos oficiais latino-americanos, criou um pequeno grupo
de militares indignados com a corrupção
explícita, graças à qual, depois
do boom do petróleo de 1973 (quando o barril subiu
de 3 para 14 dólares), a Venezuela mergulhou numa
grande crise econômica - o dinheiro do óleo
havia ido para o bolso de uma meia dúzia de políticos
e empresários ladrões.
O
mito da invencibilidade
Homem
do interior, nascido numa cidade pequena do Estado de
Barinas, filho de professores, Chávez emergiu a
partir da fracassada tentativa de golpe encabeçada
por ele, em 1992, quando assumiu toda a responsabilidade
pela quartelada. Naqueles dias, o país vivia um
clima de grande ebulição, em meio ao desemprego
em massa e à roubalheira encabeçada pelo
presidente Carlos Andrés Perez, que mais tarde
foi condenado como ladrão dos cofres públicos.
Anistiado
no governo seguinte, depois de dois anos na cadeia, passou
a se dedicar a uma organização política
nas periferias, o que lhe valeu a primeira vitória
em 1998, quando foi eleito presidente com 55% dos votos.
Já então expunha claramente a visão
de que o combate à corrupção só
seria vitorioso com profundas transformações
econômicas e sociais.
Submeteu-se
então a vários referendos e eleições,
que produziram a Constituição "bolivariana"
de 1999, aprovada por 72% dos eleitores. Ao partir claramente
para o confronto com a elite venezuelana (que vivia mais
em Miami), e com os Estados Unidos de George Bush, escolheu
um caminho atípico: enquanto contrariava seus interesses,
tinha contra ele todas as redes de televisão, os
jornais e as rádios, que até hoje dizem
o que querem livremente, num clima de liberdade de que
também não se fala.
Sua
vitória sobre o golpe de abril de 2002, no qual
estavam envolvidos a alta hierarquia militar, o clero,
os grandes empresários, a embaixada americana e
quase toda a mídia, gerou o mito da invencibilidade,
confirmado num referendo sobre seu mandato, em 2004, e
na tranqüila vitória eleitoral de 2006.
Com
isso, ele se sentiu à vontade para propor medidas
altamente explosivas, como o fim da "autonomia"
do Banco Central, a semana de 36 horas de trabalho, a
incorporação dos informais ao regime previdenciário,
o voto a partir dos 16 anos e mudanças educacionais
que garantiriam o acesso prioritário dos pobres
à universidade pública gratuita, como já
acontece na Universidade Simon Bolívar, que criou
onde antes funcionava o luxuoso edifício da PDVSA,
a estatal de petróleo.
Isso
tudo foi embarreirado pelo "não", que,
por conta de escassa maioria, terá um peso muito
pequeno no destino do presidente, com mais cinco anos
de mandato, e uma primeira topada, o que certamente o
levará a uma avaliação de alguns
erros, como já mencionou, e a uma compreensão
de que num regime democrático, que ele respeita
apesar do estigma de "ditador", ninguém
é invencível.
De
onde concluo, por hoje, que ele acabou sendo o grande
vitorioso numa derrota que expõe um verdadeiro
"empate técnico".
Pedro
Porfírio