A
vitória da derrota no "empate técnico"
(II)
"Embora
as medidas iniciais do governo para permitir atingir a
orientação da sua `Terceira Via' não
fossem um ataque ao capitalismo em si mesmo, a reação
da oligarquia privilegiada da Venezuela (apoiada totalmente
pelo imperialismo americano) mobilizou as massas
nos locais de trabalho e nas comunidades e conduziu a
Revolução Bolivariana por um caminho que
se foi afastando do capitalismo". (Michael
A. Lebowitz, professor na Universidade Simon Fraser -
Canadá - e autor do livro "Build it now: Socialism
for the 21st century")
Quando
estive em Caracas, no auge da campanha presidencial de
2006, fui visitar e entrevistar Douglas Bravo, ex-líder
da guerrilha venezuelana das décadas de sessenta
e setenta, considerado o primeiro a influenciar Hugo Chávez,
com quem partilhou de reuniões clandestinas até
1991, quando se desentenderam.
Pessoalmente,
vivia uma emoção semelhante à do
dia em que conheci e conversei com Che Guevara, nos meus
17 anos de precoce envolvimento político. Com o
legendário guerrilheiro argentino-cubano teria
outros papos informais, já nos anos 61/62, período
em que, apesar de muito jovem, trabalhei em Havana como
jornalista.
Mas
Douglas Bravo era para mim apenas uma referência
a distância. Nos anos sessenta, acompanhava as façanhas
de suas Forças Armadas de Libertação
Nacional nos Estados de Falcón e Mérida
e o considerava o mais consistente líder guerrilheiro
da América do Sul.
Ao
ir ao encontro de Douglas Bravo em companhia do jovem
jornalista Wellington Mesquita, que já estava em
Caracas há uns seis meses, eu sabia de suas opiniões
críticas sobre o presidente Chávez. Só
não esperava que fossem tão radicais e ferinas.
"Oposição
de esquerda"
Apesar
dos seus 75 anos de idade, ele parecia bastante conservado
e disposto a sustentar o confronto com o seu "ex-parceiro",
a quem acusava de fazer um discurso antiimperialista,
enquanto legitimava os contratos de exploração
do petróleo, através de companhias mistas,
com as multinacionais estrangeiras, além de legalizar
propriedades rurais, "griladas por fazendeiros ao
longo dos anos", em troca de uma reforma agrária
pontual.
Apesar
do clima emocional daquele encontro num apartamento modesto
da Avenida Bolívar, eu e o jornalista Wellington
Mesquita (hoje da Rádio Jovem Pan, em São
Paulo) ficamos sem entender a postura intransigente de
um antigo marxista, que se aliava, ainda que indiretamente,
à oposição de direita, já
enxertada por outro ex-guerrilheiro comunista, Teodoro
Petkoff, fundador do partido Movimiento al Socialismo
e hoje dono de um jornal sustentado pela fina flor da
elite venezuelana.
Douglas
Bravo garantiu que não tinha nenhum contato com
os adversários tradicionais de Chávez, embora,
por aqueles dias, seu nome tivesse aparecido no livro
"La CIA en Venezuela", do professor José
Sant Roz, entre os colaboradores da agência norte-americana
de espionagem.
Apesar
da conversa de 2006, eu imaginava que a reforma constitucional
de inspiração socialista iria reaproximar
o ex-guerrilheiro do principal alvo da campanha orquestrada
pelas elites da Venezuela e pelo governo Bush. Afinal,
como conta o biógrafo Alberto Garrido, "Chávez
teve uma intensa relação de discípulo
com Douglas Bravo, com quem rompeu em 1991".
No
entanto, ao lado dos trotskistas radicais, Bravo subiu
ao mesmo palanque dos partidos de direita. No dia 25 de
novembro, a uma semana do referendo, reuniu ex-guerrilheiros
e militantes da sua esquerda para proclamar seu apoio
oficial ao "não".
Na
sua visão, a mudança da Constituição,
aprovada na Assembléia Nacional e rejeitada no
último dia 2, introduziria não uma democracia
direta, como afirma Chávez, mas um controle "militarista"
sobre a população. "A Constituição
de 1999 era neoliberal, mas parlamentar", disse Bravo,
referindo-se à Carta aprovada no primeiro ano do
primeiro mandato de Chávez. "A de 2007 é
militarista."
Aliança
de ocasião
E
foi ainda mais incisivo ao dizer que Chávez firmou
um "pacto" com o Grupo Cisneros, o maior do
país (dono da Venevison, a maior rede de TV e de
outras grandes empresas), que teria abandonado uma posição
crítica e passado a apoiar o governo. "Precisamos
de um pacto popular, que substitua o pacto Cisneros-Chávez-Carter",
propôs aos militantes de esquerda, numa referência
a um encontro entre Chávez e o empresário
Gustavo Cisneros, mediado pelo ex-presidente americano
Jimmy Carter, em 2004.
Do
mesmo grupo, o ideólogo marxista e professor da
Universidade Yacambu Pablo Hernández ressaltou
que "a essência da reforma" está
na legalização das empresas de economia
mista para a exploração do petróleo
e dos outros recursos minerais, um retrocesso, na visão
dele, em relação à nacionalização
de 1976.
Os
organizadores do encontro disseram que vinham mantendo
contatos com o general Raúl Isaías Baduel,
ex-comandante do Exército, que rompeu com Chávez
em outubro, meses depois de passar para a reserva com
um discurso contrário à proposta de uma
sociedade socialista, anunciando, na véspera do
referendo, que se o "sim" ganhasse, iria contestar
seu resultado no Judiciário.
Tal
também foi a postura de outro ex-guerrilheiro,
Francisco Prada Barazarte, que conheci no apartamento
de Douglas Bravo, que declarou em Trujillo, no dia 18
de novembro, que a reforma proposta por Chávez
e combatida ostensivamente por Bush "lesiona, como
jamais se havia proposto antes, os interesses da Venezuela
e sua soberania".
Como
você vê, na hora em que aparece um líder
autóctone deste lado do equador, o sistema internacional
sabe muito bem tirar proveito de conflitos, sentimentos
rancorosos e variações do esquerdismo para
obter uma vitória de pirro, o que não deixa
de ser divertido.
Muitos
dos que torciam pela derrota de Chávez o consideram
"um perigoso comunista", até porque,
submetidos a uma lobotomia virtual ou submissos aos donos
do mundo, são capazes de desfilar com a bandeira
norte-americana, como fez um jovem na comemoração
do "não", segundo relato do jornalista
Luiz Carlos Azenha (youtube).
Isso,
no entanto, só serve para confirmar minha convicção
de que se deu na Venezuela uma irônica vitória
da derrota no "empate técnico", que fará
ainda muita água correr por baixo da ponte.
coluna@pedroporfirio.com