| Carnaval
sem fim
"Os
miseráveis não têm outro remédio
a não ser a esperança."
(William Shakespeare - 1564/1616)
Disseram
que o carnaval acabou nas cinzas da quarta-feira. Erraram.
O carnaval não acabou na quarta e nem acabará
jamais. Como enxerto profundo em nossas vidas, ele apenas
muda de cenário. Não vai parar só porque
o tamborim aquietou-se. Vive-se neste País, mais
do que em qualquer outro, sob o império de uma interminável
folia.
Faz
muito, seu espectro paira sobre esta sociedade que, sem
perceber, foi mesclando realidade e fantasias, como se uma
fosse irmã siamesa da outra. Quando começou
no sábado, o carnaval já estava incrustado
em cada brasileiro - folião ou não. No seu
presumível epílogo, passa a ocupar uma gerência
no instituto do comportamento humano.
A
fantasia de cada um
Não
falo do carnaval do Rio de Janeiro, e espetáculo
do entretenimento produzido para consumo daqui e d'além
mar. Não quero me ater à constatação
de que ele está cada vez mais "branco",
mais relevante pela quantidade de mulheres bonitas e pelos
cuidados cênicos e tecnológicos que seus artífices
cultivam.
É
isso e não adianta falar de raízes. Uma fantasia
de uma ala não sai por menos de dois salários
mínimos. Fora a bateria, as baianas e uma ou outra
"ala da comunidade" a escola de samba cobra para
que você tenha o seu minuto de avenida.
Os
chefes de alas já estão profissionalizados.
Recebem os desenhos dos figurinos e fazem a arrecadação,
que não aparece na contabilidade da "firma".
Há deles que têm franquias em três, quatro
escolas. E muitos dos seus clientes também, em tendo
dinheiro, gostam de sair por tantas quantas for possível.
Nalguma chegam ao orgasmo.
Mas
esse é o preço do grande espetáculo,
que foi transmitido pela televisão para 60 países.
Quem vai para a Sapucaí, assim, extrapola o mero
"espírito folião". Vai para entrar
no grande circo, sem o qual o existencial não experimentaria
prazeres compensatórios "interativos",
como é "recorrente".
Nesse
clima em que realidade e fantasia se alimentam mutuamente,
o fenômeno dos grandes camarotes expõe o seu
caráter explicitamente comercial. A atriz Susana
Vieira, apesar dos 14 anos de casa, não desfilou
pela Grande Rio porque, contando com patrocínio da
cerveja Itaipava, a escola de Caxias não permitia
que ela, ou qualquer outra "celebridade" do seu
plantel, freqüentasse o badalado camarote da Brahma.
Isso
é parte de uma realidade que sujeita o caráter
amador da manifestação carnavalesca a uma
estrutura real de interesses que impõe regras rígidas,
semelhantes aos profissionais presos por contratos comerciais.
Não
falo do tão badalado carnaval da Bahia. Não
falo porque dizem que é uma grande festa popular,
onde não há a supervalorização
de escolas de samba "profissionalizadas".
Só não entendo essa história do abadá.
Vi pela televisão cambistas vendendo tal indumentária
por mais de R$ 1.000,00 (o preço normal seria R$
800,00). Só pode entrar nos blocos e acompanhar os
trios elétricos quem tiver dentro dessa fantasia
devidamente autenticada. Logo lá também o
popular sai caro.
A
grande passeata
O
que me tocou, em especial, foi a participação
maciça dos pernambucanos no Galo da Madrugada, um
bloco sem cordões, registrado no Guiness como o maior
do mundo, ao qual se juntaram dois milhões de foliões.
Isso significa bem mais do que toda a população
de Recife, que é de 1 milhão 450 mil habitantes
(43% dos moradores da Região Metropolitana).
Pelas
imagens que vi, em alguns pontos, as pessoas simplesmente
caminhavam. Mas estavam ali, naquele tumulto, com a mesma
disposição dos muçulmanos que vão
à Meca nos dias sagrados do Ramadã.
Ao
contemplar aquela massa apinhada no centro de Recife, fiz-me
uma pergunta despropositada: quantos desses estão
desempregados ou ganhando míseros salários?
Quantos brigariam por uma escola pública de qualidade
ou um sistema de saúde decente? Quantos sairiam de
casa para um outro tipo de manifestação, uma
passeata de protesto ou simplesmente reivindicativa?
Você
dirá que não tem nada a ver, que eu estou
questionando um dos poucos momentos de descontração,
alegria e "felicidade" dessa multidão.
Que se não fosse essa válvula de escape o
sofrimento seria maior.
Pode
ser que você esteja certo e eu, errado. Mas já
tirei minhas próprias conclusões. Essa concentração
humana na participação em um bloco carnavalesco
dessa magnitude é um lenitivo compensatório
que transcende os dias de festa.
Isso
quer dizer que seus efeitos implosivos são assimilados
numa seqüência ininterrupta. Ali, no ambiente
de descontração, onde as hierarquias amortecem,
onde se imagina o exercício pleno da liberdade, vence-se
a batalha perdida ao longo do ano. Perde-se com a rotina
fatal, mas essa vitória é que conta.
Há
um elemento oposto à manifestação religiosa,
que também mobiliza multidões. Neste caso,
os homens se reúnem para clamar aos céus,
pedir a Deus; naquele, possuem-se da sensação
de que estão fazendo o que lhes vêm à
cabeça com as próprias mãos, no encontro
e no confronto de iguais.
Num, tornamo-nos prisioneiros de promessas e esperanças;
noutro, do desejo saciado. Ambos remetem ao âmago
da nossa fragilidade assumida.
Decididamente,
a cada geração, os seres humanos encontram
nas pequenas coisas, qualquer coisa, suas grandes paixões.
E nelas se bastam.
Curiosamente,
por mais individualistas que se sintam como da essência
das sociedades refratárias a compromissos coletivos,
praticam cada um a anulação de sua individualidade.
Submetem-se, antes, à pauta imposta por cada momento,
de forma a nunca irem às profundezas de nada.
Eu
mesmo, enquanto cronista, padeço dessa condicionante.
Queria falar hoje de uma grande torpeza - o que continuam
fazendo com os aposentados do Aerus - e, no entanto, estou
aqui rendendo-me ao que está na boca de todos.
Tudo
para dizer que no País dos sonhos efêmeros
o carnaval é um hábito essencial e sem fim.
E sem começo. Porque as ilusões compensatórias
e as fantasias multicores são ingredientes de nossas
almas.
Pedro
Porfírio |