| Foi
riquíssimo o Seminário sobre o PAC e a Saúde:
veja abaixo o documento que produzimos!
Temos
que esclarecer que, como o evento foi convocado de forma
tripartite (Governo, Conselho Nacional de Saúde e
ABRASCO), o relatório final oficial ficou um pouco
ajustado aos trâmites do Ministério da Saúde.
No entanto, tendo em vista a riqueza das discussões,
Lia Giraldo e eu resolvemos enviar para as listas do FBOMS
e da RBJA a versão não oficial, de cuja elaboração
participamos na relatoria, por atender melhor à perspectiva
do movimento social.
Neste sentido, assumimos esta iniciativa como participantes
do evento, sem nenhum caráter de representação,
com o objetivo de tornar alguns aspectos mais claros e que
são fiés ao que foi debatido.
Nosso desejo é que estas questões sejam veiculadas
nas Conferências de Saúde, da Cidade e do Meio
Ambiente, além de nossas redes: contamos com vcs!
Abraço
forte,
Raquel Rigotto e Lia Giraldo
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PARA
GARANTIR O DIREITO À SAÚDE NO PAC
SEMINÁRIO
SOBRE SAÚDE AMBIENTAL E SAÚDE DO TRABALHADOR
E SUAS INTERFACES COM O PROGRAMA DE ACELERAÇÃO
DO CRESCIMENTO – PAC
O Seminário, realizado em Brasília, nos dias
25 a 27 de setembro de 2007, para refletir sobre a Saúde
Ambiental e Saúde do Trabalhador no contexto do Programa
de Aceleração do Crescimento do Governo Federal
- PAC, foi promovido pelo Grupo Temático de Saúde
e Ambiente da Associação Brasileira de Pós-Graduação
em Saúde Coletiva - ABRASCO; áreas de Saúde
Ambiental e Saúde do Trabalhador da Secretaria de
Vigilância à Saúde – SVS/MS e
do Conselho Nacional de Saúde – CNS, por meio
da Comissão Intersetorial de Saneamento e Meio Ambiente
- CISAMA.
Com o objetivo de melhor conhecer o PAC, a Secretaria Geral
da Presidência da República apresentou o conjunto
de medidas administrativas e jurídicas que visam
"remover os obstáculos ao crescimento",
bem como os três eixos de infra-estrutura –
logística (rodovias, ferrovias, portos, aeroportos,
etc); energética ( geração e transmissão
de energia hidrelétrica, petróleo, gás
natural e combustível renovável); social urbano
(habitação, saneamento, luz para todos, recursos
hídricos e metrôs). São ao todo 3.212
ações distribuídas em todo o país,
com recursos da ordem de 503,9 bilhões de reais entre
2007 e 2010.
A análise deste Plano foi realizada por diferentes
expositores <!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]-->,
na perspectiva da sustentabilidade sócio-ambiental.
Foi considerado que o PAC está centrado num "crescimentismo"
que não responde a um projeto de nação
que enfrente os desafios sociais e ambientais, de forma
não excludente, democrática e justa, protegendo
os mais vulneráveis. Submete-se a uma lógica
injusta no contexto internacional, e aos interesses do capital
privado, viabilizando, com recursos públicos, a expansão
do agronegócio, da cadeia do ferro-aço e da
bauxita-alumínio – eletro-intensivas, para
exportar commodities, não priorizando o mercado interno.
Numerosos projetos setoriais incidem sobre o território,
de maneira desintegrada, lembrando ciclos já vividos
de crescimento rápido no país, acompanhados
de concentração de renda, uso intensivo de
recursos naturais, reprodução de desigualdades
regionais e sociais, e seguidos de colapso econômico,
social e ambiental.
Ao analisar os diversos projetos de usinas hidrelétricas,
foi enfatizado que o Relatório da Comissão
Mundial de Barragens, em 2001, concluiu que as grandes barragens
fracassaram na produção de eletricidade, na
irrigação e na regulação de
cheias; tiveram custos sempre maiores que o previsto; causaram
enormes impactos ambientais e sociais não mitigados,
atingindo principalmente indígenas e outros grupos
étnicos; deslocaram mais de 40 milhões de
pessoas no mundo, e estão emitindo gases de efeito
estufa. Vários são os impactos sobre a saúde:
o afluxo de trabalhadores barrageiros e a maior circulação
de equipamentos e caminhões levaram a novas doenças,
inclusive as sexualmente transmissíveis e outras
infecciosas; sofrimento psíquico e estresse social
– especialmente em idosos; o comprometimento da segurança
alimentar, entre outros.
Na abordagem dos agrocombustíveis, foi evidenciada
a acelerada expansão da área plantada com
a monocultura da cana, refletindo sobre a produção
e o preço de alimentos. À concentração
de terra e capital, associa-se a exploração
do trabalho – penoso e extenuante – de migrantes
(mal) pagos por uma crescente produtividade imposta, que
já levou vários à morte, além
das lesões osteomusculares e das intoxicações
por agrotóxicos. A contaminação atmosférica
pelas queimadas, do solo e da água por vinhoto e
agrotóxicos – inclusive do aqüífero
Guarani, o elevado consumo de água na produção
do etanol, a degradação do solo e a redução
da biodiversidade são impactos ambientais a serem
considerados.
A proposta de transposição do rio São
Francisco – incluída no eixo social-urbano,
foi contrastada com o estudo feito pela Agência Nacional
de Águas, que mostra que, com a metade dos recursos
destinados à transposição, se investidos
na construção de adutoras, poderia-se abastecer
três vezes mais pessoas. A estas iniciativas podem
somar-se a interligação de bacias, cisternas
de água de chuva, dessalinização, uso
da água do subsolo, reuso de águas servidas,
gerenciadas para as necessidades do povo. Já as águas
da transposição destinam-se basicamente ao
grande capital, consignado na fruticultura, na carcinicultura
e na siderurgia – todas para exportação.
Reconhece-se, entretanto, que a revitalização
do rio será favorecida pelos investimentos em saneamento
em sua calha.
Quanto aos recursos previstos para o saneamento –
40 bilhões de reais nos quatro anos - ressaltou-se
que jamais o setor foi beneficiado com tal volume na história
do país. Coloca-se, entretanto, o desafio da regulação,
da gestão e fiscalização, da qualidade
das soluções técnicas, da articulação
com outras intervenções nos territórios
urbanos e rurais, e do controle social da aplicação
dos recursos, num setor marcado por práticas de corrupção.
Após ouvir e debater os eixos principais do PAC,
apresentados em mesas redondas, os participantes discutiram
em grupos e em plenária as questões relativas
à saúde ambiental e do trabalhador no contexto
do PAC, bem como as ações necessárias
para garantir o direito à saúde, a serem desencadeadas
no âmbito do Estado; dos movimentos sociais e da academia.
Considerando a magnitude do PAC em seus aspectos econômicos
e de potenciais impactos debateu-se a necessidade de uma
agenda no campo da saúde ambiental e da saúde
do trabalhador, de caráter orientador de curto e
médio prazo, que possibilite a construção
de um processo de sustentabilidade sócio-ambiental
no PAC.
É
de fundamental importância a contextualização
do debate no âmbito das políticas públicas
e em especial do Sistema Único de Saúde, onde
verifica-se a necessidade de reconhecer as vulnerabilidades
do Estado brasileiro, incluindo o caráter neoliberal
da globalização vigente e o processo de reestruturação
da economia, delineando um modelo de desenvolvimento gerador
de transformações sócio-ambientais
que pressionam a saúde das populações
e seus territórios de desenvolvimento humano para
as atuais e futuras gerações.
Em decorrência, há tensões entre os
setores econômicos e sociais do governo e os interesses
populares frente às prioridades definidas no PAC.
No entanto, nos dispositivos constitucionais, o Estado tem
claras responsabilidades em garantir a saúde de todos
e o meio ambiente equilibrado. No seio destas contradições
e conflitos de interesses é urgente se criar competências
locais, especialmente nas áreas de intervenção
do PAC, segundo uma agenda propositiva, que possibilite
atuação na fase de elaboração
dos projetos e durante sua implementação,
como também a posteriori, por meio de monitoramento
permanente.
Segundo os preceitos da saúde pública, estabelecidos
nos artigos 196 e 200 da Constituição Federal
de 1988, é necessária atuação
integrada na promoção, proteção
e recuperação da saúde e na prevenção
de situações de risco, incluindo as condições
de trabalho e ambientais. Neste sentido observa-se que o
setor saúde pouco tem avançado nas práticas
de saúde que garantam o princípio da integralidade.
Na vigência do PAC, esta questão necessita
ser finalmente enfrentada, enquanto oportunidade de retomada
do processo de Reforma Sanitária em seu dinamismo
e profundidade.
Incorporar o princípio da precaução
e o de responsabilidade sócio-ambiental nos projetos
previstos no PAC são requisitos fundamentais a serem
exigidos, no sentido de evitar e minimizar danos à
saúde e ao ambiente nos atuais projetos previstos
pelo PAC. No entanto, não há menção
destas medidas e nem de recursos para tal no PAC.
É
fundamental reconhecer e superar as vulnerabilidades institucionais,
ambientais, de saúde e de conhecimentos para induzir
o fortalecimento das instâncias públicas e
das redes sociais.
A inserção da cidadania nos processos decisórios
das políticas públicas tem se confrontado
com práticas políticas de clientelismo, patrimonialismo,
paternalismo, corrupção e aparelhamento do
Estado, e ainda, com processos corporativistas decorrentes.
Entretanto, há dinâmicas resistências
de grupos sociais que formulam outros projetos para seus
territórios e lugares de vida, os quais, no entanto,
não têm sido suficientemente considerados nos
processos de tomada de decisão.
A baixa escolaridade, a falta de publicização
de informações sobre as implicações
das intervenções sobre o território
e a despolitização social colaboram também
com a ideologia alienante e fatalista dominante, que desfavorecem
o desvelamento das nocividades presentes em diversos processos
produtivos/padrões de consumo, dificultando a emancipação
e organização social em favor da proteção
da saúde e do meio ambiente.
Diversos cenários podem ser construídos, com
base nas experiências passadas e também com
dados sócio-ambientais atuais, bem como medidas preventivas
devem ser imediatamente desencadeadas. Deve-se considerar
o contexto da implementação do PAC como um
estado de alerta para as instituições públicas
responsáveis pela proteção da saúde
e do ambiente. O bônus e o ônus dos empreendimentos
geram iniqüidades sociais e de gênero que se
expressam nos territórios impactados. O conceito
de justiça ambiental é um componente a ser
introduzido no PAC. Isto é, acesso igualitário
aos recursos naturais e aos benefícios do desenvolvimento
e a participação nos processos de tomada de
decisão.
A produção de conhecimento, com autonomia
é um requisito fundamental para que a ciência
possa cumprir seu papel no processo de desenvolvimento social
e humano. As instituições públicas
de ensino e pesquisa devem honrar seu compromisso com o
pensamento crítico e a favor da emancipação
social.
A vigilância em saúde necessita de uma profunda
reformulação na sua prática tradicional,
que é fragmentada e setorial, para uma verdadeira
vigilância da saúde, caracterizada pela integralidade
das ações, mediante processos intersetoriais,
interdisciplinares e participativos, superando a verticalidade
e fortalecendo a horizontalidade das ações
no território, onde se processam as dinâmicas
das lógicas da sociedade e da natureza.
De modo geral, é premente a construção
de agendas específicas no âmbito do Estado,
dos movimentos sociais e das instituições
acadêmicas (segmentos participantes do seminário)
que possibilitam abordagens integradas para os problemas
de saúde frente às situações
de risco emanadas dos processos produtivos, superando-se
assim antigas dicotomias, atitudes autoritárias e
desarticulações incansavelmente diagnosticadas.
PROPOSIÇÕES NO ÂMBITO DO ESTADO
Ampliar
o debate democrático na sociedade sobre o modelo
de desenvolvimento para o país. Debater os empreendimentos
nos locais de intervenção, com amplo processo
de informação e com abertura para o contraditório;
Dotar o planejamento das intervenções e das
políticas públicas de visão territorial
integrada;
Mapear os empreendimentos previstos pelo PAC nos territórios
de intervenção e indicar as situações
de risco e vulnerabilidades sociais, ambientais, institucionais
e de conhecimento. Promover estratégias e ações
para superação das vulnerabilidades e situações
de risco diagnosticadas na direção da proteção
da saúde e do meio ambiente;
Disponibilizar os bancos de dados e torná-los inteligíveis
para pesquisadores, técnicos, profissionais de saúde,
movimentos sociais e cidadãos, que possibilitem a
participação e o conhecimento no planejamento;
nas fontes de financiamento e na execução
das obras previstas no PAC;
Promover a articulação intersetorial na execução
e monitoramento dos projetos mediante diretrizes de governo
e garantidas por medidas gerenciais integradas, avaliadas
segundo indicadores adequados;
Nos três níveis de governo, os setores da saúde,
meio ambiente, infra-estrutura, trabalho/emprego, previdência
social, agricultura e educação devem estar
estruturados para atender integradamente à saúde
dos trabalhadores e das populações que sofrem
o impacto de empreendimentos produtivos ou obras de infra-estrutura;
Internalizar os custos sociais e ambientais no financiamento
dos projetos e nos custos da produção, sem
transferência para a sociedade, alocando recursos
do setor privado para o público nos locais de intervenção,
para garantir uma eficaz atenção à
saúde das populações ali localizadas;
Respeitar a deliberações dos comitês
de bacia, dos conselhos de saúde e outros. Cobrar
o cumprimento das resoluções das conferências
de saúde;
Fomentar linhas de pesquisa de interesse social mediante
os fundos setoriais com prioridades definidas pelo setor
público e com controle social;
Ampliar e fortalecer os quadros de profissionais públicos
nas ações do estado na garantia da saúde
e do meio ambiente com qualidade, especialmente nos locais
de intervenção do PAC. Promover concursos
públicos e de capacitação para que
as ações desenvolvidas sejam qualificadas;
Suspender os subsídios aos empreendimentos privados,
ao invés de abrir mão dos impostos em prejuízo
das políticas públicas;
Os processos licitatórios das obras devem especificar
os cuidados com o ambiente e a saúde do trabalhador
e de outros grupos populacionais vulneráveis. A mesma
preocupação deve estar presente nos financiamentos
pelos Bancos Estatais;
O licenciamento ambiental deve internalizar os aspectos
de saúde no contexto do trabalho e sócio-ambiental
e de suas vulnerabilidades e deve ser realizado mediante
competência técnica, supervisionada pelo Estado,
com transparência metodológica e acessível
ao controle social;
A realização de audiências públicas
deve ser dotada de metodologias que garantam ampla informação
prévia aos segmentos sociais interessados e medidas
que favoreçam a participação especialmente
dos possíveis atingidos, bem como o cuidado na escolha
de data e local de realização que sejam facilitadores
da participação social.
PROPOSIÇÕES NO ÂMBITO DOS MOVIMENTOS
SOCIAIS
Assim,
para construir a sustentabilidade no PAC há que se
fortalecer as iniciativas sociais por meio de processos
de indução e de respeito às instâncias
organizativas da sociedade, coibindo as práticas
de cooptação das organizações
que representam os interesses comuns dos diversos grupos
sociais. A constituição de redes locais, nacionais
e internacionais é um caminho privilegiado de empoderamento
e deve ser fomentada;
Incluir as questões de gênero, étnica,
geracional e de justiça ambiental nas políticas
públicas.
Os conselhos de saúde devem participar ativamente
na discussão sobre medidas de prevenção
e compensatórias nos projetos do PAC para o fortalecimento
do SUS e do próprio controle social. Bem como a participação
efetiva nos processos de licenciamento e de audiências
públicas;
Cobrar educação permanente dos conselheiros
em todos os níveis;
Lutar por aprimorar os instrumentos de participação;
de informação e humanização
dos serviços de saúde;
Exigir Termos de Ajustamento de Conduta mediados pelos Ministérios
Públicos Federal, Estaduais e do Trabalho;
Acionar os Tribunais de Conta dos Estados e da União
para avaliar a efetividade das ações de proteção
da saúde e do meio ambiente.
PROPOSIÇÕES NO ÂMBITO DAS INSTITUIÇÕES
DE ENSINO E PESQUISA
Verifica-se
a necessidade do fortalecimento da autonomia universitária
e dos institutos de pesquisa públicos e de se frear
a crescente influência do financiamento direto por
empresas para as pesquisas e formação de pós-graduação.
Os fundos setoriais devem financiar projetos de pesquisa
de interesse social, segundo prioridades definidas pelo
Estado com transparência e controle social;
As instâncias colegiadas (Ex. CTNBio; CONAMA) que
incorporam representantes da academia devem funcionar eticamente,
com independência e sem pressão dos setores
econômicos;
O componente da inovação tecnológica
deve ser ressignificado à luz de tecnologias favorecedoras
da saúde e da qualidade ambiental. Toda tecnologia
que contraria estes objetivos não pode ser desenvolvida
nas universidades ou institutos públicos. Os conselhos
e comitês de ética devem estar atentos para
estes aspectos (relevância social da pesquisa). A
ciência produzida nestas organizações
deve ser a de uma ciência cidadã;
A academia deve engajar-se na educação popular
mediante projetos de indução e de extensão
universitária que respeitem o saber popular e, também
na formação de competências para os
profissionais do setor público;
Desenvolver indicadores que permitam avaliar os impactos
dos projetos previstos no PAC sobre a saúde das populações
e os ambientes de intervenção. Incorporar
a percepção social nesses estudos e pesquisas;
Constituir-se como instância consultiva à disposição
da sociedade nos processos de licenciamento ambiental, no
monitoramento das intervenções e para avaliar
os impactos do PAC.
Recomenda-se que este Relatório seja levado à
Presidência da República e ao Ministro da Saúde,
divulgado para mídia, a todos os delegados da 13ª.
Conferência Nacional de Saúde; CNS, CONASS,
CONASEMS, ABRASCO, CEBES e para todos os participantes desse
seminário e suas redes.
Este seminário apoiou a recomendação
do CNS No. 005, de 13 de setembro de 2007 sobre o PAC.
Brasília,
27 de setembro de 2007 |