| Vale
reage ao plebiscito popular com mentiras e violência
Conforme a campanha "A Vale é Nossa", pela
nulidade da venda da Vale do Rio Doce (CVRD), ganha intensidade
e se aproxima da semana do plebiscito popular (de 1º
a 7 de setembro), a Companhia joga sua fichas na publicidade
massiva para se contrapor à campanha.
Em horário nobre na televisão, com a voz da
atriz Fernanda Montenegro, a companhia anuncia seu vínculo
com o País e com o meio ambiente. Isso apesar de
os movimentos sociais denunciarem que os rumos da empresa
são decididos, hoje, pelo consórcio Valepar
(que tem a presença do banco Bradesco) e pelos acionistas
preferenciais (62% deles estrangeiros). A Vale ressalta
o seu caráter de preservação do meio
ambiente, quando o trabalho de formação para
o plebiscito aponta o contrário: a produção
da companhia explora a camada vegetal da Amazônia
com o objetivo da exportação.
Brutalidade
No
dia 22 de agosto, a Companhia também apostou na repressão
e no silêncio dos meios massivos como forma de aplacar
o movimento. Em atividade da jornada nacional em defesa
da educação pública, um grupo de 250
estudantes e militantes de movimentos sociais entraram nas
instalações da empresa Ferrovia Centro Atlântica
(FCA), pertencente à Vale, para dar visibilidade
à campanha do plebiscito popular.
Os
estudantes deixavam claro que faziam um protesto pacífico,
para denunciar a venda da Companhia, que foi privatizada
em 1997, com um valor considerado irregular. A polícia
negociava a saída dos manifestantes, porém,
de súbito, a pressão de advogados da Vale
alterou a história e 136 jovens foram algemados e
levados para a delegacia. 27 deles eram menores. As mulheres
foram coagidas pela polícia feminina e submetidas
a revistas íntimas repetidas vezes. A atitude policial,
sob o mando da direção da Vale, gerou inúmeras
notas de repúdio dos movimentos sociais.
Ataque
ao imaginário
Silvio
Mieli, jornalista e professor da faculdade de Comunicação
e Filosofia da PUC-SP, aponta que a escolha de Fernanda
Montenegro para a publicidade da Companhia Vale do Rio Doce
não foi à toa. Primeiro porque uma empresa
pertencente à CVRD já havia patrocinado um
filme estrelado por Fernanda, em 2005, intitulado Casa de
Areia (House of Sand, no título original, em inglês).
Na ótica de Mieli, utilizar uma figura conhecida
como a atriz vincula a marca da empresa a uma idéia
de cultura nacional. Assim como a empresa Nike tenta vincular-se
ao esporte, mais do que apenas anunciar a sua mercadoria.
É
comum observarmos artistas colocando o seu trabalho a serviço
de uma corporação, mesmo que não esteja
necessariamente de acordo com o seu conteúdo. A marca,
segundo o professor da PUC-SP, é a protagonista e
os artistas se sujeitam de modo passivo apenas a ser o veículo
das corporações, em constante ofensiva sobre
o imaginário da sociedade.
Oportunismo
Essa
tática atingiu o seu extremo em 2006 quando a empresa
Aracruz Celulose veiculou uma publicidade, em época
de Copa do Mundo, associando a empresa ao esporte símbolo
da cultura nacional. A propaganda contou com personalidades
como o cantor Seu Jorge e Pelé, enquanto, ao mesmo
tempo, a Aracruz expulsava comunidades indígenas
e quilombolas de áreas no Espírito Santo.
"Em
momentos importantes para o Brasil, ao invés de ajudar
a construir alguma coisa, essas figuras intelectuais e do
meio artístico não reagem ou então
participam de forma domesticada. Se o artista quisesse adotar
esse discurso conservador, tudo bem, mas que fosse a partir
de debates, senão fica uma coisa muito oportunista",
comenta Mieli, para quem esta atitude escapa totalmente
do papel questionador que a arte deve assumir, no campo
simbólico. "O papel do artista não é
o de estetizar o discurso do capital", critica.
Violação
O
Ministério Público do Trabalho (MPT) da cidade
de Marabá, no Pará, realizou na última
semana uma inspeção judicial em duas mineradoras
de propriedade da Companhia Vale do Rio Doce. A ação
foi programada depois que a 1ª Vara do Trabalho do
município de Parauapebas (PA) recebeu mais de oito
mil denúncias trabalhistas nos últimos 18
meses contra a empresa. A inspeção foi realizada
na mina de ferro de Carajás e na mina de cobre de
Sossego.
Segundo
o Ministério do Trabalho, as denúncias em
grande maioria são de horas extras não pagas
e carga horária excessiva dos turnos. Na inspeção,
foi constatada a procedência das denúncias
e o órgão fiscalizador considerou "violação
coletiva dos direitos dos trabalhadores". Foi concluído
que os trabalhadores tinham carga horária de oito
e 12 horas e o tipo de trabalho foi considerado "penoso
e exaustivo".
O
MPT propôs à companhia assinar um Termo de
Ajustamento de Conduta. A estatal tem um prazo de dez dias
para dar resposta e se rejeitar a proposta, o caso deve
ser levado à Justiça do Trabalho. De acordo
com o procurador do trabalho, Francisco Cruz, se multada,
a empresa deverá pagar R$ 69 milhões em indenizações.
Brasil
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