| CENTRO
CULTURAL DA MARÉ VIRA UM QUILOMBO DE ARTES
A
sonoridade primitiva dos blocos afros; a delicadeza
de um chorinho executado por crianças; o som
penetrante de guitarras se espalhando pelo ambiente;
a contemporaneidade da dança dos adolescentes;
a plasticidade de um movimento dos capoeiristas...
enfim, o Centro de Artes e Cultura Popular da Maré,
com apenas sete meses de fundação, acabou
se transformando no sábado, 14 de abril, num
quilombo de artes devido à variada presença
de grupos artísticos trabalhando nos três
andares do prédio, no Timbau.
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A expressão “quilombo de artes” foi utilizada
por Reynaldo Cunha de Jesus, presidente da Asfunrio - que
patrocina a experiência cultural na comunidade -,
ao ver vários grupos de música, teatro, dança,
rock e esportes se apresentando nas diversas dependências
do Centro Cultural.
“Isso aqui não pára. Fica aberto de
segunda a segunda para quem quiser se apresentar ou ensaiar
suas produções culturais”, informou
ele, acompanhado do ambientalista Sérgio Ricardo,
da ONG Verdejar, e de Maria Aparecida Moreira Moraes, que
representava Helio Mattos, prefeito da UFRJ, no super-evento.
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“Estou
amando. Está muito bonito as apresentações”,
disse Maria Aparecida, emocionada, ao circular pelas
diversas dependências do imóvel, onde
pôde constatar a multiplicidade de apresentações
de grupos jovens. Ela representava no local o prefeito
Hélio Mattos da UFRJ. Segundo Maria Aparecida,
a prefeitura da UFRJ poderá ajudar as entidades
e grupos artísticos que trabalham no casarão
de artes da Maré através de indicações
de patrocínios às empresas que se relacionam
com a universidade. |
Na visão do presidente da Asfunrio, em pouco tempo,
o Centro Cultural deverá se transformar numa usina
de talentos que fornecerá artistas para os diversos
palcos da cidade, pois as atividades do casarão não
param um dia sequer. “O jovem da Maré está
sem opções de profissionalização.
E arte junto com o esporte pode ser um caminho muito promissor
para todos”, destacou Reinaldo.
Um dos grupos artísticos que mais impressionou os
expectadores foi “Resgate do Samba”, formado
por cinco meninos entre 11 e 13 anos, que tocam sambas clássicos
e chorinhos, utilizando banjo, cavaquinho, ganzá,
pandeiro, entre outros instrumentos. “O nome do grupo
é porque eles estão resgatando a vida deles
através da música”, explica o professor
Ricardo Mirapalheta, o organizador do grupo de sambistas
mirins.
MÃE
E FILHOS EM OFICINA DE HIP HOP
Uma mãe de 35 anos e seus dois filhos adolescentes
são as atrações da oficina de
hip hop comandada pelo professor Weber, no Centro
Cultural da Maré. Segundo Weber, a mulher canta
e dança o hip hop “muito bem” e
acaba incentivando os outros alunos da oficina. Weber
está há 12 anos na cultura hip hop e
diz que a oficina serve para levantar a auto-estima
dos jovens da Maré, que não têm
opções educacionais. |
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A mesma proposta tem Wemberson, professor de jiujtsu, uma
luta de defesa pessoal japonesa, consolidada no Brasil pela
família Gracie. Ebinho, como é conhecido na
Maré, informa ter 116 alunos de diversas idades e
não cobra nada pelas aulas pois seus alunos ainda
não podem pagar.
“Tenho alunos de 5 a 60 anos. É um esporte
que atrai muita gente pois utiliza mais técnica do
que força”. Segundo ele, alguns ex-alunos de
sua academia já estão ganhando campeonatos
em outros bairros. Ele pretende espalhar sua academia para
outras comunidades.
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ROQUEIROS
QUEREM ONGs MAIS FOCADAS NA CULTURA DO JOVEM
As diversas ONGs que atuam no Complexo da Maré
– mais de 15 favelas – deviam focar sua
atuação mais na cultura do jovem da
Maré e não em folclore, como algumas
costumar a bancar. Essa é a opinião
dos músicos Carlos Alexandre e Dazio Rosa,
da banda The Loks. Segundo eles, o jovem da Maré
tem muita informação, trocam experiências
com outros jovens, gostam de informática e
de estar sintonizado com o mundo. |
Para os roqueiros, o boom do gênero na Maré
aconteceu nos anos 1980, se expandiu nos anos 1990 e agora
pode se consolidar na comunidade que tem um local –
o Larguinho do Quarto Centenário – onde são
realizados shows de rock, hip hop e música popular.
Segundo Carlos Alexandre, diretor da Lona Cultural da Maré,
a complexidade cultural das comunidades da região
permite que existam espaços culturais para todos.
Por isso, é comum o forró e o pagode conviverem
harmonicamente. “Aqui é um celeiro de música
e de cultura. Muita gente faz sucesso aqui e se acaba se
destacando fora da comunidade”, diz Dazio.
| “CAPOEIRA
É UMA FILOSOFIA DE VIDA”
A capoeira não é apenas um jogo plástico
usando as pernas, mas uma filosofia de vida. Por isso,
atrai qualquer pessoa, independente de cor. Essa é
a definição do Mestre Manoel, líder
do Grupo Ypiranga de Capoeira Angola, seguidor da
herança de Mestre Pastinha. Ele realiza gratuitamente
oficinas no Centro Cultural da Maré para crianças,
jovens, adultos e idosos, obtendo resultados surpreendentes. |
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Além da capoeira, Mestre Manoel usa também
o jongo, maculelê e dança afro como apoio pedagógico
para ampliar a percepção dos alunos para as
variadas dimensões da cultura afro-brasileira. Na
sala de capoeira do Centro Cultural, existem diversas fotografias
de atuação do grupo no Brasil e na Alemanha,
França e Espanha.
Em datas importantes da comunidade negra, Manoel organiza
pequenos atos e manifestações na Maré
para chamar atenção para a importância
de Zumbi dos Palmares como um grande personagem histórico
brasileiro. “É um trabalho de conscientização,
que, muitas vezes, não é bem visto. A história
do negro não está nos livros didáticos”,
explica ele. Segundo Manoel, o povo sem educação
e cultura é facilmente manipulado.
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