| Molon
condena PT por assumir cargos no governo Sérgio Cabral
Por: Roberta Araujo
Contrário
à decisão do PT fluminense - que assumiu pastas
no secretariado de Sérgio Cabral -, o deputado Alessandro
Molon decidiu zelar pela imagem de político firme
e preferiu se declarar independente ao governo do Estado.
E avisa: se necessário, votará contra as decisões
do Palácio Guanabara. “A maioria do partido
entendeu de forma diferente, que o PT deveria participar
emprestando seus quadros ao governo, ocupando cargos e fazendo
parte da base. Essa não é a minha posição
pessoal. Declarei independência ao governo, não
fiz indicação de cargo algum. Portanto, me
sinto livre para votar contra aquilo que entender que é
prejudicial ao Estado, à população”.
Sobre o casamento entre petistas e peemedebistas a nível
federal, Molon diz que prefere acreditar que faz parte de
um desejo mútuo de fazer do Brasil um país
mais justo, mais inclusivo, onde se combata a pobreza, onde
se crie emprego e renda. “Quero crer que a motivação
do PMDB não foi a de aderir meramente por cargos”.
JORNAL
ASFUNRIO - Quem mudou mais para que a coligação
PT-PMDB pudesse ser fechada? O PT ou o PMDB? Afinal, os
dois não têm afinidade programática.
É pragmatismo político?
ALESSANDRO MOLON - Acho que para se governar
um País, um estado, um município, é
preciso ter capacidade de formar coalizões, de juntar
partidos diferentes. Sem maioria é mais difícil.
O importante é que essas coalizões não
sejam formadas em cima de distribuição de
cargos ou de nacos do poder. Mas em cima de programa, de
idéias, de uma linha, de um projeto. É em
cima disso que acho que devemos avaliar as coalizões.
Quando é em cima de um poder, de divisão de
cargos, é fadada ao fracasso. Não vai conseguir
produzir a mudança que deveria.
Então,
do seu ponto de vista, foi com a visão de governar
melhor que o PT fez coligação com o PMDB?
Essa capacidade de trazer aliados para governar é
importante. O perigo é ceder ao fisiologismo, às
práticas mais arraigadas da política, que
são práticas viciadas. trazer pessoas apenas
porque elas, em tese, dão sustentação,
mas que na prática defendem outro projeto. Por exemplo:
gente que está no governo e que apóia o presidente
Lula, mas é contra a reforma agrária. Essa
é uma das bandeiras do PT. Isso é contradição,
é um problema. Por isso, é importante ter
claro qual é o projeto para que aconteça.
E
o PMDB dá condições para que o projeto
do PT aconteça?
Acho que houve um diálogo programático. O
ministro Tarso Genro (Relações Institucionais)
teve cuidado de apresentar as propostas do segundo mandato
do presidente Lula e o PMDB teria lido e concordado, segundo
sua direção. Quero crer que foi isso que aconteceu.
Quero crer que a motivação do PMDB não
foi a de aderir meramente por cargos. Quero crer que, no
fundo, o desejo de fazer do Brasil um país mais justo,
mais inclusivo, onde se combata a pobreza, onde se crie
emprego e renda, onde o país tenha uma linha de desenvolvimento
soberana, tenha prevalecido. Tem uma parte do PMDB que se
identifica com isso. Um PMDB nacionalista, democrata e que
tem como horizonte a esquerda. Espero que esse grupo possa
prevalecer.
E
a coligação com o PMDB fluminense, que já
serviu aos governos dos Garotinhos?
Entendia que o PT não deveria ter entrado para o
governo. Quer dizer: ter assumido pastas. Defendi dentro
do PT, mas a maioria entendeu de forma diferente, que o
PT não deveria compor governo nesse momento. Que
deveria manter uma posição de independência,
colaborando com tudo que fosse positivo do governo e, ao
mesmo tempo, estando livre para votar contra o que não
fosse de interesse da população. A maioria
do partido entendeu de forma diferente, que o PT deveria
participar desde o início do governo, emprestando
seus quadros, ocupando cargos e fazendo parte da base. Essa
não é a minha posição. Declarei
independência ao governo, não fiz indicação
alguma de cargos.
Portanto, me sinto livre para votar contra aquilo que entender
que é prejudicial ao Estado, à população.
A
corrida municipal começa no ano que vem. O senhor
acha que a coligação PT-PMDB tem data de validade,
uma vez que vão se enfrentar em várias cidades?
Acho que se funcionar e o governo for bem sucedido, conseguir
unificar o PT em torno de seus projetos, isso pode até
colaborar para que haja outras alianças na eleição
municipal. Por exemplo: o PT pode ter um candidato que conte
com a simpatia do governador do Estado. O governador pode
ter dois, três candidatos da sua base, do PMDB, do
PT. É possível que isso se faça de
maneira cortês, elegante, delicada. Acho que a democracia
brasileira já está madura para compreender
essas nuances.
A nível nacional, o PT tem um acordo de apoiar
o PMDB para o lançamento do próximo presidente
da Câmara dos Deputados, depois de Arlindo Chinaglia.
Os peemedebistas têm cargos no governo federal. O
senhor não acha que pode surgir um desiquilíbrio
entre as siglas a partir daí, o que pode gerar também
conseqüências nos estados?
Achei essa composição arriscada. Talvez o
desiquilíbrio entre as siglas aconteça a partir
daí. Esse apoio começou a ser delineado nos
dois últimos anos do primeiro mandato do presidente
Lula. Sempre achei precipitado. De fato, é preciso
avaliar a médio prazo quais as conseqüências
disso. Essa é uma incógnita. De que maneira
o futuro presidente da Câmara da gestão 2009-2010
vai se comportar? Que reflexos isso terá na escolha
do candidato à sucessão? Quem será
o candidato do presidente Lula? Será que esse candidato
também terá apoio do atual presidente da Câmara?
De que maneira isso pode levar a um esgarçamento
entre o presidente da Câmara e o presidente Lula?
Essas são questões delicadas. Por isso, achei
esse acordo, no mínimo, ousado demais.
O
senhor é favorável à anistia ao ex-ministro
José Dirceu?
Não vejo essa iniciativa como boa. Acho que o País
tem outras preocupações, outras pautas. Considero
que o próprio PT tem outras necessidades. Se o deputado
José Dirceu entende que isso deve ocupar o seu tempo
porque é a vida dele, é o nome dele, é
um problema pessoal dele. Sinceramente, não acredito
que seja possível para o País, para o governo
federal, para a cidadania, para o PT, que essa campanha
seja levada à frente. Não acredito que o PT
como partido vá se envolver nisso, porque sabe que
é um grave equívoco político investir
nisso, apostar nisso. |