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Bala perdida mata a esmo ou tem direção?

Reinaldo Cunha
Vivemos hoje num Brasil massacrado pela guerra civil, que condena à morte centenas de pessoas inocentes por ano, vítimas de arma de fogo. O ano de 2007, mal começou e já contabiliza mais de 1.000 mortes só no Rio. A maioria acredita que a bala perdida mata a esmo, crendo que ela não tem direção. Mas será que não é o contrário? Acredito, sim, que a bala perdida tem direção e alvo. Elas, infelizmente, atingem os pobres, os negros, as crianças inocentes e os favelados.

Então, fico repetindo para mim a mesma pergunta: será que o pobre não tem espaço nessa sociedade consumista, base da ideologia neoliberal? O grande nó da questão é a seguinte: o que fazer?

Não há oferta de emprego, não há vagas nas escolas, enfim, não há respeito à vida humana. Outro drama é perceber que muitos não estão nem aí para essas realidades, pois crêem que em curto prazo o problema da violência, do desemprego não será resolvido.E o que dizer dos filhos dos ricos e da classe média que engrossam as estatísticas dos esquemas ilícitos e até mesmo de assassinatos? Recentemente, uma criança foi arrastada como um bagaço pelas ruas da cidade, causando grande comoção no país, e aprofundando o debate da maioridade penal e a reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente. De quem é a culpa? Essa barbaridade que tem vitimado milhares de pessoas todos os dias está a serviço de quem?

Por outro lado, continuo a bater numa outra tecla. Por que será que o programa Bolsa Família, do governo federal, o Cheque Cidadão, do governo estadual, não resolvem o problema? Por que será que esses governos gastam rios de dinheiro na área social e não conseguem nenhuma solução? O governador Sérgio Cabral está propondo uma discussão séria em torno da discriminação da maconha, do jogo do bicho e do aborto. Não serão esses os temas que devemos trazer para a luz do direito? Quantos milhões de recursos ainda serão desperdiçados nessa guerra sem solução?

O atual governo afirma que está fazendo um levantamento sobre os gastos no combate às drogas e na recuperação dos viciados. Será que sobrará alguma coisa para investir em educação, em saúde? Sem solução aparente, nos leva a crer que a troca de tiros entre a polícia e os bandidos continuará matando inocentes, indignando a sociedade que agora se mobiliza em protestos.

Será que não BASTA? Ainda possivelmente longe de encontrarmos uma solução, deveríamos pelo menos repensar alguns dos dez mandamentos já conhecidos da sociedade. Ou seja: amar o próximo como a ti mesmo, respeitar o mais velho, não matar, não roubar... Se começarmos a reavaliar esses valores, acredito que os direitos humanos voltariam a ser respeitados, algo que já foi perdido no terceiro milênio.

Para mim, existe também uma outra saída. Investir em atividades culturais, fazer com que as pessoas redescubram seus potenciais, seus dons de interação com o mundo, com o próximo. Acredito ser esta uma grande chance para muitos conseguirem se libertar da miséria, da violência. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, já deu o primeiro passo, convocando a sociedade civil e o grupo Afroreggae para realizar uma ação conjunta, no sentido de criar projetos culturais. Sérgio Cabral disse que pretende copiar. Agora nos cabe esperar e rezar para que tudo dê certo. Quem sabe isso salve as nossas crianças! Vou torcer!.


*Reinaldo é presidente da Asfunrio e membro do conselho do Previ-Rio.

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